Atualizando...

A mania da soja que a fazenda aprendeu no silêncio

Redação
15/01/2026 às 07:38
A mania da soja que a fazenda aprendeu no silêncio

Por trás desse grão tão comum tem um tanto de teimosia, ciência e decisão que quase nunca entra na conversa.

Ô trem curioso é essa tal de soja. Tá em todo canto, no óleo da cozinha, na ração do frango, no porco, no boi, e mesmo assim pouca gente para pra pensar como é que um grãozinho desses ganhou tanta moral por aqui. Lá na roça a gente aprende cedo que nada vira gigante do dia pra noite. Tudo tem história, erro, tentativa, e um bocado de insistência. E com a soja não foi diferente, não senhor.

Pra começo de conversa, a soja nem brasileira é. Veio lá da China, domesticada há mais de cinco mil anos pelo imperador Shen-nung, segundo contam os registros antigos. Agora, pensa comigo, quem diria que uma planta acostumada com noites curtas e clima mais frio ia se sentir em casa num país de sol quente e dias longos? Pois é. Ela só chegou oficialmente ao Brasil em 1882, trazida pelo professor Gustavo Dutra, da Escola de Agronomia da Bahia. Veio quietinha, sem alarde, quase pedindo licença.

Quando a soja ainda era figurante

Lá no fim do século XIX e começo do XX, soja era coisa pequena, usada mais como feno pra alimentar gado em propriedades miúdas. Não era estrela de nada. A primeira produção econômica mesmo só aconteceu em 1941, em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul. Até ali, ninguém apostava ficha alta nesse grão. E cá entre nós, quantas vezes a gente também não subestima algo só porque ainda não mostrou serviço?

O curioso é que foi justamente essa humildade inicial que abriu caminho. A soja entrou na rotina do produtor como coadjuvante, ajudando na ração de bovinos, depois de suínos e aves. Aos poucos, foi mostrando que entregava mais do que prometia. E aí, quando o mercado mundial resolveu prestar atenção nela, lá pelos anos 1970, a porteira abriu de vez.

Naquela década, o preço lá fora puxou a produção brasileira de um jeito que nem o mais otimista imaginava. Em poucos anos, a soja saiu de uma produção tímida pra virar protagonista da lavoura nacional. E tem um detalhe que pouca gente comenta, mas faz toda diferença, a safra brasileira entra justamente quando os Estados Unidos estão na entressafra. Já pensou nisso? O relógio da fazenda não marca a mesma hora em todo lugar do mundo.

Ciência, paciência e um pouco de ousadia

Agora, se a soja virou rainha dos trópicos, não foi só por teimosia de produtor, não. Teve ciência pesada nisso tudo. Pesquisadores da Embrapa identificaram genes que funcionam como verdadeiros prolongadores de juventude da planta, atrasando o envelhecimento. Parece conversa de boteco, mas é coisa séria de laboratório. Graças a isso, surgiram cultivares adaptadas a climas quentes, abrindo as porteiras do Centro-Oeste, do Norte e do Matopiba.

Antes disso, soja nessas regiões era sonho distante. Depois, virou realidade de lavoura grande, reduzindo risco climático e aumentando o número de grãos por planta. No fim das contas, o produtor sente no bolso, menos perda, mais estabilidade, custo mais comportado. E a pergunta que fica é, se a terra responde quando a gente investe em conhecimento, por que ainda tem quem ache pesquisa gasto e não investimento?

Outro ponto que mudou o jogo foi a adoção da soja transgênica. Desde 1998, a soja RR, resistente a herbicidas, foi aprovada no Brasil. Hoje, cerca de 96% da área cultivada usa essa tecnologia, ocupando 34,86 milhões de hectares. É um recorde mundial, e não é por moda. No dia a dia da fazenda, isso significa manejo mais simples, menos custo operacional e mais previsibilidade. O gado não espera boa vontade, e a lavoura também não.

O solo agradece, o sistema também

E se tem uma revolução silenciosa que anda junto com a soja é o tal do plantio direto. Plantar sem arar, mantendo a palhada, parece contraintuitivo pra quem aprendeu no braço e na enxada. Mas o resultado tá aí, solo mais protegido, menos erosão, mais matéria orgânica e nutrientes que ficam pra próxima cultura, como milho e feijão.

No Centro-Oeste, essa prática foi fundamental pra expandir área sem destruir o chão. Menos diesel, menos máquina rodando, mais vida no solo. E aí entra outra sacada esperta do produtor brasileiro, a integração lavoura-pecuária. Soja e gado se revezando, um ajudando o outro, junto com o Manejo Integrado de Pragas, o tal do MIP. Menos química, mais equilíbrio. Sustentabilidade que não fica só no discurso bonito.

Hoje, estados como Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul respondem por mais da metade da produção nacional. Mato Grosso sozinho colheu 30,5 milhões de toneladas na safra 2016/17, segundo a Conab. E a produtividade média cresceu mais de 43% entre 1998 e 2017, chegando a 3,3 toneladas por hectare. Números impressionam, mas o que mais chama atenção é o caminho até eles.

No fim das contas, a soja virou motor de emprego, renda e alimento barato. Gera cerca de 1,4 milhão de empregos ao longo da cadeia, movimenta armazém, estrada, porto, e chega até a mesa de quem nunca pisou numa lavoura. O consumidor sente no preço do óleo, da carne, do ovo, mesmo sem saber de onde vem essa história toda.

E aí eu te pergunto, será que a cidade entende mesmo o tanto de decisão, risco e aprendizado que tem por trás desse grão tão comum? Ou será que a soja só vira assunto quando o preço sobe ou quando alguém resolve apontar o dedo?

Na roça, a gente aprende que nada é simples. A soja ensinou isso ao Brasil, devagar, safra após safra, sem fazer muito barulho. Quem vive do campo sabe, quem observa com atenção aprende. E quem escuta a terra, quase sempre colhe mais do que plantou.

Agronews é informação para quem produz.

soja

Compartilhe esta notícia: