Um jogo de bingo foi a estratégia utilizada pela Embrapa Amazônia Oriental (Belém, PA) para repassar a comunidades rurais do interior do Pará conhecimentos sobre os tratos culturais da bananeira e ao mesmo difundir uma nova cultivar do fruto, a BRS Pacoua. O projeto pioneiro foi implantado em Mãe do Rio distante cerca de 200 quilômetros da capital paraense, com o objetivo de garantir aumento de renda e segurança alimentar aos agricultores e agora está sendo levado a outros municípios. Uma nova Unidade Demonstrativa (UD) foi instalada em Bujaru e o bingo entre os agricultores da comunidade de São Brás deve ser iniciado no segundo semestre deste ano.
A ideia de usar o bingo como modelo para transferência de tecnologias desenvolvidas pela Embrapa partiu de Moisés Modesto e Raimundo Brabo. Eles explicaram que o teste inicial ocorreu em 2013, de maneira insipiente, em uma Unidade Demonstrativa (UD) na comunidade de Vista Alegre, na ilha de Outeiro, distrito de Belém (PA). Pouco tempo depois foram procurados pela prefeitura de Mãe do Rio, por meio da Secretaria Municipal de Agricultura, no intuito de apoiar agricultores na produção alimentos para a merenda escolar. “A ideia era, ao mesmo tempo, ofertar aos agricultores familiares conhecimento técnico no cultivo de frutas e introduzir alimentos regionalizados na merenda escolar, gerando renda no município e segurança alimentar”, explicou Moisés Modesto.
A fruta escolhida foi a banana visto que segundo dados do IBGE não havia registro de cultivo desse fruto no município. Os especialistas da Embrapa comentaram que a BRS Pacoua estava em fase final de lançamento e que a empresa de pesquisa já tinha todos os indicativos de sua potencialidade e principalmente, uma característica de destaque, pois, ao apresentar resistência às principais pragas e doenças que acometem à cultura, o fruto poderia ser cultivado pela agricultura familiar sem o uso de defensivos agrícolas, num processo de transição agroecológica, ofertado um produto mais saudável à comunidade.
A metodologia foi incorporada por diversos agricultores, entre eles, Francisco das Chagas Santos, conhecido como “Carimbó”, que aproveitou as tecnologias repassadas pela Embrapa e além do bananal, resultado final do bingo, aproveitou a área para instalar um sistema agroflorestal (SAF). “Hoje tenho na minha propriedade a banana, mas também plantei em consórcio o açaí, a pupunha e o cupuaçu”, comemora o produtor. Ele disse ainda que a diversificação da produção trouxe muitos benefícios, pois ele tem colheita e renda o ano todo.
Bingo Banana facilita o repasse de conhecimentos
O Bingo Banana é um método de difusão de cultivares de bananeira melhoradas pela Embrapa, na forma de um jogo lúdico, para motivar os agricultores a implantarem seus bananais. Moisés Modesto e Raimundo Brabo perceberam que o bingo é um jogo muito popular entre os agricultores familiares do Pará e que o desenho cartela era similar ao croqui de implantação do bananal. “De forma lúdica repassamos os conhecimentos técnicos aos produtores envolvidos e estimulamos a adoção das tecnologias por meio de uma competição saudável onde todos ganham ao final”, defende.
O jogo começa com a entrega de 16 mudas de bananeira e um croqui, semelhante a cartela de bingo, com 100 quadrinhos que correspondem ao número de mudas para preenchimento da cartela. Cada quadro ou casa mede 9 metros quadrados, totalizando uma área de 33 metros quadrados, o equivalente 1/10 de hectare. As mudas são plantadas nas casas centrais e como regra do jogo, em cada touceira só é permitida a permanência de dois perfilhos, os demais que brotarem devem ser retirados para serem plantados nas casas vazias até completar as 100 quadras.
Para repassar a metodologia, a Embrapa instala UDs e depois pede aos agricultores que repliquem o modelo em uma segunda UD na comunidade. O passo seguinte é selecionar as famílias, começar o jogo distribuindo as mudas e acompanhar a composição da cartela, ou seja, do bananal. Ao final, ganha o bingo da propriedade que frutificar até a última casa preenchida.
De acordo com o pesquisador Raimundo Brabo, o prazo necessário para o preenchimento é dois anos, mas no primeiro ano o agricultor já começa a colher os primeiros cachos de banana assim repor o investimento feito na implantação.
Várias tecnologias em uma única jogada
Outra vantagem no bingo é utilizar diversas tecnologias desenvolvidas pela Embrapa para a agricultura familiar amazônica, como um pacote de soluções com vantagens econômicas e ambientais. Entre elas destacam-se a difusão da BRS Pacoua, lançada no final de 2016 , resultado de parceria entre a Embrapa Amazônia Oriental e Embrapa Mandioca e Fruticultura; cursos de capacitação sobre o cultura da bananeira e dias de campo; além da roça sem fogo, que consiste no preparo de área sem uso do fogo por meio do corte da vegetação de capoeira, gerando renda extra aos produtores com a venda da lenha ou carvão e proteção do solo, com o picotamento da vegetação na superfície da área destinada ao plantio.
Raimundo Brabo afirmou ainda, que a diversificação da produção é sempre estimulada nos cursos de capacitação e com isso, outras soluções tecnológicas podem ser incorporadas, a exemplo do Trio da Produtividade, um sistema simples que orienta a seleção de manivas-sementes, com o plantio em espaçamento de 1m x 1m, além da capina manual durante cinco meses após o plantio da mandioca. “Essa forma de plantio e manejo aumenta em até 30% a produtividade da mandioca”, garante o pesquisado.



