Chegou o momento mais aguardado da semana pelas mesas de operação de todo o mundo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) acaba de divulgar seu boletim mensal de oferta e demanda, trazendo os números atualizados que ditarão a bússola das cotações nas próximas semanas.
De forma geral, o reporte desenhou um quadro de tranquilidade e oferta confortável para o complexo soja, enquanto acendeu o sinal de atenção para o milho, onde a demanda forte e a contração nos estoques norte-americanos puxaram os preços para cima.
Abaixo, trazemos o detalhamento técnico e a leitura estratégica desse relatório direto da nossa redação em Cuiabá.
Complexo Soja: Oferta confortável e esmagamento em ritmo acelerado
O relatório do USDA trouxe ajustes finos para a oleaginosa norte-americana. A produção de soja nos EUA foi revisada para cima, atingindo 4.519 milhões de toneladas, o que representa um acréscimo de 44 mil toneladas frente ao relatório do mês anterior.
O grande destaque positivo pelo lado da demanda ficou por conta da indústria de transformação: o grão moído (esmagamento) avançou 30 mil toneladas, alcançando 2.780 milhões de toneladas. Esse movimento sinaliza que o consumo interno e externo por farelo e óleo de soja segue extremamente aquecido.
Com a produção compensando o esmagamento maior, os estoques finais subiram levemente para 320 milhões de toneladas (+10 mil toneladas), indicando um cenário de oferta absolutamente confortável no Hemisfério Norte. Diante desse equilíbrio entre oferta e demanda, a projeção de preço médio ao produtor norte-americano permaneceu ancorada em US$ 11,40 por bushel, sem indicar pressões inflacionárias ou altistas relevantes para os contratos futuros no curto prazo.
Milho: Exportações em disparada e estoques em queda pressionam cotações
Se na soja o relatório trouxe um tom de calmaria, no milho o viés foi claramente mais ajustado. A produção norte-americana de milho foi estimada em 16.013 milhões de toneladas (+13 mil toneladas), um ajuste sutil de oferta.
Contudo, foi no vetor da demanda que o relatório surpreendeu as mesas de negociação. As exportações americanas do cereal deram um salto expressivo para 3.275 milhões de toneladas (+75 mil toneladas), revelando um apetite comprador internacional muito mais robusto do que o mercado antecipava.
Como resultado desse ritmo forte de embarques somado ao consumo doméstico, os estoques finais de milho nos EUA sofreram uma contração relevante para 1.653 milhões de toneladas (-137 mil toneladas). Diante dessa dinâmica de oferta mais apertada, a projeção de preço médio do milho subiu para US$ 4,50 por bushel (alta de US$ 0,10), criando um importante suporte de alta para o cereal na Bolsa de Chicago (CBOT).
Derivados de Soja: Força nas exportações de farelo e firmeza no óleo
O raio-x dos subprodutos confirma o momento aquecido do setor de processamento nos Estados Unidos:
Farelo de Soja: Acompanhando o aumento da moagem, a produção expandiu para 65.800 mil toneladas (+815 mil toneladas). O grande motor de absorção dessa oferta veio do mercado externo: as exportações cresceram para 22.700 mil toneladas (+700 mil toneladas), impulsionadas pela demanda firme das indústrias aquícola e pecuária global. Os estoques finais mantiveram-se equilibrados em 450 mil toneladas, com a cotação de preço estabilizada em US$ 310 por tonelada, refletindo uma oferta bem ajustada ao consumo.
Óleo de Soja: A produção foi ampliada para 32.945 mil toneladas (+355 mil toneladas), resultado direto da maior moagem do grão. O uso industrial para a fabricação de biodiesel permaneceu estável e sem variações, cravado em 17.800 mil toneladas. As exportações mantiveram o patamar de 400 mil toneladas, com estoques sustentados em 1.877 milhões e preço seguro cotado na casa de 70 centavos de dólar por libra-peso.
América do Sul: O espaço do Brasil no tabuleiro global
Para o agronegócio brasileiro, os dados do USDA chancelam a manutenção da nossa posição de liderança e competitividade nas exportações globais.
Com a produção norte-americana estabilizada e seus estoques rodando em níveis adequados, a soja brasileira continua encontrando um caminho muito promissor no mercado internacional. O espaço de crescimento para o nosso grão ganha força em nichos e destinos onde os prêmios logísticos e os diferenciais de qualidade podem ser exercidos com margem, com destaque para os embarques de soja transgênica e o atendimento a segmentos de produtos diferenciados.
Resumo Executivo para o seu radar hoje:
Soja EUA: Produção ajustada para 4.519 mi t, moagem firme em 2.780 mi t e estoques confortáveis em 320 mi t; preço projetado estável a US$ 11,40/bushel.
Milho EUA: Exportações saltam para 3.275 mi t e puxam queda nos estoques finais (-137 mil t para 1.653 mi t); preço médio sobe US$ 0,10, cotado a US$ 4,50/bushel.
Farelo de Soja: Produção e exportações em alta (embarques atingem 22.700 mi t), com preços equilibrados em US$ 310/t.
Óleo de Soja: Produção maior pela moagem do grão, consumo de biodiesel estável e preço seguro em 70 cents/lb.
Posição do Brasil: País segue altamente competitivo, capturando valor em mercados que pagam por prêmios logísticos e diferenciais de qualidade.
Relatório digerido e cenário desenhado. Os números do milho trazem sustentação para os preços no disponível e na B3, enquanto a estabilidade da soja exige foco na gestão de prêmios e do câmbio. Seguimos acompanhando a reatividade dos mercados na segunda metade do pregão de hoje no Agronews.
Por Luiz Cunha – Consultor de mercado físico de grãos e fertilizantes
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.