Oferta limitada sustenta alta de preços da mandioca e acende alerta no setor

O mercado da mandioca vive um momento de forte valorização, deixando produtores e indústria em estado de atenção. Nas últimas semanas, quem acompanha os indicadores do setor percebeu uma escalada nos valores pagos pela raiz, um movimento diretamente ligado à baixa disponibilidade do produto no campo.

Este cenário, que reflete uma combinação de fatores climáticos e decisões estratégicas dos agricultores, já pressiona a cadeia produtiva e levanta questões sobre os próximos passos do setor. A situação atual mostra como o equilíbrio entre campo e indústria é delicado, onde uma retração na colheita impacta diretamente a capacidade de processamento das fecularias e, consequentemente, o preço final de diversos produtos que dependem do amido de mandioca.

O que está por trás da baixa oferta de mandioca?

A explicação para a atual escassez de mandioca no mercado não é única, mas sim um conjunto de fatores que se somam. De um lado, temos uma questão agronômica e econômica. Produtores rurais estão mostrando um baixo interesse em comercializar as chamadas raízes de primeiro ciclo, que são aquelas colhidas mais cedo, geralmente com 10 a 12 meses. Essa decisão é puramente estratégica, pois essas raízes, por serem mais jovens, tendem a ter um teor de amido menor, o que resulta em menor rentabilidade por tonelada. Diante de um cenário de custos de produção elevados, muitos agricultores preferem segurar a colheita, apostando que as raízes ganharão mais peso e amido, garantindo um retorno financeiro melhor no futuro.

Do outro lado, o clima tem sido um adversário implacável. A estiagem prolongada em importantes regiões produtoras do país não só prejudica o desenvolvimento das plantas, mas também dificulta e até impede a colheita. O solo seco e compactado torna a operação de arranquio das raízes mais difícil, aumentando o risco de perdas e danos ao produto. Em diversas áreas, os trabalhos no campo foram simplesmente paralisados, aguardando a volta das chuvas para que o solo ofereça condições adequadas para a colheita mecanizada ou manual. Essa combinação de fatores cria um gargalo na oferta, onde a matéria-prima simplesmente não chega às indústrias no volume esperado.

Oferta limitada sustenta alta de preços e impacta a indústria

A consequência direta dessa retração na oferta é a valorização do produto. A lei da oferta e da procura se manifesta de forma clara, e com menos mandioca disponível, os preços sobem. Os dados mais recentes do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) ilustram perfeitamente essa realidade. O cenário de oferta limitada sustenta alta de preços de uma maneira não vista desde o final de 2021.

Entre 8 e 12 de setembro, a média nominal a prazo da tonelada de mandioca posta fecularia foi de R$ 487,54 (R$ 0,8479/grama de amido) – o maior valor em oito semanas –, avanço de 4,3% em relação ao intervalo anterior.

Este aumento não afeta apenas o produtor que consegue vender sua safra. A indústria de transformação, principalmente as fecularias, sente o impacto de forma severa. Com a entrada de matéria-prima em queda, a capacidade produtiva fica comprometida. O esmagamento de mandioca nas fecularias, segundo o Cepea, caiu 8% em apenas uma semana, e o volume processado na primeira quinzena de setembro foi 20% menor que no mesmo período do mês anterior. Isso resulta em um aumento da ociosidade industrial, que chegou a alarmantes 60,8%, significando que mais da metade da capacidade das fábricas está parada por falta de produto.

A visão do produtor: desafios e oportunidades

Para o agricultor, o cenário é de faca de dois gumes. Por um lado, os preços elevados são uma excelente oportunidade de negócio, podendo compensar a alta nos custos de insumos. Por outro, os desafios operacionais e climáticos são imensos. A decisão de quando e como vender torna-se um cálculo complexo que envolve diversas variáveis. A oferta limitada sustenta alta de preços, mas o produtor precisa ter o produto para vender e condições para colhê-lo.