Decisão europeia baseada no uso de antimicrobianos pega pecuária brasileira em meio a exportações recordes para o bloco e abre debate sobre os rumos da produção
O anúncio que o setor já esperava
O aviso veio em maio direto de Bruxelas. O Jornal Oficial da União Europeia publicou na sexta, 5 de junho, a regulamentação que estabelece novos padrões sanitários para a importação de carne brasileira. Acabou o tempo de espera.
A resolução estabelece novas exigências de conformidade com as normas de uso de antimicrobianos na produção animal, respaldada por parecer da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar. A EFSA identificou fragilidades nos protocolos de rastreabilidade e uso de medicamentos veterinários. O Brasil segue habilitado a exportar, mas terá até setembro para comprovar que atende aos critérios. O processo vinha sendo acompanhado desde 2024, quando a EFSA aprofundou auditorias nos sistemas de controle sanitário brasileiros.
Na porteira adentro, ninguém se surpreendeu.
Casos anteriores de resíduos detectados em embarques para o bloco foram o sinal de que o cerco regulatório vinha se fechando. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes confirma que o Brasil não perdeu a habilitação, mas o prazo é curto para as adequações necessárias.
Exportações brasileiras de carne para a UE bateram recorde em 2025. Prazo para adequação às novas regras termina em setembro.
Três meses para se adequar
Da publicação à vigência são três meses. Setembro é o prazo final para o Brasil apresentar as garantias sanitárias exigidas pela Comissão Europeia ou o bloqueio entra em vigor.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil já busca ajustes junto ao Ministério da Agricultura para responder às exigências. O governo anunciou mobilização diplomática via Itamaraty. O vice-presidente Alckmin lidera as tratativas. Nos frigoríficos, a corrida começou com equipes reavaliando processos de produção e protocolos de rastreabilidade.
O paradoxo dos recordes
Os dados da Secretaria de Comércio Exterior revelam o contraste.
Em 2025, o Brasil embarcou para a União Europeia o maior volume de carne bovina dos últimos dez anos, com receita superior a US$ 1,8 bilhão. O crescimento foi de 23% em relação a 2024.
Nunca a pecuária brasileira vendeu tanto para a Europa e nunca esteve tão perto de perder esse mercado de uma só vez. O timing não poderia ser pior para o setor.
Evolução das exportações brasileiras de carne bovina para a União Europeia. SECEX/MDIC e S&P Global
Na conta de chegada, o impacto potencial ultrapassa US$ 2 bilhões por ano para o conjunto dos produtos atingidos. A arroba do boi gordo já sente pressão com ajustes nos contratos futuros para setembro e outubro. O impacto atinge não só a carne bovina, mas também frango, ovos e mel.
Mercados alternativos como China, Oriente Médio e Norte da África surgem no radar, mas não pagam o mesmo prêmio de preço que o europeu. A commodity brasileira perde valor na realocação. A ABIEC avalia que o prazo de três meses é insuficiente e defende extensão do cronograma com negociações bilaterais.
Mais do que uma crise passageira, a regra expõe um desencontro estrutural entre o modelo produtivo brasileiro e o Green Deal europeu. A pecuária precisa decidir se corre para se adaptar em três meses ou redireciona a estratégia para mercados com regras menos rígidas.
O dilema não é só de Bruxelas ou de Brasília. Ele ecoa dentro da porteira de cada produtor que depende da exportação para fechar a conta no fim do mês. A resposta que o setor der pode redefinir os rumos da pecuária brasileira para a próxima década. Agronews é informação para quem produz
Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Jornalista e fundador do Agronews, referência em informações sobre o agronegócio brasileiro. Com mais de 15 anos de experiência no setor, acompanha de perto as principais commodities, políticas agrícolas e tendências do mercado rural.