Oferta mundial elevada e decisões externas travam reação de preços no mercado brasileiro.
O que está por trás das cotações do trigo neste início de ano?
O produtor de trigo começa 2026 olhando para uma conta que não fecha fácil. Mesmo com leves altas pontuais em algumas praças, o mercado segue travado. O ponto central não está só no clima ou no custo da lavoura, mas principalmente nas políticas agrícolas internacionais que mantêm a oferta global elevada e limitam qualquer reação mais firme de preços.
Na prática, o trigo brasileiro está competindo com um mercado externo abastecido, subsidiado em várias regiões e com estoques confortáveis. Isso bate direto no preço recebido na porteira.
Contexto e preços no mercado interno
Os números mais recentes do Cepea mostram bem essa falta de direção clara. No Paraná, a tonelada do trigo foi cotada a R$ 1.178,25 em 13/01/2026, com leve alta diária de 0,30%. No Rio Grande do Sul, o preço ficou em R$ 1.054,04/t, avanço de 0,35% no mesmo dia.
Quando se olha o indicador nacional CEPEA, a leitura muda. Em 12/01/2026, o valor médio foi de R$ 1.174,75/t, com queda diária de 0,35% e recuo semanal de 0,63%. No atacado do Paraná, segundo o DERAL/SEAB, a saca foi negociada a R$ 62,99 em 13/01/2026, queda de 0,25%.
O que muda a conversa é que essas oscilações são muito mais técnicas do que estruturais. O mercado físico segue pressionado.
Políticas agrícolas internacionais e oferta global
Do lado externo, o relatório do USDA de janeiro de 2026 reforçou um cenário de oferta mundial ampla. A produção global de trigo na safra 2025/26 foi estimada em 837,8 milhões de toneladas, crescimento de 1,1% frente a novembro e 4,6% acima da safra 2024/25. O consumo mundial também cresce, mas em ritmo menor, chegando a 822,97 milhões de toneladas.
Esse descompasso mantém os estoques elevados. E estoques altos são reflexo direto de políticas agrícolas adotadas por grandes produtores, que seguem incentivando produção, protegendo renda do agricultor local e garantindo competitividade no mercado internacional.
Mesmo com tensões geopolíticas no Mar Negro, o volume disponível no mundo tem sido suficiente para evitar picos de preço. Para o Brasil, isso significa trigo importado chegando com valores competitivos, pressionando o mercado interno.
Importações e o impacto direto no bolso do produtor
Em 2025, o Brasil importou 6,894 milhões de toneladas de trigo, alta de 3,7% em relação a 2024 e o maior volume desde 2013, segundo dados da Secex compilados pelo CEPEA. Esse movimento não aconteceu por acaso.
Na prática, o produtor sente isso no bolso quando a indústria prefere comprar trigo de fora, amparada por preços internacionais mais baixos e políticas agrícolas que sustentam essa oferta externa.




