Cadeias que dependem da soja e de seus subprodutos devem sofrer com aumento de custos.
Se em um primeiro momento o impacto da guerra comercial entre Estados Unidos e China pode ser positivo para o Brasil, com aumento dos prêmios e da demanda pela soja por parte dos chineses, com o tempo – e a entrada de outros países e blocos nessa disputa -, essa balança pode se inverter e o Brasil sair prejudicado. Essa é a avaliação de Hsia Hua Sheng, professor de finanças aplicadas da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, mantida pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP). Em entrevista ao Portal DBO, ele explica os possíveis efeitos da briga:
O que essa guerra comercial representa para o comércio global de commodities agropecuárias?
Hsia Hua Sheng: São vários efeitos. Quando todos os países começam a fazer guerra comercial – porque essa disputa não é mais só China e Estados Unidos, mas também com União Europeia e Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), e a própria América Latina, indiretamente, faz parte -, a primeira coisa que vai acontecer é aumento de inflação em todos os lugares. Isso quer dizer que a taxa de juros vai subir, porque os bancos centrais vão aumentá-la para combater a inflação. E, a partir disso, tem efeito no crescimento econômico. Com as taxas de juros elevadas, a economia começa a se retrair e isso afeta os preços das commodities.
E para o agronegócio brasileiro? Ele ganha com isso?
Para a soja seria interessante, porque o Brasil com certeza vai exportar mais para a China e o preço dos prêmios vão ser maiores, porque os chineses vão preferir comprar mais do Brasil do que dos EUA por causa da diferença das tarifas.
Mas isso vai gerar problemas também. Como a soja brasileira vai ficar mais cara, as cadeias que dependem dela vão ter aumento de custos. Isso quer dizer que a criação de porcos e frangos, principalmente, vão perder competitividade. E quem vai ganhar? Os criadores de frangos e suínos da União Europeia e países asiáticos, porque vão poder importar soja mais barata dos Estados Unidos [que deixou de ser enviada para a China por causa das tarifas] e depois exportar para a China. Você tem um efeito bom do lado da soja, mas péssimo para a cadeia posterior, como a de criação de frangos e suínos, porque vai ficar caro. Não vai ter como competir, até por causa das tarifas temporárias de exportação de frango para a China [por causa das acusações de concorrência desleal da proteína brasileira].
Com esse aumento da demanda chinesa pela soja brasileira, o Brasil não ficaria dependente demais da China?
Sim, mas a rentabilidade é boa. Porém o maior problema não é agora. A questão não é dependência da China, é o produtor, ao ver o prêmio extra, anormal desse ano, se animar e achar que é bom plantar mais. E daí, no final do ano que vem, o Trump resolve reverter tudo e quem vai quebrar é o produtor brasileiro, porque já aumentou a produção e não vai ter para quem vender o excedente. Um tweet do Trump, falando que acabou a guerra comercial, pode mudar tudo de um dia para outro. Esse é o maior perigo.
E no caso da carne bovina? O Brasil poderia ganhar mercado?
Na carne bovina, o impacto é igual para todo mundo, então só vai aumentar a inflação para a própria China. Só vão pagar mais caro na carne.



