Por trás desse grão tão comum tem um tanto de teimosia, ciência e decisão que quase nunca entra na conversa.
Ô trem curioso é essa tal de soja. Tá em todo canto, no óleo da cozinha, na ração do frango, no porco, no boi, e mesmo assim pouca gente para pra pensar como é que um grãozinho desses ganhou tanta moral por aqui. Lá na roça a gente aprende cedo que nada vira gigante do dia pra noite. Tudo tem história, erro, tentativa, e um bocado de insistência. E com a soja não foi diferente, não senhor.
Pra começo de conversa, a soja nem brasileira é. Veio lá da China, domesticada há mais de cinco mil anos pelo imperador Shen-nung, segundo contam os registros antigos. Agora, pensa comigo, quem diria que uma planta acostumada com noites curtas e clima mais frio ia se sentir em casa num país de sol quente e dias longos? Pois é. Ela só chegou oficialmente ao Brasil em 1882, trazida pelo professor Gustavo Dutra, da Escola de Agronomia da Bahia. Veio quietinha, sem alarde, quase pedindo licença.
Quando a soja ainda era figurante
Lá no fim do século XIX e começo do XX, soja era coisa pequena, usada mais como feno pra alimentar gado em propriedades miúdas. Não era estrela de nada. A primeira produção econômica mesmo só aconteceu em 1941, em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul. Até ali, ninguém apostava ficha alta nesse grão. E cá entre nós, quantas vezes a gente também não subestima algo só porque ainda não mostrou serviço?
O curioso é que foi justamente essa humildade inicial que abriu caminho. A soja entrou na rotina do produtor como coadjuvante, ajudando na ração de bovinos, depois de suínos e aves. Aos poucos, foi mostrando que entregava mais do que prometia. E aí, quando o mercado mundial resolveu prestar atenção nela, lá pelos anos 1970, a porteira abriu de vez.
Naquela década, o preço lá fora puxou a produção brasileira de um jeito que nem o mais otimista imaginava. Em poucos anos, a soja saiu de uma produção tímida pra virar protagonista da lavoura nacional. E tem um detalhe que pouca gente comenta, mas faz toda diferença, a safra brasileira entra justamente quando os Estados Unidos estão na entressafra. Já pensou nisso? O relógio da fazenda não marca a mesma hora em todo lugar do mundo.
Ciência, paciência e um pouco de ousadia
Agora, se a soja virou rainha dos trópicos, não foi só por teimosia de produtor, não. Teve ciência pesada nisso tudo. Pesquisadores da Embrapa identificaram genes que funcionam como verdadeiros prolongadores de juventude da planta, atrasando o envelhecimento. Parece conversa de boteco, mas é coisa séria de laboratório. Graças a isso, surgiram cultivares adaptadas a climas quentes, abrindo as porteiras do Centro-Oeste, do Norte e do Matopiba.
Antes disso, soja nessas regiões era sonho distante. Depois, virou realidade de lavoura grande, reduzindo risco climático e aumentando o número de grãos por planta. No fim das contas, o produtor sente no bolso, menos perda, mais estabilidade, custo mais comportado. E a pergunta que fica é, se a terra responde quando a gente investe em conhecimento, por que ainda tem quem ache pesquisa gasto e não investimento?
Outro ponto que mudou o jogo foi a adoção da soja transgênica. Desde 1998, a soja RR, resistente a herbicidas, foi aprovada no Brasil. Hoje, cerca de 96% da área cultivada usa essa tecnologia, ocupando 34,86 milhões de hectares. É um recorde mundial, e não é por moda. No dia a dia da fazenda, isso significa manejo mais simples, menos custo operacional e mais previsibilidade. O gado não espera boa vontade, e a lavoura também não.




