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Fim da escala 6×1 avanca na Câmara e impacta diretamente o trabalhador rural

Redação
27/05/2026 às 18:16
Trabalhadores rurais no campo ao entardecer representando a jornada de trabalho no agronegocio brasileiro

A comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou por ampla maioria o texto base da PEC que extingue a escala 6×1. O agronegócio agora enfrenta a adaptação a uma jornada de 40 horas semanais com dois dias de descanso, o que exige reorganização em setores como colheita, moagem e abate. O produtor rural deve se preparar para os prazos e impactos financeiros.

Os detalhes da transição aprovada pelos deputados

A comissão especial aprovou o texto base por 34 votos a 4. O relator foi o deputado Leo Prates, do Republicanos da Bahia. Ele unificou duas propostas, a PEC 221/19 de Reginaldo Lopes e a PEC 8/25 de Erika Hilton. A votação representa o primeiro avanço concreto para a redução da jornada de trabalho no Brasil.

Primeira fase 60 dias para 42 horas e duas folgas

Após a promulgação, as empresas terão 60 dias para reduzir a jornada máxima para 42 horas semanais. Nesse período o trabalhador passará a ter dois dias de folga obrigatórios por semana. A etapa inicial já exige ajustes em escalas de trabalho de setores que funcionam sem interrupção.

“Estamos fazendo a maior reforma na vida das pessoas, dando a mães e pais a oportunidade de serem os melhores que eles podem ser”, disse Leo Prates durante a sessão da comissão especial.

Segunda fase 12 meses para atingir as 40 horas semanais

Na segunda fase, as empresas terão até 12 meses para implementar a jornada definitiva de 40 horas semanais. A transição escalonada foi pensada para permitir a adaptação gradual dos setores produtivos. O texto exclui do limite de jornada profissionais de alta renda com ensino superior que ganham mais de 2,5 vezes o teto do INSS, hoje equivalente a R$ 21.188,87.

Micro e pequenas empresas terão uma lei complementar específica para a adequação. Contratos públicos terceirizados ganharam até 12 meses extras para se adaptar. A proposta do PL que pedia a adoção imediata da escala 4×3 foi rejeitada como destaque.

Os gargalos operacionais para o produtor rural

A reestruturação de turnos em usinas e frigoríficos

Usinas de açúcar e álcool e frigoríficos operam em regime contínuo, com escalas que muitas vezes ultrapassam as 44 horas semanais. Com a redução para 40 horas, será necessário redesenhar os turnos, contratar mais trabalhadores ou recorrer a horas extras. O custo operacional tende a aumentar, sobretudo em períodos de safra.

“O que a gente tem que estar preocupado é se esse custo que vai aumentar na mão de obra não vai recair sobre aquele povo já tão sofrido”, questionou a deputada Julia Zanatta, do PL de Santa Catarina, durante a votação.

Operação de máquinas e colheitas intensivas

O trabalho no campo durante a colheita exige longas jornadas, muitas vezes concentradas em janelas curtas. Com a nova lei, os produtores precisarão ajustar as escalas de operadores de máquinas e caminhões. A contratação de mais pessoal ou a distribuição das horas ao longo de mais dias pode atrasar a colheita em momentos críticos.

Colheitadeira realizando colheita de soja em lavoura no Brasil

O líder do PL, Sóstenes Cavalcanti, defendeu a implantação imediata da redução. “Nós queremos que a redução da jornada de trabalho seja imediata. Que história é essa de dois meses?”, afirmou durante a comissão.

O impacto financeiro na contratação de mão de obra

A mudança na jornada de trabalho terá reflexos diretos no custo da folha de pagamento dos empregadores rurais. Com menos horas disponíveis por trabalhador, muitos produtores precisarão aumentar o quadro de funcionários ou pagar horas extras para manter a produção. O impacto será maior em atividades sazonais que já operam com margens apertadas.

A visão de economistas sobre o custo da nova jornada

O economista Bruno Ottoni, da UERJ, analisou os possíveis efeitos da redução da jornada. Ele apontou que, por um lado, a qualidade de vida dos trabalhadores pode melhorar. Por outro, existe o risco de aumento do desemprego e da informalidade, especialmente em setores que não conseguirem absorver os novos custos. A avaliação de Ottoni alerta para a necessidade de políticas complementares.

Agricultura familiar e pequenos negócios no campo

O texto da PEC prevê que micro e pequenas empresas terão um regime diferenciado, definido em lei complementar. Isso é crucial para agricultores familiares e pequenos produtores que muitas vezes trabalham com poucos funcionários. A regulamentação futura deverá considerar a capacidade de adaptação desses negócios para evitar que a medida inviabilize empreendimentos rurais de pequeno porte.

O deputado Lindebergh Farias, do PT do Rio de Janeiro, destacou a força do movimento. “O motivo de as pessoas terem se levantado é que são mais de 60 deputados do PL que assinaram aquela emenda pedindo dez anos de transição”, afirmou durante a sessão.

A tramitação que vem pela frente

O texto aprovado na comissão especial ainda precisa passar pelo plenário da Câmara dos Deputados. A expectativa é de que a votação ocorra nas próximas semanas. Se aprovado, o texto segue para o Senado. A deputada Erika Hilton, autora de uma das PECs, comemorou o avanço. “Hoje os trabalhadores brasileiros e a sociedade sairão daqui contando e cantando uma vitória”, afirmou a parlamentar do PSOL de São Paulo.

A discussão, no entanto, não está encerrada. O PL já sinalizou que tentará acelerar a implementação, pressionando pela adoção imediata da escala 4×3. O debate deve continuar nos próximos meses, com possíveis alterações no texto final.

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