Câmbio ajuda na conta em reais, mas não resolve o problema de demanda e ritmo lento da indústria.
O dólar mais alto costuma acender uma luz verde automática para quem exporta. Na citricultura, porém, 2026 começa mostrando que a conta não é tão direta assim. O produtor olha o câmbio e imagina ganho de competitividade lá fora, mas o mercado tem entregado sinais mistos: exportações em queda na safra 2025/26, indústria cautelosa e preços travados no mercado interno. O desafio imediato é entender até onde o dólar ajuda de verdade e onde ele não chega.
O que está acontecendo com preços e exportações de citros
Os dados mais recentes disponíveis mostram um quadro que pede cuidado. Segundo o Cepea, as exportações brasileiras de suco de laranja entre julho e setembro de 2025 somaram 199.700 toneladas em equivalente concentrado, com queda de 4% em relação ao mesmo período de 2024. Em receita, o recuo foi ainda maior: US$ 751,3 milhões, 15% abaixo do ano anterior.
Ou seja, mesmo antes de entrar em 2026, o setor já vinha sentindo dificuldade para vender mais e melhor no mercado externo. No início de janeiro de 2026, o Cepea também apontou ritmo lento de vendas tanto no mercado de mesa quanto no industrial, com preços no spot mantidos nos mesmos patamares de dezembro de 2025. Na prática, o produtor não viu reação de preço apesar do câmbio teoricamente favorável.
O ponto é que o dólar alto ajuda na conversão da receita em reais, mas não cria demanda do lado de fora. Se o comprador europeu ou industrial está cauteloso, a negociação simplesmente não anda.
Dólar alto ajuda mesmo ou só na teoria?
Sem dados oficiais que quantifiquem diretamente o efeito do câmbio sobre os citros em 2026, a análise precisa ser mais de mecanismo de mercado. O dólar valorizado tende a:
- Melhorar a competitividade do produto brasileiro frente a outros exportadores.
- Elevar a receita em reais das exportações já contratadas.
- Dar mais fôlego ao caixa da indústria exportadora.
Por outro lado, o que tem pesado contra é o enfraquecimento dos preços internacionais do suco, associado à oferta global e à postura mais defensiva de compradores, especialmente na Europa. Segundo análises do Cepea em 2025, esse movimento não foi atribuído ao dólar, mas sim ao equilíbrio mais frouxo entre oferta e demanda.
Na prática, o produtor sente isso no bolso quando percebe que o dólar sobe, mas o preço pago pela laranja na indústria não acompanha. A margem não reage porque o problema está do outro lado do balcão.
Custos de produção e margem apertada
Outro ponto que muda a conversa é o custo. Dólar alto também pressiona insumos dolarizados, como defensivos, fertilizantes e parte da logística. Mesmo sem números fechados para 2026, o efeito é conhecido dentro da porteira: custo sobe mais rápido do que o preço da fruta.
Quando a indústria reduz moagem, como apontado pelo Cepea em janeiro de 2026, o produtor perde poder de barganha. Com menos compradores ativos, fica difícil repassar qualquer aumento de custo. O resultado é margem espremida, mesmo em um ambiente cambial teoricamente favorável.
O risco maior é entrar no ano apostando só no dólar e deixar de ajustar manejo, escala e planejamento financeiro.




