Conquista de nova condição sanitária irá coroar um trabalho desenvolvido desde a década de 1970, para consolidar o Estado como um agente de segurança alimentar
Se no futebol a Seleção Brasileira conquistava o tricampeonato mundial em 1970 como unanimidade internacional, o Brasil como exportador de alimentos ainda engatinhava. Nos tempos do ataque com Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino, o rebanho bovino nacional se resumia a 80 milhões de cabeças.
A produção mal dava para cobrir a demanda interna, a exportação de carne era irrisória, inclusive o país figurava como importador. Jogavam contra a pecuária nacional os índices de natalidade ruins, a mortalidade elevada de bezerros, a idade alta de abate e as doenças recorrentes nas mais diversas regiões do Brasil, como a temida febre aftosa.
Deni Schwartz, um dos desbravadores da bovinocultura de corte na época, lembra bem como eram os desafios da produção de carne nos anos 1970. Na época, Schwartz morava em Francisco Beltrão, a 75 quilômetros da sua propriedade em Nova Prata do Iguaçu, no Sudoeste do Paraná.
“Naquele tempo, levava quase um dia para fazer esses 75 quilômetros. Eu estava morando em Beltrão, quando recebi a notícia de que um vizinho tinha comprado uns boizinhos para mim de um cidadão que passou lá pela minha propriedade”, relembra Schwartz, ex-secretário estadual da Agricultura (2002) e de Transportes (1983 a 1985), além de ex-ministro do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente no governo Sarney (1986 a 1987). “Eram tão magros que se encostassem um no outro, caíam. Mas tudo começou por aí”, completa.
Schwartz chegou a registrar um surto de aftosa em sua propriedade no fim dos anos 1970. “Na época, comprei gado de fora e cheguei a ter esse problema. O pecuarista não gostava de vacinar, ainda mais naquele tempo que o manejo era mais difícil. O pessoal não tinha tanta instrução e nem estrutura como hoje”, relembra. “Com o passar do tempo, as vacinas ficaram melhores. O pessoal passou a ter mais consciência de que precisava vacinar”, conta.
Para virar esse jogo, assim como numa partida de futebol, a pecuária do Paraná passou a contar com uma equipe bem treinada. Na época, o serviço veterinário oficial paranaense entrou em campo com força total para promover uma transformação significativa. As táticas eram ousadas, necessárias para driblar uma série de obstáculos como estradas precárias, falta de rede refrigerada e desconfiança dos produtores às novidades apresentadas.
Hoje, Schwartz vive na propriedade onde tudo começou, em Nova Prata do Iguaçu. Atualmente, possui em torno de 900 cabeças, em uma área de 480 hectares. Um dos recentes investimentos é um confinamento para instalação de um biodigestor, ambiente onde mantém sempre parte do rebanho, criado com intenção de ganhar o mundo. “A conquista do status de livre de febre aftosa sem vacinação pelo Paraná será um marco. Sou integrante de uma cooperativa de Guarapuava, que está construindo um frigorífico para ter número de Serviço de Inspeção Federal (SIF) e exportar somente novilho precoce, com preço diferenciado”, comenta.
Barro e poeira
Para o Paraná chegar ao nível de sanidade atual, com destaque da produção de proteínas animais, incontáveis vezes fiscais agropecuários tiveram que domar jipes e fuscas para ficarem dentro das estradas lamacentas da ainda embrionária malha rodoviária estadual. Na década de 1970, o Estado contava com 2.056 quilômetros de estradas, sendo apenas 793 quilômetros pavimentados. Hoje, são mais de 16 mil quilômetros de rodovias federais e estaduais existentes, com um total de 14,1 mil quilômetros pavimentados, segundo informações do Sistema Rodoviário Estadual, do Departamento de Estradas e Rodagem (DER).
Além dos atoleiros, a ausência de geladeiras nas propriedades rurais era outro obstáculo, já que obrigava o produtor a comprar vacinas e aplicar imediatamente no rebanho. As vacinas precisavam (precisam até hoje) ser mantidas refrigeradas para que não perdessem a eficácia. Como as estradas tornavam o acesso difícil, era preciso uma caixa de isopor com gelo para a vacina chegar na temperatura correta na propriedade após uma viagem cheia de solavancos, que poderia durar um dia inteiro. Era mais um empecilho ao manejo dos animais.
O médico veterinário Ronei Volpi, hoje diretor-executivo do Fundo de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Paraná (Fundepec), coordenava o núcleo de defesa agropecuária do Sudoeste do Paraná nos anos 1970. O profissional aponta o quanto esse pontapé inicial foi crucial para o Estado seguir em uma trajetória consistente de desenvolvimento do sistema de vigilância sanitária. “Hoje, a cadeia produtiva só está preparada para conquistar o status de livre de febre aftosa sem vacinação porque foram feitos esforços por inúmeras pessoas. Muitas dedicaram suas vidas à construção do sistema sanitário mais robusto do Brasil atualmente”, enfatiza.
Na época, houve um trabalho de mudança de cultura entre os produtores, já que as primeiras vacinas tinham uma qualidade inferior às utilizadas hoje. “As características da cadeia produtiva do Estado no início dos anos 1970 eram totalmente diferentes. Muitos animais eram usados para tração. Em alguns casos, a vacina tinha como efeito colateral o surgimento de abcessos que inutilizavam o animal para o trabalho por um período. A evolução das vacinas e a mudança no perfil da produção agropecuária foram muito grandes.



