Frete caro já aperta a margem; reduzir perda no caminho virou decisão de gestão, não detalhe operacional.
O ponto central da logística de grãos em 2026 é simples e duro: o frete está caro e come margem antes mesmo do caminhão sair da fazenda. Para soja e milho, especialmente em Mato Grosso, o custo de levar a produção até o mercado limita qualquer repasse de alta externa e transforma perda no transporte em dinheiro jogado fora. O desafio imediato para o produtor não é só vender bem, mas entregar sem perder peso, qualidade e valor.
Onde o frete aperta e por que ele define o preço recebido
Os números de frete deixam claro o tamanho do gargalo. Segundo o IMEA, em janeiro de 2026 o transporte de Sorriso-MT até Cuiabá custava R$ 129,42 por tonelada. Para Miritituba, no Arco Norte, o valor sobe para R$ 277,43 por tonelada. Já a rota até Paranaguá chega a R$ 446,09 por tonelada. Na prática, isso significa que a decisão de para onde vender pesa tanto quanto o preço da saca.
Com soja no Paraná negociada a R$ 133,85 por saca e no porto de Paranaguá a R$ 142,14 por saca no início de janeiro de 2026, o produtor do Centro-Oeste sente que o ganho no preço não acompanha o custo do deslocamento. O mesmo vale para o milho, com o físico CEPEA em R$ 69,13 por saca e contratos futuros na B3 para janeiro de 2026 a R$ 68,73 por saca. Frete caro trava a competitividade e aumenta o peso de qualquer perda no caminho.
Perda no transporte não é só grão no chão
Quando se fala em perdas logísticas, muita gente pensa apenas em grãos derramados na estrada. Isso existe, mas o problema é mais amplo. Perda também é desconto por umidade fora do padrão, avaria por mistura de impurezas, quebra técnica por manuseio inadequado e até atraso que faz o produtor perder a janela de melhor preço.
Em um cenário de oferta elevada, como o projetado para a safra 2025/26, com produção recorde de grãos estimada em 354,8 milhões de toneladas no Brasil, a indústria e o exportador ficam mais exigentes. Qualquer desvio vira argumento para desconto. Na prática, o produtor sente isso no bolso quando o romaneio fecha abaixo do esperado.
Clima, safra cheia e logística estressada
A irregularidade das chuvas e as altas temperaturas no Centro-Oeste reduziram a janela da soja e apertaram o calendário do milho segunda safra, responsável por cerca de 80% da oferta nacional. Isso concentra colheita, aumenta a disputa por caminhões e pressiona ainda mais os fretes, como já alertam IMEA e CEPEA.
Com área de milho primeira safra estimada em 22,7 milhões de hectares e produção mundial elevada, o mercado interno fica pressionado. Exportar vira necessidade, mas exportar exige logística afinada. Sem isso, o produtor paga a conta em forma de frete alto e perda operacional.
Câmbio e Chicago ajudam pouco se a logística falha
Mesmo com a soja em Chicago para março cotada a US$ 10,68 por bushel em 12 de janeiro de 2026, a formação de preço no interior não reage na mesma proporção. A combinação de frete elevado e movimentos de câmbio limita o repasse. O que muda a conversa não é só olhar a tela, mas entender quanto da saca fica pelo caminho.




