Logística cara virou o fiel da balança entre lucro e prejuízo na safra.
A alta do frete rodoviário voltou a sentar na cabeceira da mesa do produtor brasileiro de soja. Neste início de colheita da safra 2025/26, principalmente em Mato Grosso, o custo para tirar o grão da fazenda até os pontos de escoamento está comendo margem em silêncio. O mercado até oferece preço, mas a conta não fecha quando a logística entra forte no cálculo.
O ponto é que o frete deixou de ser detalhe operacional e passou a ser decisão estratégica. Em várias regiões, ele é hoje o maior custo variável pós-porteira e define se a venda faz sentido ou não.
Contexto de preços da soja no início da colheita
Os dados do Cepea e do IMEA mostram um mercado físico pressionado. No início de janeiro de 2026, a soja no Paraná girava em torno de R$ 133,85 por saca no spot, enquanto no porto de Paranaguá os valores chegaram a R$ 142,14 por saca. A média física nacional ficou em R$ 128,99 por saca.
Em Mato Grosso, a realidade é outra. Praças como Sorriso trabalharam perto de R$ 103,90 por saca, enquanto Rondonópolis ficou ao redor de R$ 115,00 por saca. Essa diferença não é prêmio nem desconto de mercado. É logística pura.
Quando o produtor compara o preço do porto com o preço dentro da fazenda, a diferença reflete o custo de levar a soja até lá. E é aí que o frete entra pesado na conta.
Frete rodoviário virou gargalo de margem
Os fretes rodoviários em Mato Grosso dispararam neste início de safra. Rotas curtas já mostram pressão, mas o problema maior está nas rotas longas. O transporte de Sorriso até Rondonópolis ficou em R$ 176,84 por tonelada, com alta diária registrada pelo IMEA, sinal claro de escassez de caminhões.
Quando o destino é Cuiabá, o frete gira em torno de R$ 129,42 por tonelada. Para Miritituba, no Arco Norte, o custo sobe para R$ 277,43 por tonelada. Já para Paranaguá, o número assusta: R$ 446,09 por tonelada.
Na prática, o produtor sente isso no bolso quando percebe que boa parte do ganho de preço externo fica pelo caminho. Mesmo com prêmio positivo e demanda firme para exportação, o frete elevado engole a vantagem.
Custo de produção já vem pesado
Além da logística, o produtor entra nesta safra com um custo de produção elevado. Segundo o IMEA, o custo total da soja em Mato Grosso para a safra 2025/26 chegou a R$ 7.761,74 por hectare, considerando custo operacional, depreciação, capital e oportunidade da terra.
O custeio direto, que inclui insumos, defensivos e operações, ficou em R$ 5.776,55 por hectare. Isso significa que a margem já nasce apertada. Quando o frete sobe, ele não aperta gordura. Ele corta músculo.
O que muda a conversa é que, em regiões distantes dos portos, a paridade de exportação calculada pelo IMEA para março de 2026 ficou perto de R$ 100 por saca em municípios como Diamantino, Ipiranga do Norte e Nova Mutum. Esse nível mal cobre custo e logística em muitas propriedades.




