Atualizando...

Safrinha recorde, preço em queda e o frete que come a margem do milho em MT

Redação
01/06/2026 às 22:30
Colheita do milho safrinha em Mato Grosso com caminhao carregado

O milho da safrinha está saindo do campo em Mato Grosso ao mesmo tempo em que o preço físico cai, o diesel aperta o frete e a paridade de exportação expõe um abismo de quase R$ 10 por saca entre o valor na fazenda e o valor no porto.

O estado que mais produz milho no Brasil vive um paradoxo típico de safras cheias. A colheita da segunda safra avança com produtividade acima da média, confirmando projeções de volume recorde, mas o mercado caminha na direção oposta. As cotações no mercado físico recuam semana após semana, e o custo do frete, pressionado pelo diesel mais caro, corrói ainda mais a rentabilidade do produtor.

O cenário desenhado pelos números mais recentes do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e da consultoria StoneX revela um momento de atenção para os agricultores. A comercialização já passou de 40% no estado, mas muitos produtores preferem segurar o grão no armazém à espera de uma recomposição dos preços.

Colheita do milho safrinha em Mato Grosso
Colheita da segunda safra de milho em Mato Grosso ultrapassa 40% da área cultivada, segundo o IMEA.

Produção recorde encontra preço em queda livre

StoneX ajusta safra e MT compensa perdas de GO

A consultoria StoneX elevou sua estimativa para a segunda safra de milho no Brasil, puxada justamente pelo desempenho de Mato Grosso. Enquanto Goiás enfrenta quebra de produtividade por causa do estresse hídrico em algumas regiões, o oeste e o médio-norte mato-grossenses registraram chuvas bem distribuídas durante o ciclo. Com isso, o estado deve responder por mais de 50% do volume total da safrinha nacional, consolidando sua posição de protagonista no cereal.

Os números da Conab, divulgados no último relatório de safra de grãos, apontam para uma produção total de 358 milhões de toneladas entre todas as culturas, com o milho safrinha batendo novos recordes. O ajuste da StoneX incorpora áreas remanescentes do plantio e produtividade de campo superior ao inicialmente projetado, compensando as perdas registradas em outras unidades da federação.

Cepea aponta recuo e B3 acompanha Chicago

O indicador do milho calculado pelo Cepea segue trajetória de baixa. A referência para o produto disponível já oscila próximo de R$ 65 por saca no mercado de balcão, mas o valor efetivamente recebido pelo produtor em Mato Grosso é bem inferior. Nas praças do interior do estado, o negócio fechado gira em torno de R$ 42 por saca para entrega imediata, conforme a média calculada pelo IMEA.

Na Bolsa de Mercadorias & Futuros (B3), os contratos futuros de milho acumulam desvalorização no curto prazo, alinhados ao movimento da Bolsa de Chicago (CBOT/CME). O contrato com vencimento em julho de 2026 opera em baixa, refletindo a expectativa de uma oferta global ampla. Estados Unidos, Argentina e Ucrânia também colhem safras volumosas, e o cenário internacional pressiona os prêmios de exportação.

Comercialização em MT passa de 40% mas produtor segura o grão

Apesar de a comercialização da safra 2025/26 em Mato Grosso já ter ultrapassado 40% da produção estimada, o ritmo ainda é considerado lento diante do volume colhido. O produtor olha para o preço disponível e prefere aguardar. O armazém está cheio, a estrutura de estocagem funciona, mas a conta não fecha enquanto o valor de mercado não cobrir o custo operacional somado ao frete.

A expectativa de muitos agricultores é de que a demanda para exportação nos meses seguintes force uma alta nos preços. No entanto, o carryover internacional elevado e o câmbio volátil tornam essa aposta arriscada. Quem precisa de liquidez acaba negociando parte do volume, mas quem pode esperar mantém o grão retido.

IndicadorValorFonte
Milho disponível MT (média)R$ 42,29/scIMEA
Paridade de exportação MTR$ 32,70/scIMEA
Indicador Cepea~R$ 65,00/scCepea
Milho B3Em baixaB3
CBOT milho (jul/26)Em baixaCBOT

O frete que engole o valor da safra

Diesel 30% mais caro e o impacto no custo do transporte

O diesel representa o principal componente do custo logístico do agronegócio brasileiro, e a alta acumulada de mais de 30% no preço do combustível ao longo dos últimos meses impacta diretamente o frete rodoviário. Para o milho de Mato Grosso, que depende de longas distâncias até os portos do Arco Norte (Itaqui, Santarém e Miritituba) e do Sudeste (Santos e Paranaguá), cada centavo no diesel se traduz em margem perdida na fazenda.

O custo do transporte de uma carga de milho do médio-norte mato-grossense até o porto de Santos pode ultrapassar R$ 300 por tonelada em algumas rotas, dependendo do trecho e do tipo de frete contratado. Quando o grão viaja mil quilômetros ou mais, o frete consome entre 30% e 40% do valor final da saca, um peso que poucas culturas suportam sem comprometer a rentabilidade.

O abismo entre o físico e a paridade chega a R$ 9,59

Os dados do IMEA escancaram um abismo preocupante. Enquanto o milho disponível no estado é negociado a R$ 42,29 por saca, a paridade de exportação calculada pelo mesmo instituto está em R$ 32,70. A diferença de R$ 9,59 representa exatamente o custo de oportunidade e as despesas logísticas que separam o preço que o produtor recebe na porteira da fazenda do valor teórico que o grão alcançaria no porto.

Esse spread de quase R$ 10 por saca é o retrato mais fiel do gargalo logístico brasileiro. Mesmo com a expansão do Arco Norte e os investimentos em ferrovias, o transporte rodoviário ainda responde pela maior parte da movimentação de grãos em Mato Grosso, e a conta do frete continua pesando no bolso do agricultor.

Conab confirma logística como gargalo

A Conab, em seu estudo mais recente sobre logística de grãos, reforça que a infraestrutura de transporte continua sendo o principal entrave à competitividade do milho brasileiro no mercado internacional. O relatório da estatal aponta que, apesar dos avanços nos terminais portuários do Norte, a dependência do modal rodoviário e a concentração dos escoamentos em poucos corredores logísticos mantêm o frete em patamares elevados.

Para Mato Grosso, especificamente, a saída do milho safrinha coincide com o período de menor disponibilidade de caminhões na região, já que a soja também está sendo escoada. A disputa por frete entre as duas culturas na mesma janela de tempo pressiona ainda mais as taxas, criando um aperto logístico adicional que penaliza o produtor justamente no momento em que ele mais precisa vender.

A combinação de safra recorde, preço em baixa e frete em alta forma um triângulo de pressão sobre a margem do milho em Mato Grosso. Com a colheita ainda em andamento e os armazéns cheios, o produtor segue monitorando os indicadores, na expectativa de que o mercado encontre um piso e a logística dê algum alívio nos próximos meses. Até lá, cada saca carregada para o porto carrega também o peso de um spread que não se fecha.

Reportagem analítica com base em dados do IMEA, Cepea, Conab, StoneX e CBOT/CME.

Agronews é informação para quem produz

Imea logística safrinha

Compartilhe esta notícia: