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Dólar a R$ 5,12 redefine paridade do milho na safrinha

Colheita de milho safrinha em Mato Grosso com colheitadeira em operacao e caminhao graneleiro carregado de graos durante o final da tarde
Dólar a R$ 5,12 redefine paridade do milho na safrinha

O dólar não deu trégua ao mercado de milho na última semana. A PTAX saltou 2,16% entre segunda e sexta-feira, empurrando a taxa de câmbio para R$ 5,1244 e redefinindo a conta de quem produz milho no Brasil.

Mas nem todo mundo saiu ganhando com essa alta.

Enquanto o câmbio deu suporte ao mercado futuro brasileiro, o cenário internacional foi na direção oposta. O CBOT para julho de 2026 despencou 6,08% na semana, caindo de US$ 4,44 para US$ 4,17 por bushel, pressionado pelo clima favorável ao plantio nos Estados Unidos, pela liquidação de contratos de fundos e pela queda do petróleo.

A combinação criou um cabo de guerra entre o dólar, que sustenta os preços em reais, e Chicago, que derruba a referência internacional.

A consequência prática desse embate aparece na paridade de exportação, que recuou para R$ 62,10 por saca. O cálculo considera as cotações do CBOT, o prêmio de exportação no porto, a taxa de câmbio e o frete.

Campo de milho em Mato Grosso com colheita da safrinha em andamento
Safrinha em colheita em MT — dólar alto e Chicago em queda criam o dilema do produtor na hora de vender (Agronews)

Com o dólar em R$ 5,12, a receita em reais melhora, mas a queda de Chicago e o frete em alta comprimem o valor líquido que chega ao produtor.

Dólar dispara 2,16% na semana e redefine a conta do milho

A PTAX abriu a semana a R$ 5,0160 na terça-feira, 2 de junho, e subiu todos os dias úteis até fechar sexta-feira a R$ 5,1244. O dólar comercial à vista foi além, operando a R$ 5,16 com alta de 1,78% apenas no dia 5 de junho.

O movimento tem origem externa. Wall Street registrou a pior queda do ano no setor de tecnologia com dados de emprego nos Estados Unidos alimentando temores de aperto monetário pelo Federal Reserve. O S&P 500 caiu 2,63% e o Nasdaq recuou 4,16% no dia 5 de junho, fortalecendo o dólar globalmente.

Contexto global fortalece o dólar e pressiona commodities

O dado de payroll americano veio acima do esperado, o que reforçou a narrativa de que o Fed manterá os juros elevados por mais tempo. Esse movimento de aversão a risco fortalece o dólar frente a todas as moedas emergentes e derruba as commodities cotadas na moeda americana.

Para o milho, o efeito é duplo. O câmbio favorece o exportador brasileiro na conversão para reais, mas o encarecimento do milho americano em moeda estrangeira reduz a demanda internacional.

CBOT em queda de 6% na semana acentua pressão internacional

Em Chicago, o cenário foi completamente oposto. O contrato julho de 2026 do milho fechou a US$ 4,175 por bushel, com queda de 1,65% no dia e 6,08% na semana. O contrato dezembro também caiu 5,51% no mesmo período.

A opinião técnica do Barchart é de 88% de recomendação de venda, o que indica que o mercado ainda não encontrou um piso.

Cinco fatores explicam a pressão baixista. O clima favorável ao plantio nos Estados Unidos, a liquidação de posições compradas por fundos que estavam no mercado há nove semanas, a queda do petróleo reduzindo a demanda por etanol de milho, o avanço da colheita da safrinha brasileira e as vendas de milho americano para a Colômbia reportadas pelo USDA.

Para o produtor brasileiro, o tombo de Chicago representa uma redução direta na referência de preço internacional.

Paridade de exportação a R$ 62,10 e a conta que chega ao produtor

A paridade de exportação do milho brasileiro recuou para R$ 62,10 por saca, nível que acende o alerta sobre as margens no campo. O cálculo é direto. Parte-se do CBOT em dólares, aplica-se o prêmio de exportação no porto, converte-se pelo câmbio e deduz-se o frete e as despesas portuárias.

Com o dólar em alta, a conversão melhora. Com Chicago em baixa e o frete pressionado, o resultado final aperta.

O Indicador Cepea do milho fechou a R$ 64,50 por saca no dia 5 de junho, ainda acima da paridade de exportação. Esse prêmio interno positivo de R$ 2,40 por saca mostra que o mercado físico doméstico tem base de sustentação.

Mas a tendência é de convergência para baixo com o avanço da colheita.

Mercado físico versus futuro e o dilema do produtor

Enquanto os contratos futuros da B3 encontram suporte no câmbio, os preços físicos sentem o peso da safrinha. O contrato julho da B3 fechou a R$ 65,42 por saca, com alta de 0,4% na semana. O contrato setembro foi a R$ 68,80. Já o indicador Cepea acumula queda de 0,63% em junho e de 2,99% em maio.

Em Sapezal, Mato Grosso, o IMEA registrou R$ 43,35 por saca, com variação negativa de 0,23%.

IndicadorPreçoVariação DiaVariação SemanaTendência
Dólar PTAXR$ 5,1244+1,66%+2,16%Alta
CBOT Milho Jul/26US$ 4,175/bushel-1,65%-6,08%Baixa
B3 Milho Jul/26R$ 65,42/sc+0,4%+0,4%Estável/Alta
Cepea MilhoR$ 64,50/sc-0,02%-0,63%Baixa
IMEA MT SapezalR$ 43,35/sc-0,23%N/DBaixa
Paridade ExportaçãoR$ 62,10/scN/DN/DBaixa
BCB/SGS, CBOT/Barchart, B3, Cepea/Esalq, IMEA, Cepea (paridade). Dados de 05/06/2026.

A diferença entre os dois ritmos revela o dilema do momento. A B3 precifica o milho com o dólar de hoje e a expectativa de curto prazo para o câmbio. O físico reflete a oferta real da safrinha entrando no mercado.

Enquanto o câmbio sustentar os futuros, o produtor tem um piso de referência para negociar. Mas a pressão baixista do físico limita o poder de barganha nas mesas de compra.

Safrinha recorde em colheita aperta os preços no campo

O ritmo da colheita da safrinha 2025-2026 em Mato Grosso supera o da safra passada, aponta o IMEA. As exportações brasileiras de milho cresceram mais de 540% em maio de 2026 na comparação com o mesmo mês de 2025, sinalizando demanda externa aquecida. Os produtores seguem retraídos, segurando as vendas na expectativa de preços melhores.

A StoneX fez um leve ajuste na estimativa da segunda safra, com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul compensando as perdas de produtividade em Goiás e Minas Gerais, onde a quebra média ficou entre 23% e 24%.

Em Sorriso, MT, a média de maio ficou 11% inferior à de maio de 2025. No norte do Paraná, a queda foi de 8% na mesma comparação. O mercado ainda tenta dimensionar o tamanho real da safrinha para calibrar as expectativas de preço até o fim da colheita.

Perspectivas e as variáveis que o produtor precisa monitorar

O cenário à frente segue definido por três forças principais. O dólar tem tendência de alta com o risco global e os dados de emprego nos Estados Unidos, o que é favorável para fixar receita em reais. O CBOT segue em tendência de baixa com a safra americana e a liquidação de fundos, o que desfavorece a margem internacional. E a safrinha continuará pressionando os preços físicos até o pico da colheita, entre junho e julho.

Na ponta do lápis, o produtor fica com um olho no dólar e outro na colheita. Vender agora significa aproveitar o câmbio favorável, mas enfrentar um CBOT em queda. Esperar pode trazer preços melhores no físico, mas o risco de o dólar recuar também existe.

Cada um conhece a própria realidade, o custo de produção e a necessidade de caixa. O importante é monitorar as três variáveis com atenção nos próximos dias.

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Foto de Vicente Delgado

Sobre o autor

Vicente Delgado

DRT 2364/MT

Jornalista e fundador do Agronews, referência em informações sobre o agronegócio brasileiro. Com mais de 15 anos de experiência no setor, acompanha de perto as principais commodities, políticas agrícolas e tendências do mercado rural.

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