Se a quarta-feira trouxe um breve suspiro de alívio com ventos diplomáticos, a quinta-feira amanheceu nos lembrando de que o xadrez global é implacável. O pêndulo do mercado voltou a oscilar fortemente para a aversão ao risco, impulsionado por um Oriente Médio que parece cada vez mais distante de um cessar-fogo.
Neste cenário de nervos à flor da pele, as cotações em Chicago tentam se reerguer, mas a grande luz amarela que se acende para o produtor brasileiro não vem das telas, e sim da planilha de custos. Abaixo, trago a nossa leitura sobre os vetores que definem o dia de hoje.
O recrudescimento no Oriente Médio e a pressão no Câmbio
A esperança de um acordo de paz definitivo entre Estados Unidos e Irã foi ofuscada por novos ataques norte-americanos em território iraniano. A resposta do mercado de energia foi imediata e agressiva. Os contratos de petróleo (tanto o Brent quanto o WTI) saltaram mais de 2% nesta quinta-feira.
Esse choque no petróleo reverbera diretamente nas moedas de países emergentes, e o real não escapou ileso. Pressionado pela aversão global ao risco e pela força do óleo bruto, o dólar opera em firme alta nesta manhã, rompendo patamares e sendo cotado a R$ 5,0738. Essa valorização da moeda americana encarece nossa pauta de importações e adiciona uma camada extra de volatilidade para quem precisa travar custos neste momento.
Chicago respira. Soja e milho em recuperação
Após dias de pressão, a Bolsa de Chicago (CBOT) amanheceu no campo positivo. O grande destaque é a soja, que voltou a romper o importante patamar psicológico e técnico dos US$ 12,00 por bushel, sinalizando um movimento de correção frente às perdas recentes. O milho pega carona nesse otimismo e também opera com viés de alta.
Lá fora, os traders estão com os olhos cravados no céu do Corn Belt. Com o plantio americano entrando em sua reta final, as atenções se voltam agora para o clima e para a qualidade do estabelecimento inicial dessas lavouras. Qualquer anomalia climática nas próximas semanas poderá adicionar um novo prêmio de risco às cotações.
O alerta vermelho dos Custos de Produção no Brasil
Enquanto Chicago acompanha o clima americano, o produtor brasileiro precisa olhar friamente para o próprio bolso. Um estudo técnico divulgado pelo analista Jeferson Souza, da Agrinvest Commodities, traduziu em números o que já vínhamos sentindo na pele. A safra 2026/27 será desafiadora do ponto de vista das margens.
Os dados mostram que o custo de produção da soja no Brasil está 5,7 sacas por hectare mais caro do que a média dos últimos sete anos. Se compararmos com a safra anterior (2025/26), que já não havia sido barata, o produtor precisará desembolsar 2,8 sacas a mais por hectare apenas para cobrir os custos. O grande vilão dessa conta? A alta expressiva nos preços dos fertilizantes. Com custos engessados e margens espremidas, a eficiência na comercialização e nas operações de barter deixam de ser um diferencial e passam a ser uma questão de sobrevivência para o próximo ciclo
O que você precisa levar no radar hoje Para direcionar suas decisões nesta quinta-feira, destaco os cinco pontos cruciais do mercado.
Retorno aos US$ 12,00. A soja mostra resiliência na CBOT e recupera terreno vital, puxando o milho no mesmo embalo.
Choque do petróleo. Novos ataques dos EUA ao Irã afastam a paz e fazem o barril disparar mais de 2%, reativando o prêmio de risco global.
Dólar valorizado. Acompanhando o clima tenso e as moedas emergentes, o dólar ganha força ante o real, batendo na casa dos R$ 5,07.
Margens apertadas (atenção redobrada). O custo da safra 26/27 no Brasil dispara, exigindo 5,7 sc/ha acima da média histórica, um peso puxado diretamente pelos fertilizantes (dados Agrinvest).
Reta final nos EUA. O mercado segue monitorando as condições climáticas no Meio-Oeste americano para avaliar o nascimento das lavouras recém-plantadas.
O momento exige proteção de margens e estratégia afiada. Seguimos monitorando os fundamentos físicos e financeiros para apoiar o seu negócio.
Por Luiz Cunha – Consultor de mercado físico de grãos e fertilizantes