O mercado de trigo começa 2026 com um recado direto para quem está olhando a safra de inverno: preço pressionado e pouca margem para erro. A combinação de oferta elevada no Brasil e no mundo, importações fortes e estoques confortáveis mantém as cotações internas em um patamar pouco atrativo. O desafio imediato do produtor é decidir área e manejo em um cenário em que vender bem está mais difícil e o custo não dá muita folga.
Contexto de preços e o que está segurando o mercado
Os números do Cepea mostram bem esse ambiente. No dia 09/01/2026, o indicador CEPEA Brasil, trigo pão/massa ao produtor, ficou em R$ 1.178,92 por tonelada, com leve variação negativa no dia e queda acumulada no mês. Nos dias anteriores, os preços já vinham escorregando, sempre muito próximos desse mesmo patamar.
O ponto é que esse nível de preço não anima. Depois de quedas fortes ao longo de 2025, o trigo entra em 2026 sem sinal claro de reação. Segundo o Cepea, a direção de curto prazo ainda é de leve baixa, justamente porque a oferta disponível segue grande e o mercado não encontra motivo consistente para pagar mais.
Na prática, o produtor sente isso no bolso quando tenta negociar com moinho ou cooperativa e encontra pouca urgência de compra. Quem precisa fazer caixa acaba aceitando valores mais baixos, enquanto quem pode segurar percebe que o mercado também não dá prêmio para esperar.
Oferta interna, estoques e a pressão do trigo importado
O peso maior sobre o mercado hoje vem da oferta. A Conab projeta, para o ciclo de agosto de 2025 a julho de 2026, uma disponibilidade interna total acima de 16 milhões de toneladas, crescimento frente à temporada anterior. O consumo interno gira em torno de 11,8 milhões de toneladas, o que deixa uma sobra relevante.
Esse excesso aparece claramente nos estoques finais. A estimativa é de 2 milhões de toneladas em julho de 2026, o equivalente a 8,7 semanas de consumo. É a maior relação estoque/consumo desde 2020. Com esse colchão, a indústria compra com calma e não disputa produto.
Além disso, o Brasil continua fortemente dependente de importações. A previsão é de 6,7 milhões de toneladas importadas no ciclo, número alto e que pesa na formação de preço interno. Quando o trigo de fora chega competitivo, ele define o teto do mercado doméstico.
Safra de inverno 2026 e decisão de área
Com preços baixos, a atratividade da cultura diminuiu. O Cepea aponta que as quedas expressivas observadas em 2025 reduziram o estímulo ao plantio e que não são esperados avanços significativos de área no primeiro semestre de 2026. Ou seja, o produtor já está fazendo conta mais curta antes de colocar semente no chão.
Mesmo com essa possível contenção de área, a dependência de importações deve continuar elevada. Isso muda a conversa dentro da porteira porque limita qualquer expectativa de recuperação rápida de preços só por ajuste de oferta interna.
O produtor precisa olhar para o trigo dentro do sistema produtivo. Em muitas regiões, ele entra mais como ferramenta de rotação, cobertura de solo e diluição de custos fixos do que como cultura principal de margem. Nesse contexto, o manejo eficiente e o controle rígido de custo passam a valer mais do que apostar em preço futuro.
Clima, safra global e o peso de Chicago
No mercado internacional, o quadro também não ajuda. O USDA projeta a produção mundial de trigo 2025/26 em 837,8 milhões de toneladas, crescimento de 4,6% em relação à safra anterior. O consumo global até aumenta, mas em ritmo menor, o que mantém estoques globais em alta.
Mesmo com tensões geopolíticas e notícias pontuais, como preocupações climáticas nos Estados Unidos, o fato é que a ampla oferta mundial limita qualquer reação mais firme das cotações em Chicago. E, quando Chicago não sobe, o mercado brasileiro também não encontra sustentação.




