O preço médio da mandioca dispara com a oferta limitada no campo, veja a seguir

Setembro encerrou com um alerta importante para a cadeia produtiva da mandioca no Brasil. Produtores e indústrias acompanham com atenção a escalada nos valores da raiz, que completou a quinta semana consecutiva de alta.

O cenário, apontado em levantamento recente do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, reflete uma combinação de fatores climáticos e estratégicos que está enxugando a oferta no mercado. Essa valorização não é apenas um número em uma planilha; ela reverbera do campo à gôndola, influenciando o custo de produção da fécula, da farinha e, consequentemente, o bolso do consumidor. Entender as causas dessa alta é fundamental para navegar em um mercado tão dinâmico e essencial para o agronegócio brasileiro.

O que está por trás da alta no preço médio da mandioca?

A explicação para a recente valorização começa no campo, onde a colheita enfrenta sérios obstáculos. De acordo com os pesquisadores do Cepea, as chuvas registradas no início da última semana foram insuficientes e mal distribuídas, dificultando a retirada da raiz do solo. Em muitas regiões produtoras, o solo seco e compactado torna a operação de colheita mais lenta e arriscada, podendo danificar as raízes e gerar perdas. Essa condição climática adversa é um dos principais gargalos que limitam a quantidade de matéria-prima chegando às fecularias e farinheiras.

Além do clima, a própria fase do ciclo produtivo contribui para a oferta restrita. Há uma menor disponibilidade de lavouras de segundo ciclo, ou seja, aquelas com mais de 12 meses. Essas plantas mais maduras são preferidas pela indústria por apresentarem maior teor de amido, o que resulta em um melhor rendimento industrial. Com menos raízes de alta qualidade disponíveis, a competição pela matéria-prima se acirra, pressionando o preço médio para cima. Entre 22 e 26 de setembro, o valor médio nominal a prazo da tonelada de mandioca posta fecularia atingiu R$ 542,11, o maior patamar desde maio.

A estratégia do produtor e o ciclo da cultura

Outro fator crucial nessa equação é a decisão do próprio agricultor. Muitos produtores estão optando por segurar a venda, aguardando melhores condições de mercado. Essa postura é motivada pela rentabilidade reduzida, que faz com que o preço médio atual, apesar de estar em alta, ainda não seja considerado atrativo o suficiente para compensar os custos de produção e o trabalho da colheita em condições desfavoráveis. O agricultor faz contas e, muitas vezes, conclui que é mais vantajoso esperar por uma valorização maior antes de comercializar sua safra.

A gestão da lavoura de mandioca envolve um planejamento de longo prazo, e o produtor enfrenta dilemas constantes que afetam diretamente a oferta no mercado. Algumas das questões são:

  • Compensa realizar a colheita agora com o solo seco, arriscando perdas, ou é melhor esperar por mais chuvas?
  • O preço atual cobre os custos com mão de obra, preparo do solo e insumos investidos ao longo de mais de um ano?
  • Será que vale a pena vender a lavoura de primeiro ciclo ou aguardar que ela se desenvolva para o segundo ciclo, visando um maior teor de amido?
  • Com a alta nos custos de produção, qual cultura será mais rentável para plantar na próxima safra?

Essas decisões estratégicas, tomadas em milhares de propriedades rurais, criam um efeito agregado que regula o fluxo de matéria-prima para a indústria e influencia diretamente o preço médio do produto no mercado nacional.