Nova rodada comercial de Washington poupa alimentos estratégicos do agro, mas abre consulta pública até 15 de julho
Era para entrar em vigor em 15 de julho. Mas antes mesmo da data final, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) já havia traçado o desenho do que promete ser mais uma rodada de tensão comercial entre Washington e Brasília: uma tarifa punitiva de 25% sobre parte das importações brasileiras, com lista de exceções que, no frigir dos ovos, deixa de fora justamente o que sustenta a mesa do consumidor americano. A carne bovina, o café, as terras raras, o suco de laranja e as peças aeronáuticas foram poupados da nova taxação. Tudo o que o Brasil vende em grande volume para os Estados Unidos, e que os americanos não conseguem substituir de uma hora para outra, escapou do corte.
A proposta foi apresentada na noite de segunda-feira (1º), depois de quase um ano de investigações abertas sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, o mesmo instrumento usado por Donald Trump no primeiro mandato para retaliar a China. O USTR concluiu que políticas brasileiras em comércio digital, pagamentos eletrônicos (incluindo o Pix), tarifas preferenciais, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e combate ao desmatamento ilegal são passíveis de medidas corretivas. A resposta concreta veio em forma de sobretaxa de 25% sobre uma ampla lista de produtos.
Para o agronegócio brasileiro, o movimento tem uma cara conhecida. A nova tarifa de 25% vem no lugar da antiga taxação de 50% aplicada em 2025, da qual 40 pontos percentuais funcionavam como punição política ao Brasil pelo julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Aquela alíquota foi derrubada pela Suprema Corte dos Estados Unidos em fevereiro de 2026, e a proposta atual, na avaliação de integrantes do governo brasileiro, tenta recompor parte do tarifaço anterior com nova base legal.
O detalhe que muda tudo para o campo, contudo, está nas exceções. A medida preserva exatamente os produtos em que o Brasil é fornecedor quase insubstituível para os Estados Unidos. Sem carne bovina, café e suco de laranja na lista, o impacto direto sobre a porteira adentro tende a ser limitado. Mas o efeito de segunda ordem, a começar pela percepção de risco e pela oscilação do câmbio, preocupa tanto quanto.
Os produtos que ficaram de fora da tarifa de 25%
A lista divulgada pelo USTR é didática. Carne bovina, café, terras raras, outros metais, peças de aeronaves, frutas, castanhas, petróleo bruto e derivados, fertilizantes, compostos farmacêuticos e produtos químicos orgânicos ficaram isentos. Em outras palavras, a maior parte da pauta de exportação do agronegócio brasileiro para os Estados Unidos escapou da nova taxação.
A razão é pragmática. O próprio USTR reconheceu que tributar esses produtos poderia causar disrupções generalizadas em toda a economia americana, somada à impossibilidade de obtê-los em quantidade suficiente dentro do próprio país. A leitura no Planalto foi de que a Casa Branca, mesmo sob discurso punitivista, evitou provocar desabastecimento e inflação nas prateleiras dos Estados Unidos em ano eleitoral de meio de mandato.
Para o pecuarista que exporta cortes especiais, o alívio vem em dose dupla. O produto já estava submetido a tarifas da Seção 232, voltadas à segurança nacional, e agora se mantém fora da sobretaxa adicional da Seção 301. O corredor comercial com os Estados Unidos continua aberto, com tarifa média elevada, mas sem o agravante extra de 25 pontos percentuais. Caminho diferente, porém, aguarda setores como o de produtos acabados fabricados com aço, alumínio e cobre, autopeças e veículos, que seguem sob alíquotas de 25% a 50% desde 2025.
Cronograma, consulta pública e a corrida até 15 de julho
Antes de virar tarifa, a proposta precisa passar por um filtro regulatório. O USTR abriu consulta pública com prazo até 1º de julho para recebimento de manifestações escritas e marcou audiência pública em Washington para 6 de julho. A data limite legal para eventual adoção da sobretaxa é 15 de julho de 2026.
O embaixador americano Jamieson Greer afirmou que o diálogo com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se intensificou nas últimas semanas, mas reconheceu que persistem divergências substanciais. Chanceler Mauro Vieira, que se encontrou com Greer em Paris, garantiu que o Brasil apresentou todas as informações necessárias e aguarda que sejam levadas em conta antes de qualquer decisão.
“O maior risco é a escalada.”
A frase, dita em painel do LIDE em 9 de junho, resume a posição do mercado financeiro. Mesmo grandes casas de análise não chegaram a rever projeções de PIB para o Brasil por causa do anúncio das tarifas. A avaliação predominante é que o efeito direto no crescimento tende a ser limitado, mas que uma rodada de retaliações cruzadas poderia mudar esse cenário rapidamente.
O tarifa EUA Brasil agronegócio no caixa do produtor
Na prática, a tarifa média aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros pode subir dos atuais 11% a 12% para cerca de 19%, considerando as exceções já previstas. O número, embora relevante, fica longe do cenário apocalíptico pintado nas redes sociais nas últimas semanas. As exportações brasileiras para os Estados Unidos representam menos de 10% das vendas externas do país, algo próximo de 1,5% do PIB, e o Brasil vem batendo recordes sucessivos de embarque graças à diversificação dos mercados compradores.
O ponto sensível, segundo técnicos do próprio governo, está no ambiente de negócios. A imprevisibilidade tarifária tende a pesar mais sobre decisões de investimento do que a tarifa em si. Empresa que programa expansão de capacidade olha, antes de tudo, a régua do risco regulatório. Quando essa régua muda a cada estação, o efeito de cancelamento de planos aparece antes mesmo da sobretaxa entrar em vigor.
Para compensar, o governo brasileiro trabalha com a expectativa de destravar um novo encontro entre Lula e Trump, possivelmente no G7, marcado para ocorrer entre 15 e 17 de junho na França. O chanceler Mauro Vieira foi o emissário da última rodada de conversas, e a estratégia diplomática é usar a janela da consulta pública para emplacar um acordo tarifário que limite o escopo da medida. A avaliação interna é de que há espaço para entendimento, uma vez que os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil e têm interesse em preservar o fluxo de investimento direto.
O Pix no centro da disputa e a defesa institucional
Entre os pontos questionados pelo USTR está o tratamento dado ao Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil. O documento americano sustenta que exigir que concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites tarifários, configura discriminação contra empresas de pagamento estrangeiras. A conselheira jurídica-geral do USTR, Jennifer Thornton, foi além e classificou o Pix como ônus ao comércio dos Estados Unidos.
“O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição.”
Federação Brasileira de Bancos (Febraban)
A Febraban, em nota oficial, rebateu a leitura. Para a entidade, o sistema é uma infraestrutura pública, sem fins comerciais, que funciona como plataforma aberta disponível a residentes no país, brasileiros e estrangeiros, pessoas físicas e jurídicas. As transferências entre pessoas físicas são gratuitas, e mesmo no caso de empresas não há distinção entre companhias nacionais e estrangeiras. A nota lembra ainda que o Pix tem ampliado a inclusão financeira ao reduzir custos e simplificar o acesso a meios digitais de pagamento, conforme dados públicos do Banco Central do Brasil.
Na avaliação de economistas ouvidos pelo noticiário especializado, o movimento dos Estados Unidos estaria ligado à pressão de bandeiras de cartão e big techs que perderam espaço no mercado brasileiro com a popularização do Pix. O professor da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos classificou a ação como parte de uma disputa distributiva pela renda de intermediação financeira cobrada pelos meios de pagamento tradicionais. Já o presidente Lula, em evento em Catalão (GO), foi direto: “O Pix assusta eles”, disse, ao defender o sistema como alternativa pública, gratuita e soberana.
O lado de cá da porteira
No agregado, o efeito prático da nova rodada tarifária sobre o produtor brasileiro é mais comportado do que a comoção inicial sugeria. A exclusão de carne bovina, café, suco de laranja e peças aeronáuticas preserva os principais corredores de receita em dólar do agronegócio. Mas o risco está menos na alíquota e mais no imprevisível. Cada nova investigação aberta pelo USTR, cada retaliação ensaiada e cada troca de farpas entre os dois governos injeta volatilidade no câmbio, nos contratos de exportação e no cálculo de quem programa a próxima safra.
A defesa mais robusta que o Brasil pode apresentar nas próximas semanas, na leitura de integrantes do governo, é justamente o superávit comercial de US$ 415 bilhões acumulado pelos Estados Unidos com o Brasil nos últimos 15 anos. O número consta de documentos entregues a Trump durante a reunião de maio na Casa Branca e serve como argumento central para demonstrar que a relação comercial é, no mínimo, equilibrada. Enquanto a contagem regressiva para 15 de julho corre, a conta de chegada segue aberta. E o produtor, como sempre, espera o desfecho olhando para o céu e para o mercado ao mesmo tempo.
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