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Safra recorde de trigo argentino pressiona preços no Brasil

Redação
02/12/2025 às 09:40
Safra recorde de trigo argentino pressiona preços no Brasil

A safra argentina de trigo promete números recordes e já mexe com o mercado brasileiro, confira!

Os produtores e agentes do agronegócio brasileiro estão com os olhos voltados para o país vizinho, e o motivo é claro: o andamento da colheita de trigo na Argentina tem um impacto direto e significativo nos nossos preços. Sendo o nosso maior fornecedor, qualquer grande movimento no campo argentino ecoa fortemente por aqui.

As últimas notícias indicam uma produção histórica se consolidando, o que, somado a fatores cambiais, já começou a redesenhar o cenário de preços para os triticultores no Sul do Brasil. Entender essa dinâmica é fundamental para planejar os próximos passos, seja na comercialização da safra atual ou no preparo para o próximo ciclo produtivo, afetando desde a fazenda até a mesa do consumidor.

Um recorde histórico na safra argentina de trigo

As projeções para a safra argentina não param de surpreender. Dados recentes da Bolsa de Cereales, indicam uma revisão para cima na produção, que agora é estimada em 25,5 milhões de toneladas. Esse volume não apenas supera a estimativa anterior em 1,5 milhão de toneladas, mas também estabelece um novo recorde histórico, ultrapassando a marca de 22,4 milhões de toneladas da temporada 2021/22. Com mais de um terço da área já colhida, a consolidação desses números parece cada vez mais provável.

Para o Brasil, que depende das importações argentinas para complementar sua oferta interna e atender à demanda da indústria, esse volume monumental significa uma maior disponibilidade do produto no Mercosul. A consequência direta é um aumento da pressão sobre os preços internos. A lógica do mercado é simples: com mais oferta disponível a um custo de frete competitivo, os compradores brasileiros têm mais poder de barganha, forçando os preços internos a se ajustarem para baixo para competir com o produto importado. Este cenário da safra argentina cria um ambiente desafiador para a rentabilidade do produtor nacional.

Como a queda do dólar intensifica o cenário

Como se a notícia de uma supersafra no país vizinho não fosse suficiente, outro fator crucial entrou na equação para pressionar ainda mais os preços do trigo no Brasil: a desvalorização do dólar frente ao Real. Quando a moeda americana perde força, o custo de importação de qualquer produto dolarizado diminui. No caso do trigo, isso significa que os moinhos brasileiros conseguem comprar o cereal argentino por um preço em reais ainda mais atraente. Essa combinação é poderosa e acelera a tendência de queda.

O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) destaca justamente essa dupla influência. A pressão baixista não vem apenas do excesso de oferta gerado pela robusta safra argentina, mas é significativamente amplificada pelo cenário cambial favorável às importações. Esse movimento duplo explica a intensidade das quedas de preço observadas recentemente, tornando o planejamento financeiro e a estratégia de vendas ainda mais complexos para os agricultores brasileiros, que precisam lidar com custos de produção em reais e um preço de venda influenciado por fatores internacionais.

O impacto no bolso do produtor gaúcho e paranaense

Os efeitos dessa conjuntura de mercado já são sentidos diretamente no campo, especialmente nos principais estados produtores de trigo do Brasil, o Rio Grande do Sul e o Paraná. Os preços em novembro refletiram claramente esse cenário de pressão. Os valores caíram para os menores patamares em meses, e em alguns casos, em anos. Essa queda afeta diretamente a rentabilidade do triticultor, que investiu em insumos e tecnologia ao longo do ciclo.

De acordo com pesquisadores do Cepea, além do cenário de safra volumosa na Argentina, a desvalorização do dólar frente ao Real reforçou o movimento de queda nos preços do trigo no mercado brasileiro. Em novembro, a média mensal no Rio Grande do Sul foi de R$ 1.044,82/t, recuo de 8,2% frente a outubro/25. No Paraná, a média foi de R$ 1.196,69/t em novembro, com baixa mensal de 1,6%.

Diante dessa realidade, o produtor se vê diante de decisões estratégicas importantes. As opções na mesa variam conforme a estrutura e a capacidade financeira de cada um, mas geralmente envolvem:

  • Vender a produção imediatamente para garantir fluxo de caixa, mesmo com margens apertadas;
  • Armazenar parte ou toda a safra na esperança de uma recuperação dos preços nos próximos meses;
  • Acelerar a negociação de insumos para a próxima safra, aproveitando o dólar mais baixo;
  • Reavaliar o mix de culturas para o próximo ano, considerando a rentabilidade do trigo.

Fatores que vão além da safra argentina

Embora a safra argentina seja o grande protagonista do momento, é importante lembrar que o mercado de trigo é complexo e influenciado por uma série de outras variáveis. O Brasil tem investido para aumentar sua própria produção e caminha para a autossuficiência, com safras nacionais também volumosas, o que adiciona mais um elemento de oferta interna ao cenário. A qualidade do trigo nacional, as condições climáticas durante a colheita no Sul e a logística de escoamento são fatores que também pesam na formação de preços regionais.

Além das fronteiras do Mercosul, o mercado global de commodities agrícolas desempenha seu papel. Eventos geopolíticos no Mar Negro, as safras nos Estados Unidos e na União Europeia e a demanda de grandes compradores globais, como China e países do Oriente Médio, criam ondas que podem, eventualmente, chegar à nossa costa. Para se manter bem informado, é fundamental acompanhar fontes de pesquisa e desenvolvimento como a Embrapa Trigo, que oferece um panorama sobre a tecnologia e o desenvolvimento da triticultura no país.

O que esperar nos moinhos e nas gôndolas

Se por um lado o cenário atual é desafiador para o produtor, por outro ele pode trazer benefícios para o restante da cadeia produtiva e para o consumidor final. Com a matéria-prima mais barata, os moinhos, que são os grandes compradores de trigo, conseguem reduzir seus custos de produção. Essa economia pode ser repassada para os fabricantes de pães, massas, biscoitos e outros derivados, que compram a farinha com preços mais competitivos.

Essa dinâmica pode contribuir para a estabilidade ou até mesmo uma leve redução nos preços dos alimentos nas prateleiras dos supermercados. Em um contexto de preocupação com a inflação, a queda no preço de um insumo tão básico como o trigo é uma notícia positiva para a economia de modo geral. O equilíbrio entre garantir uma remuneração justa ao agricultor e oferecer produtos acessíveis à população continua sendo o grande desafio do setor.

A conjuntura atual do mercado de trigo ilustra perfeitamente a interconexão do agronegócio no Mercosul. A performance da safra argentina, potencializada pelas flutuações do câmbio, define o ritmo dos negócios no Brasil. Para o produtor brasileiro, o momento exige cautela, análise e um bom planejamento estratégico para navegar em um mar de preços pressionados. Para a indústria e o consumidor, o horizonte parece mais favorável.

AGRONEWS é informação para quem produz

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