Não é todo dia que o mesmo produto abre três frentes em uma semana. Foi o que aconteceu com a carne bovina brasileira entre a quinta e a sexta-feira: a Rússia reconheceu o status de país livre de febre aftosa sem vacinação, o Vietnã habilitou mais duas plantas frigoríficas e o Cepea, ligado à Esalq/USP, confirmou volumes recordes nos embarques de janeiro a maio. O conjunto recoloca o Brasil no centro do comércio global de proteínas, em meio a um calendário internacional mais concorrido e a uma janela climática que começa a exigir jogo de cintura do produtor.
O sinal prático, para quem está na lida, é direto. Novos destinos pagam bem, cotação em dólar se sustenta em patamar histórico, e frigoríficos de diferentes estados passam a operar com capacidade ociosa menor. A leitura também é conjuntural: a Rússia reconhece o novo status sanitário conferido pela OMSA (Organização Mundial de Saúde Animal), o que abre caminho para cortes bovinos, suínos e de aves; o Vietnã soma 12 unidades habilitadas de cinco grupos; e a Secex, a Secretaria de Comércio Exterior, mostra que a parcial do ano é a maior da série histórica iniciada em 1997.
Há, no entanto, nuvens no horizonte. O Serviço Nacional de Sanidade Animal dos Estados Unidos e a USDA informam queda de 11% nos embarques americanos em abril, o que abre espaço para o Brasil, mas a China, principal cliente, segue seletiva, e a UE (União Europeia) descartou prazo para reabrir o mercado europeu ao produto nacional. Traduzindo: o campo de jogo está maior, porém mais exigente.
Reconhecimento russo e o que muda na prática
A comunicação da Rússia, feita em 10 de junho, reconhece todo o território brasileiro como livre de febre aftosa sem vacinação. A medida é resultado do trabalho conjunto do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e dialoga com o novo status sanitário concedido pela OMSA, a Organização Mundial de Saúde Animal. Na prática, o que muda é a possibilidade de ampliar o embarque de cortes bovinos, suínos e de aves para um dos maiores importadores mundiais.
Para frigoríficos que já operam com a Rússia, o reconhecimento reduz barreiras técnicas e abre espaço para que plantas hoje dedicadas a outros mercados possam, gradualmente, incluir o cliente russo em seu portfólio. Para o pecuarista, o efeito é indireto, mas relevante: mais destinos habilitados significam mais demandantes disputando a mesma oferta, o que tende a sustentar a cotação da arroba.
Carne bovina exportação Brasil ganha musculatura no Vietnã
Do outro lado do mundo, o Vietnã habilitou mais duas unidades: a Naturafrig, de Pirapozinho (SP), e a Sulbeef, de Aparecida do Taboado (MS). Com as novas autorizações, o Brasil chega a 12 plantas liberadas para vender carne bovina ao país asiático, distribuídas entre JBS (quatro unidades), MBRF (duas) e Minerva (quatro), além das duas recém-confirmadas. O mercado vietnamita foi aberto em março de 2025 e tem potencial estimado em 300 mil toneladas por ano.
Quase 100 plantas no Brasil já apresentaram a documentação necessária para requerer a habilitação vietnamita e aguardam análise. Isso significa que o cadastro brasileiro interessado no mercado está longe de saturar. Para o pecuarista, o sinal é claro: a fila de frigoríficos habilitados para um destino de 300 mil toneladas anuais tende a pressionar a base de abate para cima, com efeito direto sobre o preço pago ao criador.
Plantas brasileiras habilitadas para o Vietnã
Quantidade
JBS
4
Minerva
4
MBRF
2
Naturafrig (Pirapozinho/SP)
1
Sulbeef (Aparecida do Taboado/MS)
1
Total habilitado
12
Recordes do Cepea confirmam a virada de 2026
Os números do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), calculados a partir dos dados da Secex, mostram que o Brasil exportou 1,36 milhão de toneladas de carne bovina entre janeiro e maio de 2026. O volume é 14,4% superior ao do mesmo período de 2025 e 26,6% maior do que o registrado em igual intervalo de 2024. É o melhor resultado da série histórica para o período, iniciada em 1997.
Em receita, a parcial de 2026 já soma R$ 40,207 bilhões, 20,24% acima dos R$ 33,44 bilhões de janeiro a maio de 2025. O Cepea atribui o resultado ao câmbio e ao preço médio por tonelada, que alcançou R$ 29,5 mil. Em maio, o volume mensal chegou a 290,4 mil toneladas, com preço de R$ 31.135,21 por tonelada e faturamento de R$ 9,04 bilhões, o maior do ano.
Indicador
Jan–Mai 2026
Jan–Mai 2025
Variação
Volume exportado (mil t)
1.360
1.189
+14,4%
Receita (R$ bilhões)
40,21
33,44
+20,2%
Preço médio (R$/t)
29.500
28.124*
+4,9%
*Estimativa a partir da relação receita/volume de 2025. O Cepea destaca que o dólar elevado foi determinante para a receita.
E o competidor americano?
No mesmo período em que o Brasil acelera, os Estados Unidos patinam. Em abril, as exportações de carne bovina dos EUA somaram 89.783 toneladas, queda de 11% sobre o mesmo mês de 2025, com receita de US$ 780,6 milhões (–5%), de acordo com dados da USDA compilados pela USMEF, a Federação Americana de Exportação de Carnes. No acumulado de janeiro a abril, o recuo foi de 11% em volume e 5% em valor, atingindo 365,1 mil toneladas e US$ 3,13 bilhões.
Quando a China é retirada da conta, o cenário muda: o volume americano exportado tem leve alta de 0,3% e o valor cresce 7%. Em outras palavras, o problema dos EUA está concentrado no cliente chinês, não no resto do mundo. Para Dan Halstrom, presidente da USMEF, a demanda global segue resiliente, mas o enfraquecimento de moedas asiáticas, a energia cara e a oferta mais restrita seguem pressionando o desempenho.
A brecha para o Brasil está em mercados como Vietnã, Indonésia, Taiwan, Caribe e México. Os embarques americanos para a ASEAN, por exemplo, cresceram 48% em abril, impulsionados justamente pela Indonésia e pelo Vietnã. A disputa por esses mesmos destinos é direta, e o pecuarista brasileiro precisa estar atento: cada nova habilitação, cada novo mercado, é uma fatia do bolo internacional que muda de mão.
UE, China e a conta de chegada
Se por um lado o mapa de destinos se amplia, por outro os gargalos permanecem. A União Europeia descartou prazo para reabrir o mercado europeu à carne bovina do Brasil, as negociações técnicas seguem sem calendário definido. A China, por sua vez, segue comprando em volumes elevados, porém com critérios mais rígidos de rastreabilidade e habilitação. A diferença entre um embarque autorizado e um embarque barrado está em detalhes que começam no curral e terminam no contêiner.
Para o pecuarista, o recado é o mesmo de sempre: a janela está aberta, mas quem entra primeiro e com a melhor condição sanitária leva vantagem. O mercado internacional paga melhor, porém exige mais, mais cadastro, mais auditoria, mais capricho na ponta da cadeia. No fim das contas, é no caixa do produtor que a notícia ganha peso.
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Jornalista e fundador do Agronews, referência em informações sobre o agronegócio brasileiro. Com mais de 15 anos de experiência no setor, acompanha de perto as principais commodities, políticas agrícolas e tendências do mercado rural.