De gigante agrícola a destino nacional, como o Espírito Santo redesenha o turismo de experiência no Brasil.
Historicamente reconhecido como uma potência do agronegócio, o Espírito Santo iniciou um movimento estruturado e milionário para transformar suas raízes rurais em um dos principais produtos turísticos do Brasil. Durante a RuralturES 2025, que reuniu jornalistas de todo o país entre os dias 12 e 15 de agosto, lideranças do Sebrae/ES e do Conselho Estadual de Turismo (Contur) apresentaram os bastidores de uma revolução econômica e cultural: a consolidação do turismo de experiência capixaba. E nós do Agronews, estivemos presentes e vamos compartilhar com você um pouquinho dessa imersão.
Com pouco mais de 46.000 km² e cerca de 4 milhões de habitantes, o estado concentra superlativos expressivos. Atualmente, o Espírito Santo é o maior produtor nacional de café conilon, mamão, pimenta-do-reino, gengibre, chuchu e granito. A nova aposta governamental e institucional é fazer com que essa vocação produtiva atraia não apenas investidores, mas milhares de visitantes interessados em vivenciar o campo.
O desafio é romper a bolha regional
Até recentemente, o turismo de lazer focado em visitantes de fora do Espírito Santo representava uma parcela tímida do fluxo, variando entre 3% e 6%. Para alterar esse cenário e posicionar o estado na vitrine nacional, uma aliança foi firmada entre o Sebrae/ES, a Secretaria de Turismo (SETUR) e o Contur.
A estratégia para nacionalizar o destino envolveu a assinatura recente de contratos comerciais de cooperação com gigantes do setor, como a CVC, Decolar e Azul Viagens. O objetivo é garantir que o estado seja ativamente ofertado por agências e operadoras em todo o país.
Os aportes financeiros acompanham a ambição do projeto. Apenas em 2024, o Sebrae/ES investiu cerca de R$ 20 milhões no turismo local. Para este ano, a previsão é injetar mais R$ 35 milhões, com a meta de alcançar R$ 85 milhões em um ciclo de três anos focado na estruturação do setor.
Pedro Rigo, superintendente do Sebrae/ES – Casa Nostra Distrito de Pindobas/ES
“O nosso propósito do Sebrae Espírito Santo é de fato a gente ser efetivo na transformação de territórios […] e nós escolhemos a vertente de turismo como a economia principal de transformação“, afirma Pedro Rigo, superintendente do Sebrae/ES.
A quebra de paradigmas no campo
A transformação estrutural exigiu, primeiramente, uma mudança cultural entre os produtores rurais. Valdeir Nunes “China”, empresário do ramo hoteileiro e presidente do Contur, relata que, há 15 anos, as campanhas para atrair visitantes enfrentavam resistência. “Alguns deles ligaram […] ‘Não manda mais ninguém para cá não, porque esse pessoal tá atrapalhando nós trabalharmos‘”, relembra Nunes.
Valdeir Nunes “China”, empresário do ramo hoteileiro e presidente do Contur
Hoje, a realidade nas montanhas capixabas é oposta. O agroturismo tornou-se uma ferramenta crucial para o faturamento e para a sucessão familiar nas fazendas. Na Fazenda Carnielli, pioneira na região, jovens que antes deixavam o campo para estudar na cidade começaram a retornar. Lorenzo, um dos filhos da família, voltou especificamente para gerenciar o turismo da propriedade. O impacto financeiro dessa integração é tangível: o formato de experiência imersiva gerou um aumento de 30% nas vendas diretas na loja da fazenda.
Esse fenômeno de expansão não se restringe às montanhas. Em Jaguaré, município no norte do estado forte na produção de café conilon, o número de propriedades rurais de portas abertas para o turismo saltou de duas para 42 em poucos anos.
Das Montanhas Capixabas às praias exuberantes
Nossa jornada imersiva começou contemplando a icônica Pedra Azul na Rota do Lagarto, o cenário perfeito para as boas-vindas oficiais no Polo Sebrae de Turismo de Experiência. Já no início dessa Presstrip pudemos observar como os roteiros foram cuidadosamente desenhados para conectar a produção artesanal à calorosa receptividade capixaba.
Logo no primeiro dia, a visita à Cervejaria Altezza brindou o grupo com degustações de rótulos locais e uma rica conversa sobre o impacto dos visitantes na produção de bebidas.
Essa imersão sensorial continuou a guiar os passos dos jornalistas pelas montanhas, revelando seus aromas através das visitas à Fazenda Camocim, lar do exótico Café do Jacu (clique aqui para ler a matéria completa), e ao Café Zandonade, onde os grãos especiais traduziram a força da inovação familiar.
O coração do agroturismo pulsou ainda mais forte nas vivências práticas que colocaram todos em contato direto com a terra, o suor e as tradições de quem faz o estado acontecer. Na Valentim Iogurteria Artesanal, a roda de conversa foi acompanhada do sabor inconfundível de produtos premiados nacionalmente. Em 2024, ela foi eleita a melhor do Brasil no 47º Concurso Nacional de Produtos Lácteos, o mais respeitado do país.
Outra parada sensacional foi nos Morangos Kuster, que nos ofereceu a divertida e tradicional experiência de “colhe e pague” diretamente das lavouras.
Empório do Morango Forno Grande – Família Koster
A emblemática Fazenda Carnielli foi outro marco fundamental do roteiro, permitindo aos visitantes acompanhar de perto a produção artesanal do socol, um presunto cru típico da região, e compreender na prática como a agricultura familiar capixaba transformou suas raízes imigrantes em um modelo de negócio turístico estruturado e acolhedor.
Lorenzo Carnielli – CEO Fazenda Carnielli
A passagem pela Quinta dos Manacás apresentou o revolucionário projeto de cultivo das Uvas de Inverno, evidenciando o esforço conjunto de agricultores e enólogos para contornar os desafios climáticos e viabilizar a produção de vinhos finos de alta qualidade no estado.
Ciência e inovação, um projeto das uvas de inverno
Para além da tradição da imigração italiana e do famoso agroturismo, o Espírito Santo aposta fortemente na inovação agronômica para criar novos atrativos. O maior exemplo atual é o projeto das “Uvas de Inverno“, desenvolvido para viabilizar a produção de vinhos finos de alta qualidade no estado.
Quinta dos Manacás Pousada e Restaurante
Há cerca de 35 anos, o estado tentou produzir vinhos a partir de uvas de mesa cultivadas no verão, época de fortes chuvas, resultando em frustração técnica e comercial. Para superar esse gargalo climático, o Sebrae/ES, em parceria com o Incaper, Embrapa e Epamig, implementou a técnica de dupla poda.
Com esse novo manejo, a colheita, que ocorreria entre dezembro e janeiro, foi transferida para os meses de julho e agosto, período de seca e frio ideal para a maturação dos frutos.
Gustavo Vervloet – Ceo Quinta dos Manacás Pousada e Restaurante
Raio-X do Projeto de Uvas de Inverno:
Adesão atual: Quatro propriedades produtoras já realizam o cultivo experimental.
Área plantada: Aproximadamente 10 hectares na região das montanhas.
Desafio agronômico: Aumentar a produtividade atual, que é de 2 kg por pé, para ganhar competitividade de mercado.
Perspectiva: O Sebrae atua na modelagem de negócios não apenas para o plantio, mas para a estruturação de novas cantinas, visando conectar as vinícolas diretamente ao roteiro turístico.
O roteiro das visitas revelou que a preservação histórica avança de mãos dadas com a vanguarda e a ousadia tecnológica. Toda essa rica tapeçaria de saberes e sabores culminou de forma espetacular na Experiência Tropeira, o evento central desta edição da RuralturES, que transformou o ambiente em um grande palco de painéis sobre sustentabilidade, troca de conhecimentos e uma verdadeira celebração da autêntica gastronomia e agroindústria locais.
A grande vitrine do agroturismo brasileiro
Sem dúvida alguma, a RuralturES 2025 consolida-se com orgulho como a maior feira de turismo rural do Brasil, atuando como a vitrine definitiva onde o campo, a tradição e o futuro se encontram. O evento traduz a essência do estado ao reunir toda a diversidade do agronegócio conectado à receptividade capixaba, apresentando atrações e expositores que representam de norte a sul do Espírito Santo.
No centro pulsante dessa engrenagem está a Casa Nostra, que sedia o Polo Nacional de Turismo de Experiência do Sebrae em Venda Nova do Imigrante. O local carrega um simbolismo de transformação profundo: trata-se de uma antiga e tradicional fazenda, que no passado abrigou uma grande agroindústria de queijos da família de Camilo Cola, de acesso restrito. Com a chegada do Sebrae, essas portas foram escancaradas. A Casa Nostra deixou de ser apenas uma propriedade privada para se tornar um espaço de convivência da comunidade local e o epicentro das inovações turísticas do estado.
É justamente nesse ambiente de resgate histórico e acolhimento que a feira ganha vida. Mais do que uma simples exposição, a RuralturES é palco de marcos fundamentais para o setor.
A estrutura da feira proporciona momentos memoráveis aos visitantes e à comunidade:
Inovação no Campo: É o palco escolhido para o lançamento oficial do projeto das uvas de inverno, uma aposta científica e governamental para a produção de vinhos finos de excelência no estado.
A Experiência Tropeira: Consagrada como o evento principal da programação, traz a chegada emocionante dos tropeiros e transforma o espaço em um grande centro de debates e cultura.
Imersão Total: Cercado pela aura de pertencimento da Casa Nostra, o público participa de painéis temáticos sobre sustentabilidade e inovação, além de mergulhar em experiências interativas que celebram a autêntica gastronomia, o artesanato e a potência da agroindústria local.
Renata Vescovi, Gestora do Polo de Referência e Disseminação Sebrae de Turismo de Experiência
Quem dá vida e direcionamento a esse grandioso projeto é Renata Vescovi, gestora nacional que carrega quase três décadas de dedicação ao turismo. Ao nos receber no espaço, Renata sintetizou a essência do que significa estruturar o agroturismo e o impacto profundo que o trabalho da imprensa tem na ponta da linha para os produtores. “Por trás disso que vocês fazem e nos ajudam a divulgar, a falar e a trazer pessoas para cá, vocês estão permitindo pessoas permanecerem no interior“, destacou ela com emoção, frisando que essa visibilidade é a chave para “gerar emprego e renda“ no campo. É com essa visão humanizada que o polo funciona, não apenas como um escritório, mas como um ponto de encontro onde, como a própria Renata concluiu: “Estejam todos então prontos para a gente viver muitas conexões. Elas começam agora.“
O impacto socioeconômico do turismo
A consolidação do Espírito Santo como destino turístico vai além dos lucros das agências. Durante o evento, Débora Pedrosa, assessora de comunicação do Sebrae, pontuou a disparidade entre o tamanho geográfico do estado e sua capacidade de oferta: “O Espírito Santo, ele é um estado territorialmente pequeno, mas ele é gigante quando a gente mostra […] tudo isso que vocês vivenciaram aqui, é o que nós temos.”.
Mais do que movimentar a economia, a engrenagem do turismo rural garante a fixação do homem no campo. Como ressaltado pela equipe de gestão de turismo do Sebrae durante o evento, a visibilidade midiática e o aumento do fluxo de visitantes “permitem pessoas permanecerem no interior […] gerando emprego e renda“.
Com a infraestrutura em expansão e o lema estadual “Espírito Santo, viva em todos os sentidos“, o estado deixa a posição de rota de passagem e entra oficialmente na disputa pela atenção do turista brasileiro, provando que sua vocação de acolhimento é tão forte quanto a sua produtividade agrícola.
Eu quero voltar lá em breve!
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador15+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, referência em informações sobre o agronegócio brasileiro. Com mais de 15 anos de experiência no setor, acompanha de perto as principais commodities, políticas agrícolas e tendências do mercado rural.