Encerramos o mês de setembro com as bolsas de commodities agrícolas buscando uma recuperação técnica e tentando apagar as perdas acumuladas no início da semana. Na Bolsa de Chicago (CBOT), a soja e o milho amanhecem no campo positivo nesta quarta-feira, com a oleaginosa disponível reconquistando a importante barreira psicológica dos US$ 13,00 por bushel e a safra 2027 voltando a testar resistências.
No front geopolítico, o barril de petróleo tipo Brent reage e volta a subir para a faixa dos US$ 97,60, embora os exportadores sauditas continuem encontrando manobras logísticas para garantir o escoamento global. No solo brasileiro, o comportamento do clima assume o protagonismo absoluto: a influência do El Niño obriga o produtor de Mato Grosso a tirar o pé do acelerador e aguardar a regularização das chuvas, enquanto o Sul enfrenta a ameaça de encharcamento.
Abaixo, detalho os fundamentos que comandam a abertura dos negócios nesta manhã direto da nossa redação em Cuiabá.
Complexo Soja: Reação técnica em Chicago e colheita nos EUA na média histórica
Na Bolsa de Chicago (CBOT), o pregão abre com viés de recuperação para a oleaginosa. O movimento devolve parte expressiva das perdas observadas na última segunda-feira, quando o mercado havia despencado com a ausência do grão nos acordos comerciais entre Estados Unidos e China.
Mesmo sem fatos novos de grande impacto e em compasso de espera por dados adicionais do USDA, as cotações recuperam patamares estratégicos:
Soja Disponível: Volta a operar firmemente acima da barreira de US$ 13,00 por bushel.
Soja Março/27 (safra brasileira): Trabalha em recuperação e volta a buscar os US$ 13,30 por bushel, orbitando ainda ligeiramente abaixo dessa marca.
No campo norte-americano, os trabalhos de colheita mantêm um ritmo constante e regular, rigorosamente alinhado com a média histórica dos últimos cinco anos, o que neutraliza pressões adicionais de oferta imediata nas telas futuras.
Milho e Trigo: Cereal acompanha a oleaginosa e recupera terreno
O milho segue a toada positiva da soja nesta abertura na CBOT. O cereal avança em compasso de ajuste técnico, recuperando o terreno perdido nos primeiros pregões da semana.
Assim como na soja, os operadores de milho operam sem novidades estruturais, calibrando suas posições de acordo com a colheita no Corn Belt, que também transcorre dentro da média dos últimos cinco anos, e aguardando as novas projeções de demanda e estoques que serão desenhadas pelas consultorias e pelo governo americano nas próximas semanas.
América do Sul: O contraste do El Niño dita o compasso das plantadeiras
No Brasil, o avanço da safra 2026/27 passa a ser diretamente condicionado pelos efeitos clássicos do fenômeno climático:
Mato Grosso: O ritmo das plantadeiras desacelerou de forma perceptível. Diante da irregularidade na umidade do solo, a maioria dos produtores de sequeiro optou por interromper ou cadenciar as operações, aguardando precipitações mais consistentes e generalizadas para evitar perdas com replantio.
Rio Grande do Sul: O cenário é o oposto e igualmente desafiador. O excesso de umidade e os temporais frequentes saturam os solos, deixando os agricultores gaúchos em estado de alerta e impedindo o avanço regular da semeadura.
Esse padrão assimétrico de precipitação mantém o mercado em atenção contínua, uma vez que eventuais atrasos mais expressivos no Centro-Oeste podem estrangular a janela ideal do milho e do algodão segunda safra no início de 2027.
O front macro: Brent avança a US$ 97,60 e Arábia Saudita dribla bloqueios
No mercado internacional de energia, o petróleo volta a ganhar fôlego comprador após a correção dos últimos dias. O contrato para Dezembro/26 do barril de petróleo tipo Brent registra alta de 1,5%, negociado a US$ 97,60 por volta das 7h30 (horário de MT).
A pressão de fundo segue alimentada pela ausência de canais diplomáticos eficazes nas guerras entre Rússia e Ucrânia e nos atritos entre Washington e Teerã. Contudo, o impacto da crise sobre o abastecimento imediato segue atenuado pela eficiência logística do Golfo: apesar das tentativas contínuas de asfixiar as exportações árabes, os produtores da Arábia Saudita têm conseguido contornar as rotas marítimas conflagradas utilizando redes estratégicas de oleodutos terrestres e operações de transbordo entre navios, mantendo o fluxo do óleo para o mercado global e impedindo uma disparada descontrolada da cotação.
Mercado Financeiro: Dólar encerra estabilizado a R$ 5,217 sob empate eleitoral
No ambiente financeiro doméstico, o câmbio demonstrou equilíbrio na última sessão após a forte arrancada dos dias anteriores, fechando cotado a R$ 5,217.
As forças que mantêm a moeda norte-americana sustentada em patamares elevados permanecem ativas: externamente, o avanço do dólar é ancorado na aversão ao risco gerada pelos conflitos no Oriente Médio e pela resiliência da inflação americana, que sugere juros altos por mais tempo nos Estados Unidos.
No cenário doméstico, o fator determinante segue sendo o termômetro político: as pesquisas eleitorais mais recentes confirmam um cenário de empate técnico na disputa de segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, mantendo as mesas financeiras em postura cautelosa e segurando a paridade cambial em patamar favorável às receitas de exportação.
Resumo Executivo para o seu radar hoje:
Recuperação em Chicago: Soja e milho amanhecem no azul na CBOT, recompondo as perdas registradas na segunda-feira.
Suportes em Teste: Soja disponível trabalha novamente acima de US$ 13,00 e o contrato Março/27 volta a mirar os US$ 13,30 por bushel.
Colheita nos EUA Equilibrada: Trabalhos de colheita de soja e milho no cinturão norte-americano seguem o ritmo histórico dos últimos 5 anos.
Freio no Campo Brasileiro: Produtores em Mato Grosso suspendem o ritmo do plantio à espera de chuvas; no Rio Grande do Sul, o excesso de água impõe alerta máximo.
Petróleo a US$ 97,60: Brent avança 1,5% (contrato Dez/26), enquanto a Arábia Saudita ameniza os riscos de oferta redirecionando volumes por oleodutos e transbordos.
Câmbio Firme a R$ 5,217: Dólar consolida estabilidade frente ao real, sustentado pelo risco geopolítico externo e pelo empate técnico nas pesquisas presidenciais brasileiras.
O encerramento de setembro traz um alívio pontual nas telas de Chicago e mantém o câmbio em nível altamente favorável para a remuneração da saca em reais no balcão de Mato Grosso. No entanto, a desaceleração forçada das plantadeiras devido à escassez momentânea de umidade sob o efeito do El Niño exige paciência e rigor técnico: a prioridade da semana é preservar a qualidade da semente no solo, calibrar a logística da fazenda e acompanhar a confirmação das previsões de chuva antes de acelerar novamente as máquinas. Um excelente dia de negócios e um ótimo fechamento de mês a todos!
Por Luiz Cunha – Consultor de mercado físico de grãos e fertilizantes
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.