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Trigo sente políticas agrícolas globais e pressão das importações

Redação
14/01/2026 às 10:37
Trigo sente políticas agrícolas globais e pressão das importações

Oferta mundial elevada e decisões externas travam reação de preços no mercado brasileiro.

O que está por trás das cotações do trigo neste início de ano?

O produtor de trigo começa 2026 olhando para uma conta que não fecha fácil. Mesmo com leves altas pontuais em algumas praças, o mercado segue travado. O ponto central não está só no clima ou no custo da lavoura, mas principalmente nas políticas agrícolas internacionais que mantêm a oferta global elevada e limitam qualquer reação mais firme de preços.

Na prática, o trigo brasileiro está competindo com um mercado externo abastecido, subsidiado em várias regiões e com estoques confortáveis. Isso bate direto no preço recebido na porteira.

Contexto e preços no mercado interno

Os números mais recentes do Cepea mostram bem essa falta de direção clara. No Paraná, a tonelada do trigo foi cotada a R$ 1.178,25 em 13/01/2026, com leve alta diária de 0,30%. No Rio Grande do Sul, o preço ficou em R$ 1.054,04/t, avanço de 0,35% no mesmo dia.

Quando se olha o indicador nacional CEPEA, a leitura muda. Em 12/01/2026, o valor médio foi de R$ 1.174,75/t, com queda diária de 0,35% e recuo semanal de 0,63%. No atacado do Paraná, segundo o DERAL/SEAB, a saca foi negociada a R$ 62,99 em 13/01/2026, queda de 0,25%.

O que muda a conversa é que essas oscilações são muito mais técnicas do que estruturais. O mercado físico segue pressionado.

Políticas agrícolas internacionais e oferta global

Do lado externo, o relatório do USDA de janeiro de 2026 reforçou um cenário de oferta mundial ampla. A produção global de trigo na safra 2025/26 foi estimada em 837,8 milhões de toneladas, crescimento de 1,1% frente a novembro e 4,6% acima da safra 2024/25. O consumo mundial também cresce, mas em ritmo menor, chegando a 822,97 milhões de toneladas.

Esse descompasso mantém os estoques elevados. E estoques altos são reflexo direto de políticas agrícolas adotadas por grandes produtores, que seguem incentivando produção, protegendo renda do agricultor local e garantindo competitividade no mercado internacional.

Mesmo com tensões geopolíticas no Mar Negro, o volume disponível no mundo tem sido suficiente para evitar picos de preço. Para o Brasil, isso significa trigo importado chegando com valores competitivos, pressionando o mercado interno.

Importações e o impacto direto no bolso do produtor

Em 2025, o Brasil importou 6,894 milhões de toneladas de trigo, alta de 3,7% em relação a 2024 e o maior volume desde 2013, segundo dados da Secex compilados pelo CEPEA. Esse movimento não aconteceu por acaso.

Na prática, o produtor sente isso no bolso quando a indústria prefere comprar trigo de fora, amparada por preços internacionais mais baixos e políticas agrícolas que sustentam essa oferta externa.

Além disso, o CEPEA aponta que a área plantada de trigo no Brasil em 2025 caiu de forma significativa. Ou seja, mesmo com menos trigo nacional disponível, a importação segue preenchendo o espaço, o que limita qualquer reação mais consistente dos preços internos.

Chicago, câmbio e reflexo das decisões externas

Na Bolsa de Chicago, referência global, os contratos também refletem esse ambiente. Em 13/01/2026, o trigo março/26 foi cotado a US$ 5,1050 por bushel, queda de 0,15%. O contrato maio/26 fechou a US$ 5,2175/bushel, recuo de 0,19%.

Esses preços internacionais são consequência direta das políticas de estímulo à produção em países-chave e do controle de estoques estratégicos. Para o produtor brasileiro, Chicago fraca combinada com câmbio sem grandes saltos reduz a competitividade do trigo nacional frente ao importado.

Custos de produção e margens apertadas

Do lado da porteira para dentro, o problema não é só o preço. Os custos seguem elevados, especialmente em insumos e manejo. Com a cotação pressionada por fatores externos, a margem fica apertada.

O produtor que não travou preço ou não fez uma boa gestão de custos sente mais. Em muitas regiões, o trigo segue sendo importante para rotação de culturas e uso da área no inverno, mas a decisão econômica está cada vez mais fina.

Clima e fretes: o que não mudou o jogo até agora

Na semana analisada, não houve dados oficiais recentes de clima ou frete divulgados por órgãos como CEPEA, Embrapa ou Conab. Isso reforça que, neste momento, o mercado está reagindo muito mais a fundamentos globais e políticas agrícolas internacionais do que a fatores logísticos ou climáticos.

Estratégias práticas para o produtor de trigo

Com esse cenário, não existe bala de prata, mas algumas linhas de decisão ajudam a reduzir risco:

  • Acompanhar de perto o mercado internacional, especialmente relatórios do USDA, que ditam o tom das políticas e da oferta global.
  • Negociar com a indústria local buscando prêmios de qualidade, quando possível, para fugir da referência pura do trigo importado.
  • Avaliar bem o timing de venda, aproveitando altas pontuais no mercado regional, mesmo que curtas.
  • Planejar a próxima safra considerando o trigo como parte do sistema, e não apenas pelo preço isolado.

O ponto é que, enquanto as políticas agrícolas internacionais continuarem sustentando uma oferta global elevada, o mercado brasileiro de trigo tende a operar defensivo.

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