Por trás do grão mais famoso do país tem uma viagem longa, muita teimosia científica e um aprendizado que quase ninguém conta direito.
Se eu te falar que a soja, esse grãozinho que hoje manda e desmanda na renda de muita fazenda, já foi tratada como ração de gado sem grande importância, você acredita? Pois é. A história da soja no Brasil não é dessas que começam grandes, cheias de holofote. Ela começa miúda, quieta, quase pedindo licença. E talvez seja exatamente por isso que ela ensina tanto pra quem vive do campo.
A soja nasceu longe, lá do outro lado do mundo, na China, na região do Rio Yangtzé, há cerca de 5 mil anos. Cinco mil. Dá até um certo respeito, né. A planta atravessou continentes, passou pela Europa e só foi dar as caras por aqui no final do século XIX. No começo, nada de glamour. Era usada em pequenas propriedades, mais pra alimentar bovinos do que pra encher bolso. Quem ia imaginar onde isso ia parar?
E aí vem a pergunta que não quer calar. Se essa planta era tão antiga e tão importante lá fora, por que demorou tanto pra virar protagonista aqui? Será que a terra brasileira não queria conversa com ela ou era a gente que ainda não tinha aprendido a escutar o que o solo pedia?
Quando a ciência resolveu teimar junto com o produtor
Até a década de 1970, soja no Brasil era coisa limitada. O clima tropical não facilitava, e muita gente dizia que não tinha jeito. Só que você conhece produtor rural, né. Quando alguém fala que não dá, geralmente é aí que começa a tentativa de fazer dar.
Foi nessa época que aconteceu o tal do salto de gigante. Em 1970, o Brasil produzia 1,5 milhão de toneladas de soja. Em 1979, já eram mais de 15 milhões. Não foi milagre, não foi sorte. Foi pesquisa, foi suor e foi uma baita teimosia boa. Cientistas conseguiram adaptar a soja ao clima tropical, algo que até então parecia conversa de quem nunca pisou na lavoura.
Os pesquisadores identificaram genes que faziam a planta crescer mais devagar, mas produzir muito mais. Uma espécie de engenharia genética natural, daquelas que respeitam o ritmo da planta e o relógio da terra. Com isso, regiões quentes como Mato Grosso, Goiás e Bahia entraram de vez no mapa da soja. E aí, meu amigo, não teve mais volta.
Fica a reflexão. Quantas vezes a solução não tá em forçar a planta, mas em entender melhor o tempo dela?
De coadjuvante a campeã mundial
Hoje, falar de agricultura brasileira sem falar de soja é quase impossível. Desde 2020, o Brasil produz mais soja do que qualquer outro país do mundo. Na safra 2022/2023, foram mais de 154,6 milhões de toneladas, cultivadas em 44 milhões de hectares. Estados Unidos e Argentina ficaram pra trás.
Isso não é pouca coisa. Estamos falando da principal cultura agrícola do país, responsável por gerar R$ 368,34 bilhões anuais. Um número desses não cai do céu. Ele brota da terra, passa pela mão calejada do produtor, pelo planejamento da família, pelo risco assumido a cada safra.
E aí eu te pergunto. Quem você acha que manda mais numa fazenda de soja hoje, o mercado, o clima ou o calendário da colheita?
Transgenia, produtividade e o medo do novo
Em 1998, a soja transgênica foi aprovada no Brasil. E como toda novidade grande, veio acompanhada de desconfiança, debate e até medo. Hoje, 96% da soja plantada no país é transgênica, ocupando 34,86 milhões de hectares. Não foi imposição, foi escolha.




