Atualizando...

Morango do Amor: O que não te contaram sobre essa sobremesa

Vicente Delgado
27/07/2025 às 10:47
Morango do Amor: O que não te contaram sobre essa sobremesa

Nas últimas semanas, uma sobremesa simples e irresistível virou estrela nas redes sociais: o tal “Morango do Amor”. Com visual vibrante, gosto que desperta lembranças e um nome que mistura romantismo e gula, o doce explodiu em popularidade. Tomou conta das vitrines, dos stories e do apetite nacional. Mas há algo que quase ninguém comenta: essa febre não nasceu no feed – começou lá no campo, entre estufas, terra molhada e mãos calejadas de quem vive do cultivo de morangos.

Morango do Amor: A origem do doce que encantou o Brasil

A receita? Nada mirabolante. Morango fresco, brigadeiro branco, calda vermelha brilhante – lembra a maçã do amor, só que com uma nova camada de desejo. A combinação do azedinho da fruta com o doce cremoso conquistou paladares e, mais ainda, algoritmos. Só em julho, os pedidos cresceram absurdamente: mais de 2.300%. Passaram de 11 mil para mais de 257 mil unidades vendidas num único mês. Em pouco tempo, mais de 10 mil estabelecimentos já estavam surfando nessa onda açucarada.

Mas esse amor começa no campo! Essa febre urbana começou com o pé na terra.

Morango do Amor: O que não te contaram sobre essa sobremesa

Enquanto nas cidades o doce virava sensação, no campo, a procura pelo ingrediente principal disparava. Em Campo Grande (MS), por exemplo, uma bandeja de 750g de morangos chegou a custar R$ 76,99. Mas, curiosamente, quem mais trabalha nem sempre é quem mais lucra. O produtor, aquele que planta e colhe, recebe cerca de R$ 18 por uma caixa com quatro bandejas. O dinheiro grande, como quase sempre, fica com os intermediários – aqueles que compram barato e vendem com margem. Coisas de mercado.

O Brasil que planta com identidade

O morango tem raiz forte por aqui. Minas Gerais é o maior produtor nacional, com destaque para cidades do Sul do estado como Bom Repouso, Estiva e Pouso Alegre – que juntas, concentram mais de 41% da produção brasileira. São cerca de 3.600 hectares só em Minas, produzindo quase 185 mil toneladas ao ano. Boa parte disso? Vem da agricultura familiar.

Logo atrás, o Rio Grande do Sul mantém uma produção robusta na Serra Gaúcha. Números que não contam só sobre economia, mas falam de tradição, comunidade e resiliência.

Distribuição percentual da produção de morangos no Brasil:

  • Minas Gerais – 41,4%: Principal polo produtor, com destaque para o Sul do estado (Bom Repouso, Estiva, Pouso Alegre). Produção familiar e tecnificada.
  • Rio Grande do Sul – 25,6%: Forte presença na Serra Gaúcha, especialmente nas cidades de Farroupilha, Caxias do Sul e Vacaria.
  • São Paulo – 12,7%: Produção concentrada no interior, com destaque para Atibaia e Jundiaí, abastecendo o grande mercado consumidor da capital.
  • Paraná – 10,5%: Presente nas regiões mais frias do estado, com cultivos em sistemas protegidos.
  • Demais estados (SC, ES, RJ, DF e outros) – 9,8%: Produção pulverizada, muitas vezes voltada ao consumo local e ao turismo rural.

O que a vitrine não mostra

Morango do Amor: O que não te contaram sobre essa sobremesa

Apesar da importância crescente dada ao morango do amor, os pequenos produtores ainda enfrentam barreiras sérias. Muitas das variedades que dão mais produtividade, como a “Aromas“, são importadas. Técnicas modernas, como a fertirrigação (mistura de irrigação com fertilizante), são quase obrigatórias para manter a qualidade que o mercado pede.

A boa notícia? Conhecimento está sendo compartilhado. Programas como os da Emater-MG vêm capacitando produtores para melhorar rendimento e lucratividade. Mas ainda falta ponte entre o sucesso comercial e o reconhecimento no campo.

Algumas curiosidades para mastigar com calma

Tecnicamente, o morango não é fruta. O que a gente come é o receptáculo da flor. As sementinhas na casca? Esses sim são os verdadeiros frutos.

Morango do Amor: O que não te contaram sobre essa sobremesa

Em 2021, o Brasil figurava como o 8º maior produtor mundial de morangos (dados da FAO). Nosso país é o maior produtor de morangos da América do Sul, superando países como Japão, Itália e Coreia do Sul em termos de produção anual, de acordo com dados apurados pela Embrapa com colaboração de outras instituições brasileiras.

Mesmo com tanta produção, o consumo per capta ainda é baixo. O brasileiro consome em média apenas 150g de morango por ano – menos que uma bandejinha.

Desde 2020, o Brasil praticamente zerou suas importações de morango, tamanha a oferta interna.

Muito além da sobremesa: morango como cultura

Em várias cidades do Brasil, o morango deixou de ser apenas ingrediente de sobremesa e virou protagonista de verdadeiras celebrações. Em Pedra Azul (ES), por exemplo, a Festa do Morango movimenta milhares de visitantes com tortas gigantes, algumas de até 500 kg, shows, desfiles, feira de produtos artesanais e aquele clima de interior que mistura comida boa com hospitalidade capixaba.

No sul do país, Turuçu (RS) celebra a dupla paixão por pimenta e morango com um evento animado que vai de geleias artesanais a lutas de MMA e torneios de truco. Já em Bom Princípio (RS), a Festa Nacional do Moranguinho atrai cerca de 100 mil pessoas com chopp de morango, culinária típica e homenagens às raízes da imigração alemã.

Essas festas são muito mais do que vitrines gastronômicas: são pontos de encontro entre quem planta e quem consome, entre tradição e futuro. O morango, ali, vira símbolo de cultura, renda e pertencimento.

Morango do Amor: O que não te contaram sobre essa sobremesa

Durante minha visita a Pedra Azul, tive o prazer de conhecer a propriedade Morangos Peterle, um verdadeiro refúgio para quem aprecia morangos e valoriza a produção local. Logo ao chegar, fui recebido com hospitalidade calorosa por Eduardo, o idealizador do espaço, que pertence a uma família tradicional da região, com longa história na agricultura familiar.

O ambiente é encantador: um deck com vista para a natureza exuberante da serra, uma cafeteria charmosa, restaurante com cardápio contemporâneo e uma lojinha repleta de produtos artesanais da região – tudo girando em torno do protagonista local: o morango.

Morango do Amor: O que não te contaram sobre essa sobremesa

O diferencial ali vai muito além do sabor. Os morangos são cultivados sem agrotóxicos, por meio de manejo biológico cuidadoso, resultando em frutas doces, vistosas e totalmente seguras para consumo. Embora as estufas não estejam abertas à visitação para preservar o cultivo, é possível comprar os morangos direto na propriedade – colhidos no dia, fresquinhos, com um sabor que supera qualquer expectativa. E claro, não poderia faltar a famosa torta de morango da casa, que por si só já valeria a viagem.

Entre cafés decorados com a fruta, drinks criativos e até pratos quentes de inverno com toque regional, a experiência na Morangos Peterle une gastronomia, natureza e tradição de um jeito que só Pedra Azul consegue oferecer.

O gosto da moda começa na roça

Morango do Amor: O que não te contaram sobre essa sobremesa

O “Morango do Amor” pode ser a sobremesa do momento, mas ele expõe uma velha verdade: por trás de qualquer doce popular, tem alguém invisível que começou essa história. Alguém que plantou, cuidou e colheu sem saber que seu fruto brilharia no topo das tendências.

Então, da próxima vez que você saborear essa delícia vermelha coberta de calda, pense nisso: o brilho é recente, mas o trabalho por trás dele vem de muito antes – e de muito longe. É o amor pelo campo!

AGRONEWS é informação para quem produz

espírito santo morango Morango do Amor

Compartilhe esta notícia: