Inversão térmica associada ao baixo nível do lago de Manso, pode ter ocasionado a morte de quase 100 toneladas de tilápia – peixe de cultivo, causando um prejuízo na ordem de R$ 700 mil reais aos produtores da região. Esta situação pode se tratar de um “crime ambiental” na avaliação da Peixe BR. Leia a matéria completa e entenda a situação.

Morte de peixes no Manso

Quase cem toneladas de tilápia, uma das espécies de peixe mais consumida no mundo, foram retiradas mortas, nesta semana passada (05), do Lago do Manso, um dos pontos turísticos mais conhecidos da baixada cuiabana. Se não bastasse os constantes ataques de piranhas aos banhistas, empresários da piscicultura, que formam o Condomínio Rural, amargam prejuízos com a mortandade que chega a R$$ 700 mil reais. Outro empreendimento, que também possui tanques na mesma região teve cinco toneladas de peixes mortos.

As imagens são impressionantes, assista o vídeo abaixo que mostra os peixes mortos nos tanques:

https://www.youtube.com/watch?v=7uwUO-XumbM

De acordo com a bióloga Daniela Maimoni de Figueiredo, professora do Mestrado em Recursos Hídrico da Universidade Federal de Mato Grosso, uma inversão térmica, provocada pela frente fria, que chegou a registrar 6º graus em Chapada dos Guimarães, pode ter sido a causa da morte dessa grande quantidade de pescado no Lago do Manso, que fica a 90 km de Cuiabá. “Como fez muito frio e ventou muito a camada superior do reservatório, que geralmente é mais quente, e o fundo mais frio, essa camada superior com a queda de temperatura fica mais fria que o fundo do lago. Com isso, as camadas de água do reservatório se misturam e nisso você não tem mais a estratificação de temperatura, ou seja, fica tudo com uma temperatura mais fria, e vem mais material do fundo em decomposição sem oxigênio, matéria orgânica, inclusive teve relato de pessoas que sentiram mau cheiro nas águas”, afirma Daniela.

O empresário Junior Vidotti, presidente do Condomínio Rural do Manso, perdeu todo o estoque dos tanques. Além da queda de temperatura, na semana passada, ele atribui que a falta de chuva tem ocasionado a queda no volume de água no reservatório, que hoje está bem abaixo da metade de sua capacidade total, como um dos fatores que provocaram a morte dos animais. “O reservatório nunca esteve no nível tão baixo de água como está agora, e isso tem preocupado muito, por que corre risco de mais peixes morrerem”, alerta Vidotti.

Possibilidade de crime ambiental

A mesma análise é feita por Francisco Medeiros, presidente da Associação Brasileira da Piscicultura – Peixe BR. Para Medeiros nesta situação, pode se tratar de um “crime ambiental” já que o baixo nível do volume útil de Manso, associado a inversão térmica, potencializou os efeitos e ocasionou a mudança das características físico-químicas do lago. “Para quem conhece, o lago do Manso é azul e transparente e de um dia para o outro ele ficou totalmente marrom. Todo o fundo subiu, o volume de água era pouco e não conseguiu fazer a diluição e nós tivemos uma falta de oxigênio, levando a mortalidade dos peixes de cultivo. O problema foi tão grave que nós tivemos também a mortalidade dos peixes nativos.“, explica o presidente da Peixe BR.

Medeiros alerta ainda para a continuidade da situação, já que o nível do lago de Manso continua baixo e outras fatalidades podem acontecer. “Isso é fácil de observar, basta entrarmos no site de Furnas e podemos ver que é o mais baixo nível do volume de água. Neste momento está entrando aproximadamente 60m³ de água/segundo e está saindo mais de 120m³/segundo, ou seja, o problema continua, o problema vai ser agravado e se Furnas não rever este processo nós teremos mais mortalidades.

Assista abaixo a entrevista do presidente da Peixe BR concedida ao AGRONEWS:

https://www.youtube.com/watch?v=GiLrHNyY7hc

Baixo nível do reservatório de Furnas

Como podemos observar no demonstrativo abaixo, Manso possui um volume útil de 26,82%, sendo uma vazão de 57m³/s como afluente (volume que entra) e 129m³/s como defluente (volume que sai). Segundo o presidente da Peixe BR, a exploração comercial do lago do Manso pode causar um impacto ambiental ainda maior. “Como podemos ver, continua o processo de secagem do Manso. Se Furnas não rever este processo, nós teremos mais mortalidades, principalmente de peixes nativos“, conclui Medeiros.

crime ambiental em manso
(*) Reservatórios a fio d’água.

Variação do volume útil em Manso nos últimos 12 meses

Como informado no site de Furnas, a variação do volume útil nos últimos 12 meses leva em conta o nível do reservatório no último dia de cada mês e é atualizado mensalmente, conforme informações disponibilizadas pelo ONS.

Os reservatórios sinalizados com um asterisco (*) são a fio d’água, ou seja, com acumulação suficiente apenas para prover regularização diária ou semanal, ou que utilizam diretamente a vazão afluente do aproveitamento para a geração de energia. Devido a essa característica, o volume de água armazenado pode variar significativamente de um mês a outro.

Produção de peixes de cultivo no Manso

Visando o fortalecimento da cadeia da piscicultura em Mato Grosso, em Janeiro de 2018 a Lei 10.669 que alterou e revogou a Lei nº 8.464, de 4 de abril de 2006, isentou de licenciamento ambiental, outorga e pagamento de taxas de registro e outorga de água, os aquicultores com até 5 hectares de lâmina d´água em tanques escavados e represas ou até 10 mil metros cúbicos de água em tanque-rede. Houve outra alteração na antiga Lei , permitindo projetos de piscicultura destinados à produção de alevinos e peixes hídricos, das espécies exóticas, nativas e alóctones nos sistemas de criação em viveiros escavados, represas, tanques-rede e sistemas fechados.