A elevada dependência das condições climáticas faz da agricultura uma atividade econômica com alto risco associado, podendo ser influenciada por diversos fatores, desde o plantio até a colheita. Por isso, é importante entendermos os padrões do clima para tentarmos antever eventos futuros que possam ser potencialmente prejudiciais, ainda em tempo de amenizá-los

Essa não tem se revelado uma tarefa fácil para a região Centro-Sul do Brasil, particularmente nesses últimos anos, com o comportamento bastante diferenciado do clima quando se confrontam as séries históricas. Com o início do outono, ocorrido em 20 de março, já seriam esperadas grandes mudanças nas condições climáticas.

Reduções significativas das chuvas e das temperaturas são normais nesse período, contudo, a irregularidade dos eventos observados no passado recente parece destoar do padrão esperado. Muito do que tem acontecido recentemente pode ser atribuído à ocorrência do fenômeno La Niña (resfriamento do Oceano Pacífico na região costeira do Peru).

Esse fenômeno costuma provocar irregularidade e diminuição das chuvas na Argentina, Paraguai e região Sul do Brasil, enquanto são esperadas mais chuvas nas regiões Centro-Oeste e Nordeste. A região Sul de Mato Grosso do Sul, onde se localiza Dourados, embora politicamente inserida no Centro-Oeste brasileiro, é uma região de transição climatológica, podendo algumas vezes seguir um padrão diferente do esperado.

De fato, a condição mais comum para essa região é seguir os padrões de La Niña indicados para o Sul do Brasil. Os efeitos tendem a ser mais pronunciados em direção ao sul do Estado e perdem força à medida que se avança para o norte, eventualmente atingindo municípios como Rio Brilhante e Maracaju. 

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Retrospectiva para o Sul do Estado

De acordo com dados observados na estação meteorológica da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, nos últimos anos as chuvas foram irregulares e tiveram redução nos totais anuais. Nos anos 2019, 2020 e 2021 foram registrados, respectivamente 1176 mm, 1185 mm e 1109 mm de chuva durante o ano, uma redução de 15% a 20% frente a uma média histórica de 1400mm. 

Além da redução no total anual, o ano de 2019 também foi marcado pelo atraso no início da estação de chuvas, esperado para o final de setembro e início de outubro (primavera). Depois de um mês de outubro bastante seco, as chuvas se normalizaram no final de novembro e meses subsequentes, permitindo ainda bons resultados na safra de verão.  

As condições climáticas começaram a ficar difíceis, de fato, no outono de 2020, quando surgiu o ciclo de La Niña atualmente em curso. Houve significativa redução dos volumes de chuva em novembro e dezembro, meses críticos para os cultivos de verão. Além desse impacto inicial, houve agravamento do cenário pela manutenção de La Niña por praticamente todo o ano de 2021, quando tivemos irregularidades climáticas ainda maiores, com excesso de chuvas em janeiro e outubro, mas escassez nos demais meses.

Outro efeito de La Niña a ser destacado em 2021 foi o inverno mais rigoroso. As menores temperaturas experimentadas culminaram na maior ocorrência de geadas dos últimos anos, impactando atividades de produção como o milho safrinha, a cana-de-açúcar e a pecuária. 

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Condições atuais

Nessas condições, chegamos à safra de verão 2021/2022 ainda sob efeito de La Niña, tendo experimentado uma escassez de chuvas e altas temperaturas que foram recordes na série histórica da estação meteorológica da Embrapa Agropecuária Oeste, resultando em índices muito baixos de água armazenada no perfil do solo. Isso culminou em altas perdas nas lavouras de soja, bem como de todas as culturas de verão, de todo Cone Sul de MS. 

A estiagem no Sul de MS e no Centro-Sul do Brasil, de modo geral, foi decorrente do fortalecimento de um sistema de alta pressão que deslocava os corredores de umidade para outras regiões, inibindo a formação de chuvas. Recentemente, nesse mês de março, houve o rompimento dessa barreira, permitindo o retorno das chuvas. Mas há dúvidas sobre o futuro, principalmente quanto ao comportamento do clima durante o cultivo de milho na segunda safra. 

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Previsões

As previsões disponibilizadas por diversos serviços públicos e privados indicam que o fenômeno La Niña deverá ainda persistir por um bom tempo. As estimativas consideram que o fenômeno perdure até setembro/outubro, ou seja, praticamente até o início da próxima safra de verão. Este é um ciclo de La Niña que está se estendendo por três anos, algo que chama a atenção, mas é de ocorrência relativamente comum na série histórica.