Preços firmes na entressafra e avanços industriais criam oportunidades, mas exigem leitura fina do ciclo.
O mercado de etanol entra neste início de ano com dois movimentos claros para quem investe ou produz. No curto prazo, os preços seguem firmes na entressafra, com demanda aquecida e estoques ajustados no Centro-Sul. No médio prazo, a conversa muda: a próxima safra pode entregar mais oferta do que o mercado consegue absorver, especialmente com a expansão do etanol de milho e um cenário internacional de açúcar mais frouxo. O desafio é separar oportunidade de euforia e entender onde a tecnologia realmente agrega margem.
Onde os preços estão dando sinal verde
Os dados do Cepea mostram um mercado firme ao produtor. Entre 29/12/2025 e 02/01/2026, o etanol hidratado foi negociado em média a R$ 2,9561 por litro nas usinas paulistas, sem impostos. É a 12ª semana consecutiva de alta, com avanço de 0,90% frente à semana anterior. O anidro acompanhou o movimento, cotado a R$ 3,3688 por litro, com alta de 0,59%, a segunda seguida.
Na prática, isso não é só preço bonito na planilha. As vendas reagiram forte: o volume comercializado de hidratado subiu 43% na semana, enquanto o anidro praticamente triplicou. O que sustenta esse ritmo é a combinação clássica de entressafra: menos produto disponível, demanda ativa e necessidade da indústria de garantir fluxo.
Entressafra favorece caixa e liquidez
Entre janeiro e março de 2026, o cenário segue favorável para quem tem produto. Estoques reduzidos no Centro-Sul e consumo firme mantêm os preços sustentados. Para o investidor industrial ou financeiro, isso significa menor risco de curto prazo e maior previsibilidade de receita.
É nesse ambiente que muitos projetos ganham fôlego: ampliação de capacidade, ajustes de eficiência energética e investimentos em automação. O ponto é que a entressafra não dura para sempre. Ela ajuda a pagar a conta agora, mas não garante margem lá na frente.
O que muda quando a safra 2026/27 começa a rodar
A partir de abril de 2026, o mercado começa a precificar outro filme. A expectativa é de uma moagem no Centro-Sul em torno de 625 milhões de toneladas de cana. O risco colocado pelos próprios agentes do setor é claro: a oferta total de etanol pode superar a demanda.
Dois vetores pesam aqui. O primeiro é o mix. Com um cenário internacional apontando superávit global de açúcar, as cotações externas tendem a perder força. Quando o açúcar não paga, a cana migra para o etanol. O segundo vetor é a expansão do etanol de milho, que segue crescendo no ciclo 2025/26 e aumentando participação no mix total.
Para o investidor, isso acende um alerta. Mais oferta, sem vetores claros de sustentação de preço, normalmente significa pressão baixista. Não é um problema de hoje, mas um risco concreto de médio prazo.
Tecnologia como diferencial real, não como discurso
Quando se fala em oportunidades de investimento com avanços tecnológicos no etanol, o mercado costuma misturar conceitos. O que de fato muda o jogo é tecnologia que reduz custo por litro, aumenta flexibilidade de produção ou melhora eficiência logística.
O crescimento do etanol de milho é um exemplo prático. Ele amplia a oferta e dilui risco regional, além de permitir operação contínua fora do pico da cana. Mesmo sem números oficiais recentes detalhando ganhos de produtividade, o movimento é estrutural e já influencia decisões de investimento.




