A disparidade entre preços de comprador e vendedor limita negócios no mercado da soja, veja mais informações a seguir
Se você anda sentindo o mercado da soja um pouco parado, saiba que não é apenas uma impressão. As negociações do grão mais importante do agronegócio estão em um ritmo mais lento, num verdadeiro compasso de espera. De um lado, temos o produtor rural, capitalizado e de olho no mercado externo, segurando sua produção à espera de valores mais atrativos. Do outro, temos os compradores, como indústrias e tradings, que estão mais cautelosos, observando um cenário de estoques elevados e a expectativa de uma nova safra recorde. Esse cabo de guerra cria um impasse que trava o mercado.
Mas, afinal, o que está por trás de cada uma dessas estratégias e quais são as perspectivas para os próximos meses? Vamos mergulhar nesse cenário para entender as forças que movem os preços da soja no país.
O sojicultor capitalizado e a estratégia de esperar
Vamos começar pelo lado de quem produz. O sojicultor brasileiro, em grande parte, vem de safras com boa rentabilidade, o que permitiu um maior fôlego financeiro. Essa capitalização mudou o jogo, pois o produtor não tem mais a mesma urgência de vender sua produção logo após a colheita para cobrir os custos. Com mais recursos em caixa e acesso a melhores estruturas de armazenagem, ele pode se dar ao luxo de esperar pelo momento que considera ideal para a venda.
A atenção do vendedor está totalmente voltada para as cotações internacionais, principalmente na Bolsa de Chicago (CBOT), e para a taxa de câmbio. Uma valorização do dólar frente ao real, por exemplo, pode compensar um preço mais baixo na bolsa, tornando a venda mais lucrativa em moeda nacional. Por isso, a decisão de vender envolve uma análise constante de múltiplos fatores.
A estratégia é clara: segurar o grão e aguardar uma combinação mais favorável entre câmbio e preços externos para maximizar os lucros. É uma aposta calculada, baseada na confiança de que a demanda global, especialmente da China, continuará forte.
A cautela do comprador: o que pesa na balança?
Agora, vamos para o outro lado do balcão. Os compradores, incluindo esmagadoras e empresas de exportação, enxergam o cenário por uma ótica completamente diferente, o que justifica suas ofertas mais contidas. O principal fator de cautela é a oferta. Com um estoque remanescente significativo da safra 2024/25 e projeções indicando uma colheita recorde para a temporada 2025/26, a percepção é de que não faltará produto no mercado. A lei básica da oferta e da procura entra em ação: com muito grão disponível, a tendência natural é que os preços se acomodem em patamares mais baixos.
Além disso, outros elementos reforçam essa postura. A desvalorização cambial, que beneficia o exportador, não necessariamente se traduz em um preço interno alto o suficiente para atrair o vendedor. Soma-se a isso a queda nos prêmios de exportação, que são os valores adicionais pagos pela soja brasileira nos portos. Quando esses prêmios caem, a competitividade do grão nacional diminui, pressionando os preços para baixo. O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) resume bem a situação:
De um lado, pesquisadores do Cepea apontam que sojicultores se mostram capitalizados e afastados das negociações – esses agentes têm a atenção voltada à valorização externa. Já boa parte dos consumidores está cautelosa, atenta ao alto estoque remanescente da safra 2024/25, às expectativas de safra recorde na temporada 2025/26, à desvalorização cambial (US$/R$) e à queda nos prêmios de exportação no Brasil.




