Abrimos a última semana de setembro com o mercado internacional de commodities agrícolas absorvendo uma dura ressaca diplomática. A Bolsa de Chicago (CBOT) amanhece operando em forte queda nesta segunda-feira, tanto na soja quanto no milho, frustrando os operadores que contavam com avanços tributários após a cúpula bilateral entre Estados Unidos e China. O fato de a oleaginosa ter ficado de fora das reduções tarifárias acordadas desmontou o prêmio especulativo construído nos últimos pregões.
Na contramão do recuo dos grãos, a matriz de custos volta a ser pressionada: o petróleo tipo Brent salta quase 3,5% e reconquista os US$ 100 com o impasse bélico no Oriente Médio, enquanto o dólar abre a semana ancorado acima dos R$ 5,18. No solo brasileiro, o avanço do plantio da safra 2026/27 expõe o contraste clássico do El Niño, exigindo atenção dobrada dos produtores de Mato Grosso.
Abaixo, os fundamentos que balizam os negócios nesta manhã direto da nossa redação em Cuiabá.
O front macro: Brent de dezembro sobe 3,43% e recoloca o barril acima dos US$ 100
No mercado de energia, a semana começa sob forte tração altista. O contrato para dezembro do barril de petróleo tipo Brent registra expressiva alta de 3,43%, cotado a US$ 100,79 (posição das 8h, horário de MT).
O gatilho para essa arrancada é a persistente deterioração do quadro no Oriente Médio. Sem qualquer avanço prático em direção a uma saída diplomática para os confrontos na região e com as tensões no Estreito de Ormuz sem desfecho, o mercado financeiro volta a precificar o risco real de desabastecimento de óleo bruto. A volta do petróleo ao patamar de três dígitos reacende a pressão sobre o frete marítimo, o óleo diesel e os insumos industriais, mantendo elevados os custos operacionais do agronegócio global.
Complexo Soja: Frustração com acordo EUA–China derruba Chicago
Na Bolsa de Chicago (CBOT), a oleaginosa despenca nesta abertura de segunda-feira. O estopim para a onda vendedora foi o detalhamento do desfecho do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, realizado na semana passada: o acordo final deixou a soja completamente de fora das negociações tarifárias.
A notícia caiu como um balde de água fria sobre as mesas de negociação. Havia uma forte expectativa de que as duas superpotências avançassem na redução de taxas sobre a soja americana, o que daria sustentação à demanda por exportações dos EUA. Sem esse estímulo tributário e sem alívio tarifário imediato, os fundos de investimento liquidaram posições compradas em ritmo acelerado.
Paralelamente, a colheita norte-americana continua ganhando terreno. Os analistas aguardam a atualização dos números oficiais do USDA nesta tarde. De acordo com analistas de mercado, o ritmo de trabalho das colheitadeiras segue acelerado na porção central e leste do cinturão produtor, enquanto alguns estados do oeste ainda avançam de maneira mais cadenciada. Para o balcão brasileiro, o mercado fica em compasso de espera pela divulgação das novas tabelas de prêmios de exportação nos portos nesta semana.
Milho e Trigo: Cereal americano cede mesmo com alívio tributário
O milho acompanha a toada negativa da soja e também opera em firme terreno baixista na CBOT. Ao contrário da oleaginosa, o milho até obteve uma leve redução de impostos dentro do entendimento bilateral entre Washington e Pequim, mas a medida não foi suficiente para empolgar os compradores.
A realidade estrutural do mercado dita o tom: o milho norte-americano conta com uma fatia expressiva absorvida pelo mercado interno dos EUA e enfrenta forte concorrência global. Para os importadores chineses, as origens da América do Sul continuam muito mais competitivas, já que o milho brasileiro e o argentino chegam mais baratos à China do que o produto dos Estados Unidos. Esse descompasso de preços retira a atratividade do cereal na CBOT e aprofunda as perdas na sessão.
América do Sul: O contraste climático do El Niño e a corrida dos algodoeiros em MT
No Brasil, as atenções do agronegócio voltam-se para a evolução do plantio da safra 2026/27. O padrão climático imposto pelo El Niño consolidou um cenário de extremos geográficos que preocupa o setor produtivo:
Região Sul: O Rio Grande do Sul enfrenta chuvas volumosas e excessivas, que encharcam o solo, paralisam as máquinas e dificultam a semeadura dentro da janela ideal.
Região Norte/Centro-Norte: O atraso e a escassez de precipitações acendem o sinal de alerta sobre a disponibilidade hídrica no perfil do solo.
Em Mato Grosso, o ritmo dos trabalhos no campo reflete estratégias distintas. Os produtores de algodão seguem semeando a soja com agressividade, assumindo o risco operacional e torcendo pela regularização imediata das chuvas para não comprometer a janela da segunda safra da pluma. Por outro lado, a maioria dos sojicultores tradicionais adota postura de extrema cautela, aguardando índices de umidade mais seguros antes de liberar as plantadeiras no sequeiro. A formação de preços no interior dependerá do ajuste dos prêmios portuários que sairá ao longo dos próximos dias.
Mercado Financeiro: Dólar fechou acima de R$ 5,18 sob pressão externa e empate eleitoral
No ambiente financeiro, o câmbio encerrou a semana passada em forte alta, consolidando cotações acima da barreira de R$ 5,18. O real acompanhou a trajetória global de valorização da divisa norte-americana frente à cesta de moedas internacionais.
Dois grandes motores externos explicam essa pressão cambial:
Macroeconomia dos EUA: A persistência da inflação norte-americana mantém o Federal Reserve em postura contracionista, sustentando a atratividade dos títulos do Tesouro dos EUA.
Risco Geopolítico: As incertezas em torno da navegação no Estreito de Ormuz alimentam a busca por proteção em ativos denominados em dólares.
No front doméstico, a volatilidade é amplificada pelo quadro político. A corrida presidencial no Brasil apresenta um cenário consolidado de empate técnico entre Flávio Bolsonaro e Lula nas pesquisas mais recentes, deixando os agentes financeiros em estado de cautela e dificultando um alívio mais expressivo nas cotações da moeda.
Resumo Executivo para o seu radar hoje:
CBOT em Queda Livre: Soja e milho amanhecem no vermelho após o acordo comercial EUA–China deixar a soja de fora, frustrando expectativas de alívio fiscal para a oleaginosa americana.
Milho sem Fôlego: Cereal recua na CBOT mesmo com leve redução tributária; produto do Brasil e da Argentina segue mais barato e competitivo para o mercado chinês.
Avanço nos EUA: Colheita norte-americana avança com disparidades regionais; mercado aguarda atualização do USDA e definição dos prêmios nos portos.
Desafio do El Niño: Chuvas excessivas castigam o Rio Grande do Sul enquanto o norte enfrenta estiagem; em MT, algodoeiros aceleram o plantio torcendo por chuvas, enquanto sojicultores mantêm cautela.
Petróleo Acima dos US$ 100: Brent salta 3,43% para US$ 100,79 (dezembro) com o temor de desabastecimento diante do impasse no Oriente Médio.
Câmbio Sustentado a R$ 5,18: Dólar inicia a semana fortalecido pela inflação nos EUA, tensões em Ormuz e a indefinição do empate técnico na disputa presidencial brasileira.
A abertura desta semana deixa uma mensagem clara de gestão de risco: com Chicago devolvendo prêmios após a decepção com o acordo em Washington, o produtor de Mato Grosso tem no dólar acima de R$ 5,18 a principal ferramenta de proteção para as margens da soja em reais. Com o petróleo voltando aos três dígitos e encarecendo o frete, a prioridade máxima das fazendas nesta reta final de setembro deve ser a execução agronômica precisa das janelas de plantio e a disciplina no travamento de custos. Um excelente início de semana e ótimos negócios a todos!
Por Luiz Cunha – Consultor de mercado físico de grãos e fertilizantes
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.