No cenário da pecuária extensiva, onde o rebanho muitas vezes ocupa áreas vastas e distantes da sede das fazendas, a segurança dos animais torna-se um desafio logístico e econômico
Entre as diversas soluções tecnológicas e de manejo, uma tradição milenar italiana tem se destacado como uma das mais eficientes: a utilização do Pastor Maremano Abruzês. Diferente dos cães de pastoreio comuns, este gigante branco não apenas vigia, mas se torna parte integrante do ecossistema do rebanho.
Um Instinto que Dispensa Manuais
Uma das características mais impressionantes do Maremano Abruzês é a sua natureza autossuficiente. Enquanto raças como o Border Collie exigem um treinamento rigoroso e comandos constantes do condutor para agrupar e guiar os animais, o Maremano opera sob um instinto ancestral de proteção.
Essa aptidão começa cedo. O manejo ideal envolve colocar o filhote em contato com o rebanho — sejam ovelhas, cabras ou gado — logo nas primeiras semanas de vida. Esse processo de “imprinting” faz com que o cão não se veja como um predador ou um estranho, mas como um membro daquela família. Como resultado, ele não requer comandos constantes; ele sabe exatamente onde deve estar e o que deve fazer.
Sentinela Noturna e Defesa Estratégica
A presença do cão em locais afastados da fazenda é indispensável. É nessas zonas de menor movimento humano que os predadores, como onças, lobos-guará, javalis ou cães ferais, costumam agir. O Maremano Abruzês é um cão que trabalha 24 horas por dia, mas sua performance atinge o ápice durante a noite.
Enquanto o rebanho descansa, o instinto do Maremano permanece alerta. Ao contrário de cães de ataque, sua estratégia é prioritariamente dissuasiva. Ao detectar uma ameaça, o cão utiliza seu latido potente e sua presença física imponente para sinalizar que aquele território está protegido. Na maioria das vezes, isso é suficiente para afugentar o invasor, evitando o confronto direto que poderia resultar em ferimentos para o cão ou perda de produtividade para o fazendeiro.
Maremano vs. Border Collie: Entendendo as Diferenças
É comum confundir as funções dos cães de trabalho rural, mas a distinção entre um cão de pastoreio (como o Border Collie) e um cão de proteção (como o Maremano) é vital:
Aproximação: O Border Collie utiliza o “olhar”e o movimento para intimidar e mover o rebanho. O Maremano, por outro lado, “mistura-se aos animais”. Ele caminha entre eles de forma calma, o que gera uma relação de confiança e simbiose. O rebanho não teme o Maremano; eles o veem como um porto seguro.
Objetivo: O pastoreio foca na condução e manejo. A proteção foca na preservação da vida contra agentes externos.
Independência: O cão de pastoreio trabalha em parceria com o homem. O Maremano trabalha em parceria com o rebanho, muitas vezes passando dias em áreas remotas sem intervenção humana direta.
Dados da Raça
Origem: Itália
Pelagem: Branca
Peso: Fêmeas 35 – 45 Kg Machos: 40 – 52 Kg
Altura: Fêmeas 62 – 70 cm Machos 67 – 73,5 cm
Utilização: Guarda de rebanho ou propriedade
Expectativa de Vida: 13 anos
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A Armadura de Pelos: Muito Além da Estética
À primeira vista, a pelagem densa e branca do Maremano Abruzês pode parecer um contratempo para o clima tropical ou para o trabalho no campo. No entanto, ela é uma das ferramentas biológicas mais importantes da raça.
Esta pelagem funciona como um isolante térmico, protegendo o cão tanto do frio rigoroso das montanhas italianas (sua origem) quanto do calor do sol em dias abertos, mantendo a temperatura corporal estável. Mais do que isso, em um eventual confronto, a densidade dos pelos ao redor do pescoço e do tronco atua como uma armadura natural, dificultando que as presas de um predador alcancem áreas vitais ou causem ferimentos profundos.
Além disso, a cor branca não é acidental. Historicamente, os pastores selecionavam cães brancos para que pudessem ser facilmente distinguidos dos lobos e predadores no escuro ou na penumbra, evitando que o próprio dono disparasse contra o cão por engano durante um ataque noturno.
O Pastor Maremano Abruzês representa a união perfeita entre a biologia e a necessidade prática da vida no campo. Ter um exemplar dessa raça na propriedade não é apenas adquirir um animal de estimação, mas investir em uma tecnologia viva de segurança. Sua capacidade de integrar-se ao rebanho, sua resistência física e seu instinto protetor garantem que a produção siga segura, permitindo que o produtor rural tenha a tranquilidade de saber que, mesmo na calada da noite e nos pastos mais distantes, existe um vigia atento pronto para defender o seu patrimônio.
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Escrito por
Dany Balieiro
Especialista em notícias e análises do mercado agropecuário.