Mesmo com leve reação nos preços, a oferta confortável e a concorrência externa apertam a margem do trigo em 2026.
O mercado de trigo neste início de 2026 mostra um movimento que, à primeira vista, pode até animar: preços ensaiando uma recuperação pontual no mercado físico. O problema é que essa alta acontece dentro de um quadro bem mais pesado, de oferta ampla, estoques elevados e forte dependência de importações. Na prática, o produtor olha a cotação, faz a conta do custo e percebe que a margem continua curta.
O desafio imediato para quem está planejando a safra de inverno 2025/26 é decidir área e manejo sabendo que o mercado não sinaliza reação consistente no curto prazo. O ponto é que o trigo segue disputando espaço com outras alternativas de inverno, e qualquer erro de planejamento pesa direto no bolso.
O que os preços do trigo estão mostrando agora
Segundo o Cepea, o mercado físico de trigo no Brasil iniciou janeiro com leve viés de alta, mas ainda longe de um patamar considerado atrativo. O Indicador Trigo CEPEA, mercado disponível em São Paulo, fechou em R$ 1.049,40 por tonelada em 09/01/2026, após uma sequência curta de altas nos dias anteriores.
Essa recuperação, no entanto, precisa ser lida com cuidado. Ela acontece mais como ajuste pontual do que como mudança de tendência. A referência continua sendo um mercado pressionado pela grande oferta interna e pela concorrência direta do trigo importado, principalmente da Argentina.
Na prática, o produtor sente isso quando tenta negociar volumes maiores e encontra dificuldade para melhorar preço. A indústria compra com calma, sabendo que não falta produto no mercado.
Custos de produção e margens seguem apertados
O que muda a conversa não é apenas o preço de venda, mas a relação direta com o custo de produção. Após as quedas expressivas de preços ao longo de 2025, o trigo perdeu competitividade dentro da porteira.
Mesmo sem entrar em números de custos, a lógica é simples: quando o preço cai mais rápido do que os custos ajustam, a margem some. E é exatamente isso que explica por que o Cepea já indica que não se esperam avanços significativos de área de trigo no primeiro semestre de 2026.
Para muitas propriedades, o trigo passa a ser uma cultura de risco, usada mais como ferramenta de rotação ou cobertura de solo do que como geradora de caixa. Quem depende do trigo para pagar conta precisa redobrar atenção.
Safra de inverno e oferta continuam pesando no mercado
Quando se olha o balanço de oferta, o peso fica ainda mais claro. Dados da Conab, válidos para o período de agosto de 2025 a julho de 2026, mostram uma disponibilidade interna total acima de 16 milhões de toneladas, crescimento de 5,3% em relação à temporada anterior.
O consumo interno está estimado em 11,8 milhões de toneladas, enquanto as importações projetadas chegam a 6,7 milhões de toneladas. Mesmo com exportações previstas em 2,24 milhões de toneladas, o mercado fecha com estoques finais de 2,0 milhões de toneladas em julho de 2026.
Isso representa cerca de 8,7 semanas de consumo, a maior relação desde 2020. Em outras palavras, sobra trigo. E mercado abastecido não tem pressa em pagar mais.




