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ApexBrasil projeta queda de 92,6% nas emissões da pecuária até 2050

ApexBrasil projeta queda de 92,6% nas emissões da pecuária até 2050

Brasil apresenta na FAO estudo que aponta queda de até 92,6% na intensidade de emissões da pecuária de corte até 2050, com base no modelo tropical integrado de produção.

O número é grande e, no primeiro olhar, parece promessa de campanha.

Mas vem embalado em estudo técnico, com modelagem matemática e chancela de instituições que andam pouco afeitas a estridência. A ApexBrasil levou à quarta sessão do Subcomitê de Pecuária do Comitê de Agricultura da ONU, em Roma, o documento que projeta para a pecuária de corte brasileira uma queda de até 92,6% na intensidade de emissões de gases de efeito estufa até 2050.

É o produto por quilo de carne deixando uma pegada cada vez menor de carbono.

Para quem está na porteira adentro, o que importa mesmo é a fatura ao final do mês. E o estudo mostra que essa fatura climática pode encolher sem que a produção encolha junto. O trabalho foi feito pela FGV Agro em parceria com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne.

Onde o Brasil quer chegar em 2050

Os números correntes impressionam.

A intensidade de emissão saltou de aproximadamente 80 quilogramas de CO₂ equivalente por quilo de carne em 2020 para uma marca próxima a 5,9 quilogramas no cenário mais ambicioso projetado para 2050. A redução equivale a 92,6% do total inicial.

O cenário ambicioso combina expansão da Integração Lavoura Pecuária Floresta, recuperação massiva de pastagens degradadas, manejo eficiente do solo e genética animal selecionada para ganho de peso em menor tempo.

Para quem lida com gado o dia inteiro, a pergunta inevitável é se essa conta fecha na ponta do lápis. A resposta do modelo diz que sim.

CenárioIntensidade em 2020Intensidade projetada em 2050Redução
Cenário de referência (tendências atuais)~80 kg CO₂e/kg carne~32 kg CO₂e/kg carne~60% nas emissões absolutas
Cenário de mitigação (tecnologias médias)~80 kg CO₂e/kg carne~15 kg CO₂e/kg carne~81%
Cenário ambicioso (Plano ABC+ e ILPF ampliados)~80 kg CO₂e/kg carne~5,9 kg CO₂e/kg carne92,6%
Média global de carne bovina (referência FAO)~50 a 100 kg CO₂e/kgEm queda gradualVariável por país
Trajetórias de descarbonização da pecuária de corte. Fonte FGV Agro/ABIEC, 2025.

O espaço que a pecuária abriu mão de ocupar

O número mais revelador não está na intensidade por quilo. Está no chão que deixou de ser ocupado.

Entre 2004 e 2024, a produção de carne bovina cresceu mais de 240%, enquanto a área total de pastagens caiu cerca de 11%, passando de aproximadamente 181 milhões de hectares para 160 milhões.

O rebanho saltou para 192,6 milhões de cabeças, tudo isso em menos chão. Parece mágica, mas é tecnologia e gestão se encontrando na lida.

Esse desacoplamento resultou na economia de cerca de 397 milhões de hectares que seriam necessários caso os níveis de produtividade de 1990 fossem mantidos. Sem o salto tecnológico das últimas décadas, a fronteira agrícola precisaria ter avançado sobre uma área equivalente ao território da Índia.

A pesquisadora da FGV Agro Camila Estevam lembrou, no painel em Roma, que os resultados do modelo mostram tendências já em curso no setor agropecuário brasileiro capazes de promover mudanças estruturais significativas.

Pecuária brasileira de baixo carbono em sistema integrado de lavoura, pecuária e floresta

A combinação entre recuperação de pastagens degradadas, sistemas integrados e manejo eficiente do solo é central para o resultado projetado.

O que a ApexBrasil levou para a mesa em Roma

A apresentação foi feita na quarta sessão do Subcomitê de Pecuária do Comitê de Agricultura da FAO, realizada entre 3 e 5 de junho em Roma.

Na bagagem, dados de emissões por quilo de carne, área ocupada, expansão do rebanho, tecnologias de mitigação e indicadores socioeconômicos de regiões produtoras.

O presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, destacou que o Brasil busca levar ao debate internacional uma visão baseada em dados e evidências científicas. Ele afirmou que a pecuária brasileira tem condições de avançar na agenda climática sem abrir mão da produtividade. Foi um discurso de produtor que conhece o risco de falar em números inflados.

O diretor de Produção e Sanidade Animal da FAO, Thanawat Tiensin, respondeu que a transformação da pecuária sustentável depende de esforço conjunto entre governos, produtores, setor privado, academia e instituições de pesquisa. Cada país precisa encontrar seu próprio caminho dentro da Agenda 2030.

Müller também lembrou a importância da Integração Lavoura Pecuária Floresta como diferencial competitivo. O país já conta com cerca de 17 milhões de hectares sob sistemas integrados, o que permite maior eficiência no uso da terra. Não é jabuticaba tropical, é engenharia tropical aplicada.

Como o produtor chega lá sem apertar o cinto

O Plano ABC+ é o principal instrumento citado no estudo.

A pesquisadora Camila Estevam acrescentou que o carbono fixado no solo pela integração lavoura-pecuária-floresta e pela recuperação de áreas degradadas atua diretamente na compensação das emissões da atividade.

Em outras palavras, cada hectare bem manejado tira CO₂ do ar, em vez de jogar mais.

Entre as tecnologias listadas estão recuperação de pastagens degradadas, sistemas silvipastoris, terminação intensiva a pasto, suplementação estratégica, melhoramento genético, manejo de dejetos em confinamento e plantio direto. O cenário ambicioso pressupõe adoção massiva dessas frentes.

A pesquisadora da Embrapa citada nos debates lembrou, em outras oportunidades, que a integração bem desenhada recupera áreas degradadas, melhora a fertilidade do solo, aumenta a renda por hectare e fixa carbono.

O produtor que entra nesse caminho sai, em geral, com mais pasto, mais boi e mais margem.

O que vem pela frente

O estudo será divulgado pela ApexBrasil em outros fóruns internacionais ainda em 2026.

A ideia é abrir frentes de cooperação técnica com países tropicais produtores de carne, como Austrália, Argentina, Paraguai e nações africanas. A Embrapa segue tocando experimentos de longo prazo em fazendas parceiras, monitorando ganho de peso, qualidade de carne, sequestro de carbono e rentabilidade.

Para o produtor brasileiro, o recado prático é o de sempre. Tecnologia boa é tecnologia que cabe na planilha e funciona no campo. O modelo ambicioso mostra que dá para produzir mais carne, em menos terra, com menos carbono por quilo. Resta saber quem paga a conta da transição, quem financia a mudança e quem fiscaliza o resultado. No fim das contas, é no caixa do produtor que a notícia ganha peso.

Agronews é informação para quem produz.

Foto de Vicente Delgado

Sobre o autor

Vicente Delgado

DRT 2364/MT

Jornalista e fundador do Agronews, referência em informações sobre o agronegócio brasileiro. Com mais de 15 anos de experiência no setor, acompanha de perto as principais commodities, políticas agrícolas e tendências do mercado rural.

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