A escala 6×1 tomou as ruas das cidades. Mas é no campo que seus efeitos podem ser mais profundos. Enquanto o trabalhador urbano comemorava a aprovação histórica na Câmara, o produtor rural começava a fazer as contas. Como reduzir a jornada sem comprometer a colheita, a ordenha e o trato dos animais que não conhecem feriado? A PEC 221/19 foi aprovada com 461 votos e agora segue para o Senado. Para o agro brasileiro as perguntas estão apenas começando.
A Câmara dos Deputados aprovou na noite de 27 de maio de 2026 o fim da escala 6×1 de trabalho. No segundo turno da PEC 221/19 foram 461 votos a favor e 19 contra. O texto agora segue para análise no Senado Federal. Para o agronegócio brasileiro, a mudança representa um dos maiores desafios regulatórios dos últimos anos. A produção rural não segue horário comercial. Animais precisam ser ordenhados de madrugada. A colheita obedece ao clima, não ao calendário de folgas.
O relator da proposta foi o deputado Leo Prates do Republicanos da Bahia. Os autores são Reginaldo Lopes do PT de Minas Gerais e Érika Hilton do Psol de São Paulo. A nova jornada estabelece 40 horas semanais distribuídas em cinco dias de trabalho e dois de descanso.
A transição será feita em duas etapas.
Nos primeiros dois meses após a promulgação, a jornada vai para 42 horas semanais com dois dias de descanso. Depois de 14 meses, o limite cai para 40 horas. O salário dos trabalhadores não pode ser reduzido. Esse ponto foi explicitamente garantido no texto aprovado pela Câmara.
A rotina no campo não segue horário comercial e a nova jornada de 40 horas exige reorganização das escalas de funcionários nas propriedades rurais
O campo não tira folga e os desafios da nova jornada no agronegócio
Na ponta do lápis, o produtor rural precisa reorganizar toda a escala de funcionários. Uma fazenda leiteira exige ordenhas matinal e vespertina todos os dias. Não existe feriado para o gado. A pecuária de corte, a avicultura e a suinocultura também operam em regime ininterrupto. A nova regra obriga o empregador a contratar mais mão de obra ou a adotar escalas alternativas como o regime 12×36, que segue permitido para atividades que exijam plantão contínuo.
O texto da PEC mantém exceções para situações específicas de saúde e segurança. Atividades que dependem de operação contínua poderão manter escalas diferenciadas, desde que negociadas em convenção coletiva. A verdade é que o setor agropecuário terá de se adaptar rapidamente.
A conta não é simples para quem produz alimentos todos os dias do ano.
O pequeno produtor como protagonista da mudança
Um dos pontos mais celebrados pelas pequenas propriedades é a ampliação da capacidade de contratação dos microempreendedores individuais. Nas negociações em torno do texto, a ideia é que o MEI possa contratar até dois empregados. Hoje o limite é de apenas um funcionário. A mudança pode beneficiar especialmente os pequenos produtores rurais que precisam de ajuda sazonal na colheita.
A PEC também assegura que não haverá redução salarial. O piso da categoria será mantido integralmente. Agora, existe uma exceção importante. Trabalhadores com nível superior e salário acima de R$ 21.188,87 podem ter regras diferentes. Esse valor corresponde a 2,5 vezes o teto da Previdência Social. Para esses profissionais, a jornada reduzida pode ser compensada por acordo individual.
A Federação da Agricultura do Paraná, o Sistema FAEP, já se posicionou sobre a aprovação. A entidade repudiou retaliações contra o setor produtivo e cobrou um diálogo mais amplo sobre a jornada 6×1. Em nota oficial, a federação afirmou que o campo precisa de regras factíveis, sem comprometer a produção de alimentos.
A PEC 221/19 ainda precisa passar pelo Senado Federal, onde pode sofrer alterações. O governo articula a aprovação ainda neste semestre. Para o produtor rural, o momento é de planejamento. A colheita abençoada deste ano pode vir acompanhada de novos custos trabalhistas. Resta saber se o consumidor final sentirá o impacto no preço dos alimentos.
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