Apesar do aumento na oferta de leite, os preços pagos aos produtores registraram queda significativa de 21%, impactando a margem de ganho no setor, segundo dados do Cepea e OCB.
Preço do leite em queda: o aperto chega primeiro no bolso
Quem tira leite todo dia já percebeu. A conta não fecha como fechava. O caminhão passa, o tanque esvazia, mas o valor que pinga no fim do mês encolheu. E não foi pouco. Em 2025, o preço do leite pago ao produtor caiu 21%. É dinheiro que some antes mesmo de chegar na conta, enquanto ração, energia, mão de obra e manutenção seguem firmes, sem pedir licença.
Pra ter uma ideia do tamanho do tombo, em novembro o produtor recebeu em média R$ 2,1122 por litro, segundo o Cepea. Isso representa uma queda de 8,3% em relação a outubro e de 23,3% frente a novembro do ano passado. Não é ajuste fino. É freada brusca. Daquelas que fazem o produtor puxar a planilha, coçar a cabeça e pensar duas vezes antes de investir mais um real na atividade.
E o problema não para no preço do leite em si. Ele bate direto na troca do dia a dia. Em novembro, foram necessários 32 litros de leite para comprar uma saca de milho de 60 quilos. No mesmo mês de 2024, bastavam 28 litros. Parece detalhe, mas na escala de quem alimenta dezenas ou centenas de vacas, essa diferença vira um rombo considerável.
Oferta subiu, o mercado sentiu
Agora, vamos ao pano de fundo dessa história. A produção de leite no Brasil cresceu forte. De janeiro a novembro, a captação aumentou 16%. Não foi mágica. Teve clima ajudando, teve pasto respondendo bem, teve produtor que investiu em genética, manejo e nutrição lá em 2024, quando o cenário parecia mais animador. O problema é que a conta chegou junto para todo mundo.
Mais leite no mercado, com consumo andando de lado, resulta em estoque cheio. E estoque cheio pressiona preço. É a lógica mais básica do mercado, aquela que a gente aprende na prática, não em sala de aula. Quando tem leite sobrando, quem compra dita o ritmo. E o produtor fica com menos margem para negociar.
As importações até deram uma recuada. Entraram no país cerca de 2,21 bilhões de litros equivalentes, volume 6% menor que no ano anterior. Já as exportações encolheram ainda mais, somando apenas 68 milhões de litros, queda de 32%. Ou seja, o leite ficou mais dentro de casa, disputando espaço no mercado interno.
Do campo ao supermercado, a queda se espalhou
Quem acha que só o produtor está sentindo precisa dar uma volta no supermercado. Em dezembro, o leite longa vida ficou 24,4% mais barato no varejo, com preço médio de R$ 3,35 por caixinha. A muçarela caiu 15,2%. O leite em pó recuou 12,7%. Esses números mostram que a pressão não ficou só na porteira. A cadeia inteira sentiu o baque.
Mas é importante dizer uma coisa sem rodeio. Quando o preço cai no supermercado, nem sempre isso significa alívio proporcional para quem produz. A margem do produtor já vinha apertada antes dessa queda chegar ao consumidor final. E quando ela chega, muitas vezes já encontrou o produtor no limite.
Os dados de custo médio do leite, calculados a partir de sete estados, ajudam a entender a situação. São Paulo apareceu com o maior custo, R$ 2,2340 por litro. Santa Catarina, com o menor, R$ 2,0140. Compare isso com o preço recebido em novembro e fica claro que, em algumas regiões, a margem virou poeira.
Cooperativas, escala e sobrevivência
Em conversas nas cooperativas e reuniões de sindicato, o clima é de cautela. Ninguém fala em abandonar o leite do dia pra noite, mas o discurso mudou. O produtor está mais defensivo. Quem consegue diluir custo com escala ainda respira. Quem depende de estrutura menor sente primeiro.
A OCB tem alertado para a necessidade de gestão mais fina nesse momento. E gestão, aqui, não é palavrão bonito. É saber exatamente quanto custa cada litro produzido. É ajustar dieta, rever contratos, negociar insumos, planejar melhor o fluxo de caixa. Não tem espaço para chute.
Tem produtor segurando investimento. Tem produtor vendendo vaca menos produtiva. Tem produtor repensando se vale a pena aumentar o plantel agora ou esperar o mercado dar algum sinal de reação. Cada decisão dessas pesa, porque o leite não permite erro grande. A vaca não tira férias e não entende crise.
O que olhar daqui pra frente
O futuro próximo ainda inspira cuidado. Com oferta elevada e consumo interno sem grandes saltos, a recuperação do preço do leite tende a ser lenta. Não dá pra contar com virada rápida. É mais prudente trabalhar com cenário conservador, pé no chão, sem empolgação.
Por outro lado, o produtor brasileiro já mostrou mais de uma vez que sabe se ajustar. Quem usa bem os números do Cepea, acompanha mercado, conversa com técnico e não deixa a gestão de lado, sai menos machucado. Não é garantia de lucro alto, mas ajuda a atravessar a fase.
Também vale ficar de olho em oportunidades de agregação de valor, quando possível. Queijo artesanal, venda direta, contratos diferenciados. Não é solução para todo mundo, mas em algumas regiões pode fazer diferença. É como diversificar lavoura. Não resolve tudo, mas ajuda a reduzir risco.
No fim das contas, o recado é claro. O preço do leite caiu forte porque a oferta cresceu mais rápido que a capacidade do mercado absorver. O impacto bateu direto no bolso do produtor, apertou margens e exigiu ajuste fino na gestão. Não é momento de desespero, mas também não é hora de relaxar.
Quem vive do leite sabe. A atividade é maratona, não corrida de cem metros. Tem fase boa e fase ruim. Agora, a palavra da vez é cautela. Olho nos custos, pé firme no chão e café forte no fim da tarde para aguentar o tranco.
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