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Jumentos do Ceará valem centavos no sertão e uma fortuna na China

Redação
28/05/2026 às 11:49
Jumento nordestino com cargas no sertão do Ceará

O paradoxo de um animal que construiu o Nordeste e agora pode desaparecer pela própria pele

Enquanto um jumento nordestino é negociado por R$ 1 nas feiras do Ceará, sua pele processada chega a valer R$ 1.500 na China para a indústria de cosméticos.

O produto final se chama ejiao, um colágeno extraído da pele dos asininos e usado há séculos pela medicina tradicional chinesa. A demanda global por essas peles cresceu 160% entre 2016 e 2021, segundo dados do mercado internacional. O Brasil, que já teve o maior rebanho de jumentos da América Latina, agora assiste a um declínio acelerado.

O paradoxo do jumento nordestino, de R$ 1 no abandono a R$ 1.500 no exterior

Jumento nordestino no sertão do Ceará
Jumento nordestino ainda exerce função de transporte no sertão cearense apesar do declínio populacional

O Brasil perdeu 94% da sua população de asininos entre 1999 e 2025. Em 1999, eram 1,37 milhão de animais espalhados pelo território nacional. No ano passado, restavam apenas 78 mil. O Ceará também sentiu o impacto. O estado perdeu 72% dos seus jumentos entre 1995 e 2017, caindo de 193 mil para 53 mil cabeças.

Os animais que antes transportavam água, pessoas e mantimentos pelo sertão hoje vivem abandonados. Só nos primeiros quatro meses de 2026, o Detran-CE recolheu 549 jumentos soltos em vias públicas. O valor irrisório do animal vivo contrasta com o lucro astronômico da cadeia de peles.

A reprodução do jumento é um gargalo biológico. A gestação dura de 12 a 13 meses, com apenas um filhote por vez, e a maturidade sexual chega entre 3 e 5 anos. Para recompor uma população, o tempo necessário é muito maior do que a taxa de abate exige.

Patrícia Tatemoto, especialista da The Donkey Sanctuary, concedeu entrevista ao Diário do Nordeste e afirmou que a velocidade de abate para atender à demanda industrial é muito maior do que a capacidade de reposição populacional da espécie. Ela também destacou que em nenhum lugar do mundo a venda de peles de jumento é economicamente viável diante da atual e crescente demanda do mercado de ejiao.

O futuro incerto de uma espécie que carregou o sertão

A pesquisadora Débora Façanha, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), define o animal com exatidão. “O jumento foi o maior desenvolvimentista do sertão”, afirmou ao Diário do Nordeste. Ela pondera que, diante da escolha entre gado de corte e jumento, o produtor rural sempre fica com o boi. “Dificilmente uma pessoa vai deixar de investir em gado, que já é um comércio certo”, completou a pesquisadora.

O alerta da The Donkey Sanctuary é ainda mais grave. Mantido o ritmo atual de abate, existe risco real de desaparecimento populacional do jumento brasileiro nos próximos anos. Em 2030, se o abate não parar, não haverá mais animais, afirmou Patrícia Tatemoto ao Diário do Nordeste. A projeção internacional indica que 6,8 milhões de jumentos podem ser abatidos globalmente em 2027.

Do lado da legislação, movimentos importantes avançam. A Comissão de Direitos Humanos do Senado aprovou a Sugestão Legislativa SUG 9/2025, que propõe proibir o abate de jumentos em todo o país. A Bahia já proibiu o abate em abril de 2026. A União Africana, com 55 países, também baniu o abate continentalmente.

Enquanto o jumento nordestino não é reconhecido como raça pelo Ministério da Agricultura, a raça Pêga registrada vale de R$ 15 mil a R$ 100 mil. Criado solto à margem da economia formal, o animal do sertão não tem valor de mercado, mas sustenta uma indústria bilionária na China.

CaracterísticaJumento nordestinoBovino de corte
Gestação12 a 13 meses9 meses
Filhotes por parto11
Maturidade sexual3 a 5 anos2 a 3 anos
Tempo de recomposiçãoLento, acima de 15 anosRápido, poucos anos
Risco atualExtinção possível até 2030Nenhum

Uma luz no horizonte vem da ciência. A Universidade Federal do Paraná pesquisa colágeno de jumento produzido em laboratório. A tecnologia tem potencial de mercado estimado em R$ 2 bilhões por ano. Se bem-sucedida, pode eliminar a necessidade de abate e salvar a espécie.

O paradoxo está posto. Um animal que vale centavos no Nordeste brasileiro pode render uma fortuna na China. Mas, sem uma cadeia sustentável e com a reprodução lenta, o risco é que o jumento nordestino desapareça antes que o mundo descubra o seu verdadeiro valor.

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