Ciclone-bomba provoca tornado, granizo e danos no Sul, enquanto ventos acima de 100 km/h elevam o alerta em São Paulo e Rio de Janeiro.
O tempo virou com violência no Sul do Brasil. A passagem de um ciclone-bomba pelo Atlântico Sul deixou um rastro de granizo, destelhamentos, árvores derrubadas e problemas na rede elétrica no Rio Grande do Sul. Entre Pedro Osório e Pelotas, um tornado ampliou os estragos e atingiu estruturas urbanas e rurais.
Enquanto produtores e moradores gaúchos começavam a avaliar os danos, o risco avançava para outra frente. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, a previsão de rajadas entre 90 km/h e 110 km/h levou municípios a suspender aulas e reforçar medidas preventivas.
Para quem está no campo, a preocupação não termina quando a chuva passa. Galpões, silos, telhados, cercas, redes de energia e lavouras ficam expostos aos efeitos do vento e do granizo. Logo depois vem outro problema. Na retaguarda do ciclone, uma massa de ar frio avança pelo país e aumenta o risco de geada em áreas do Sul.
É uma mudança brusca, daquelas que exigem olho no céu e atenção redobrada porteira adentro.
Tornado, granizo e danos atingem o Rio Grande do Sul
Os primeiros prejuízos apareceram com a passagem das tempestades pelo território gaúcho.
Fazenda Vila Nova e Bom Retiro registraram queda de granizo, com danos em lavouras e coberturas. Também houve ocorrências em Uruguaiana, Erechim, Caçapava do Sul e Chuí, incluindo destelhamentos, alagamentos pontuais e danos em estruturas.
O episódio mais grave foi registrado entre Pedro Osório e Pelotas, onde um tornado derrubou árvores e postes, arrancou telhados e comprometeu trechos da rede elétrica.
A atmosfera reunia ingredientes favoráveis à formação de tempestades severas. De um lado, o ar frio avançava pelo Sul. Do outro, uma massa de ar quente e úmido permanecia sobre a região. O encontro dessas massas aumentou a instabilidade e ajudou a alimentar os temporais.
No meio rural, o impacto desse tipo de evento pode ir além do dano visível logo após a tempestade. Uma cobertura arrancada expõe máquinas e insumos. Uma rede elétrica danificada compromete equipamentos e sistemas de produção. Estradas internas e acessos alagados dificultam a movimentação de pessoas, animais e cargas.
O granizo traz outro tipo de prejuízo. Dependendo da intensidade e do estágio das culturas, pode atingir folhas, frutos e estruturas das plantas em poucos minutos.
Ciclone-bomba leva ventania para o Sudeste
Com o deslocamento do sistema em direção ao Atlântico, o centro da preocupação passou do Rio Grande do Sul para o Sudeste.
A intensificação do gradiente de pressão associado ao ciclone favoreceu ventos fortes, com projeções de rajadas entre 90 km/h e 110 km/h em algumas áreas.
No litoral paulista, cidades como Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião, Bertioga e Itanhaém suspenderam aulas como medida preventiva.
No Rio de Janeiro, também houve cancelamento de atividades na rede estadual. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a UERJ, suspendeu as aulas presenciais.
A preocupação não se limita à velocidade prevista do vento. No litoral paulista, a Serra do Mar pode interferir no deslocamento do ar e canalizar as rajadas em determinados pontos, aumentando localmente a força da ventania.
Com isso, cresce o risco de árvores derrubadas, interrupções de energia e danos em construções mais vulneráveis.
Para propriedades rurais próximas às áreas atingidas, a recomendação prática é revisar estruturas expostas assim que houver condição segura. Coberturas de galpões, silos, cercas, instalações elétricas e áreas onde há árvores próximas a construções merecem atenção especial.
Por que esse sistema é chamado de ciclone-bomba
Apesar do nome forte, ciclone-bomba não é uma expressão criada para dramatizar o fenômeno. O termo está associado a um processo meteorológico específico.
Ele é usado quando um ciclone extratropical passa por uma intensificação muito rápida, processo conhecido como ciclogênese explosiva.
Um dos critérios utilizados para caracterizar esse comportamento é uma redução de aproximadamente 24 hectopascais na pressão central em um período de 24 horas.
De acordo com os dados reunidos no relatório que embasa as informações do episódio, a pressão central caiu de 967 hPa para cerca de 941 hPa em 24 horas.
A diferença é de aproximadamente 26 hPa, portanto acima da referência de 24 hPa citada para a intensificação rápida do sistema.
Na prática, uma queda expressiva da pressão aumenta o contraste entre o centro do ciclone e as áreas ao redor. Esse gradiente favorece a aceleração dos ventos e pode contribuir para um ambiente de maior instabilidade.
Não significa, porém, que todos os locais sob influência do ciclone enfrentarão os mesmos efeitos. O relevo, a posição em relação ao sistema, a formação de tempestades e outras condições atmosféricas interferem na intensidade dos impactos.
Ciclone, tornado e furacão não são a mesma coisa
A ocorrência de um tornado durante a atuação de um ciclone costuma causar confusão, principalmente quando os dois fenômenos aparecem associados na mesma sequência de tempestades.
Eles não são a mesma coisa.
O ciclone extratropical é um sistema atmosférico de grande escala, capaz de se estender por centenas de quilômetros. Sua formação está ligada ao contraste entre massas de ar com características diferentes.
O tornado é muito menor e mais localizado. Trata-se de uma coluna de ar em forte rotação associada a uma tempestade e que alcança o solo. Sua área de atuação é bastante inferior à de um ciclone, embora seus ventos possam provocar danos severos em uma faixa restrita.
Já o furacão pertence à categoria dos ciclones tropicais. Sua dinâmica de formação é diferente e depende de condições encontradas sobre águas oceânicas quentes.
No caso do sistema que atingiu o Sul do Brasil, trata-se de um ciclone extratropical que passou por rápida intensificação. O tornado ocorreu associado ao ambiente de tempestades severas, mas é um fenômeno distinto.
Frio chega logo depois das tempestades
O afastamento do ciclone para o oceano não encerra os efeitos sobre o continente.
Atrás do sistema, uma massa de ar frio avança pelo Sul e deve provocar queda acentuada das temperaturas.
Rio Grande do Sul e Santa Catarina estão entre as áreas com maior possibilidade de geada. Em regiões serranas, há previsão de temperaturas negativas.
O ar frio também deve alcançar São Paulo, Rio de Janeiro, o Sul de Minas Gerais e partes de Mato Grosso do Sul.
Para o produtor, a sequência merece acompanhamento próximo. Algumas áreas podem passar, em pouco espaço de tempo, por chuva forte, granizo, vendaval e depois frio intenso.
É justamente essa combinação que torna o episódio mais delicado para o agro.
Culturas sensíveis a baixas temperaturas precisam ser acompanhadas conforme a previsão de cada município e a condição de cada propriedade. O risco não é uniforme, e a temperatura medida dentro da fazenda pode variar de acordo com altitude, relevo e características locais.
Depois do temporal, portanto, a conta ainda não está fechada.
Ressaca mantém atenção também no mar
Os efeitos do ciclone alcançam também a faixa costeira.
Os ventos intensos sobre o oceano aumentam a agitação marítima e favorecem a formação de ondas maiores e episódios de ressaca entre o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro.
O cenário exige atenção principalmente de pequenas embarcações e atividades pesqueiras, que podem precisar ser interrompidas conforme as condições observadas em cada trecho do litoral.
Para municípios costeiros, a combinação entre vento forte e mar agitado também amplia a necessidade de acompanhamento dos avisos oficiais.
O mesmo sistema, portanto, produz impactos bastante diferentes conforme avança pelo território. No Sul, a passagem foi marcada por tornado, granizo, destelhamentos e danos materiais. Mais ao norte, a principal preocupação passou a ser a ventania. Na sequência, entram no radar a queda das temperaturas, a possibilidade de geada e a ressaca no litoral.
Alertas
Durante tempestades e vendavais, a orientação é evitar locais próximos a árvores, postes e estruturas metálicas, buscar abrigo seguro e acompanhar os alertas das autoridades.
A Defesa Civil oferece avisos por SMS. Para receber as mensagens, é possível enviar o CEP da localidade para o número 40199.
No campo, a vistoria deve ser feita somente quando houver segurança. Lavouras, galpões, telhados, cercas, sistemas elétricos e acessos às propriedades estão entre os pontos que precisam ser observados depois da tempestade.
E o acompanhamento da previsão continua sendo parte da lida. Depois do vento e do granizo, o frio passa a dividir espaço com os prejuízos já deixados pelo temporal. Em episódios assim, a notícia muda rápido, mas é porteira adentro que cada mudança do tempo ganha peso de verdade.
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