Diesel pode subir até 50% após as eleições, alerta Goldman Sachs
Alta do petróleo, diferença de preços em relação ao mercado internacional e incerteza sobre os subsídios colocam a Petrobras sob pressão. Possível reajuste pode atingir transportes, alimentos e custos do agronegócio.
O preço do diesel no Brasil pode sofrer um reajuste expressivo após o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para esse domingo, 25 de outubro. A possibilidade foi levantada por analistas do banco Goldman Sachs, que estimam uma alta de aproximadamente 50% no valor cobrado pela Petrobras às distribuidoras em um cenário de mudança nos subsídios federais. A projeção ganha força com a valorização internacional do petróleo e a crescente diferença entre os preços praticados no Brasil e no exterior.
Não existe, até este sábado (24), confirmação oficial de que a Petrobras aplicará esse aumento na próxima segunda-feira. O percentual de 50% também não corresponde a uma previsão de reajuste equivalente nas bombas dos postos de combustíveis.
O que existe é uma combinação de fatores econômicos que pode pressionar a política de preços da estatal justamente quando o país encerra a disputa eleitoral.
Diesel acumula defasagem de R$ 3,53 por litro e pressiona Petrobras
O sinal mais recente veio da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Dados referentes ao fechamento de quinta-feira, 22 de outubro, indicam que o diesel comercializado nas refinarias da Petrobras apresentava uma diferença média de R$ 3,53 por litro em relação ao preço de paridade de importação.
O indicador representa uma defasagem de 108% na metodologia utilizada pela entidade. Isso significa que o preço internacional de referência estava substancialmente acima daquele praticado pela estatal, considerando os parâmetros utilizados no levantamento.
O valor também ultrapassou, ainda que por apenas um centavo, a subvenção de R$ 3,52 por litro destinada aos importadores de diesel.
A situação é consequência, principalmente, da valorização do petróleo internacional. O barril do Brent voltou a superar US$ 100 em outubro, impulsionado pelas tensões geopolíticas e pelos riscos à oferta mundial de energia.
Quando o petróleo sobe, o custo de importação de derivados acompanha esse movimento. Se os preços domésticos permanecem estáveis, aumenta a distância entre o combustível produzido no país e aquele comprado no mercado internacional.
Essa diferença não determina automaticamente um reajuste. A Petrobras considera outros fatores em sua política comercial, incluindo condições de mercado, competitividade e alternativas de abastecimento.
Goldman Sachs calcula reajuste de 50%, mas prevê preços estáveis no cenário-base
O alerta do Goldman Sachs está relacionado especialmente à diferença entre os subsídios concedidos à produção nacional e à importação de diesel.
Nos cálculos divulgados pela instituição, os produtores nacionais contam com uma subvenção de R$ 2,12 por litro, enquanto os importadores recebem R$ 3,52 por litro.
A diferença de R$ 1,40 por litro favorece temporariamente a competitividade do produto importado. O incentivo adicional foi anunciado pelo governo federal em outubro para ajudar a manter o abastecimento nacional diante das dificuldades no mercado internacional.
Se essa diferença entre os subsídios desaparecer, o Goldman Sachs calcula que a Petrobras poderia precisar elevar seus preços em cerca de R$ 1,50 por litro, o equivalente a aproximadamente 50% sobre o preço de venda então considerado pela instituição.
A estimativa depende da continuidade ou não dos incentivos e da decisão comercial da empresa.
O Goldman Sachs também relaciona a possibilidade de reajuste ao calendário eleitoral. “Acreditamos que a Petrobras provavelmente esperará o desfecho da eleição antes de tomar qualquer decisão sobre um potencial reajuste nos preços dos combustíveis”, avaliaram os analistas.
Há, entretanto, uma ressalva fundamental: o próprio banco não considera esse aumento seu cenário mais provável neste momento.
Apesar da pressão sobre os preços, o banco ressalta que seu cenário-base permanece inalterado: “Assumimos que a Petrobras manterá os preços do diesel inalterados até o final do ano”. Assim, a possibilidade de aumento após as eleições continua sendo uma projeção, e não uma decisão confirmada pela estatal.
Diante das incertezas sobre a política de subsídios, a instituição trabalha, em seu cenário-base, com a manutenção dos preços do diesel pela Petrobras até o final de 2026.
Portanto, o reajuste de 50% representa uma possibilidade calculada pelos analistas, e não uma decisão tomada pela companhia.
Diesel pode chegar a R$ 9 ou R$ 10 nos postos?
O Goldman Sachs também avaliou como a retirada de subsídios poderia repercutir diretamente nos consumidores.
Em uma simulação na qual o preço cobrado pela Petrobras às distribuidoras aumentasse aproximadamente 50%, o banco estima uma elevação próxima de 20% no preço final do diesel nos postos.
A diferença ocorre porque o valor pago pelo consumidor não depende exclusivamente do preço praticado pela refinaria. Ele também incorpora distribuição, revenda, tributos, mistura obrigatória de biodiesel e outros componentes.
Em um cenário mais severo, envolvendo a retirada de todos os subsídios considerados na análise, o banco aponta a possibilidade de aumento de aproximadamente R$ 1,80 por litro nas bombas.
Nesse exercício, o preço do diesel poderia sair de uma referência de R$ 7,34 por litro e atingir uma faixa próxima de R$ 9 a R$ 10.
Esses números não representam uma previsão oficial da Petrobras, tampouco preços confirmados para a próxima semana. São cenários condicionais utilizados para dimensionar os efeitos potenciais de mudanças na política de preços e incentivos.
Caminhoneiros, produtores rurais e alimentos podem sentir os efeitos
Um eventual aumento do diesel teria consequências que ultrapassam o custo de abastecer veículos.
O combustível é um componente fundamental do transporte rodoviário de cargas, responsável pelo deslocamento de grãos, carnes, fertilizantes, produtos industrializados e alimentos entre regiões brasileiras.
Para Mato Grosso, a questão assume importância particular.
O estado depende de operações logísticas de grande escala para transportar sua produção agropecuária até terminais ferroviários, centros consumidores, indústrias e portos exportadores. Alterações no custo do combustível podem afetar os valores de frete e, consequentemente, as despesas de comercialização.
Na atividade rural, o diesel também é utilizado em tratores, colheitadeiras, caminhões e equipamentos empregados em diferentes etapas da produção.
A dimensão efetiva desse impacto dependerá da intensidade de um eventual reajuste, do momento de sua aplicação e da capacidade de repasse dos custos ao longo da cadeia.
A Sachs calcula que, em seu cenário de aumento, o impacto total sobre a inflação poderia ficar entre 0,21 e 0,24 ponto percentual, somando efeitos diretos e indiretos.
O maior risco está justamente nos efeitos que se espalham pela economia: fretes mais caros podem pressionar o custo de distribuição de alimentos e mercadorias mesmo quando o consumidor não utiliza diesel diretamente.
Segunda-feira será decisiva para o mercado de combustíveis?
A atenção do setor está voltada para segunda-feira, 26 de outubro, primeiro dia útil após o segundo turno presidencial.
Outro fator relevante é a proximidade dos períodos de encerramento e possível renovação das medidas de apoio aos preços dos combustíveis.
A continuidade, alteração ou retirada dos subsídios pode modificar as condições de concorrência entre o diesel produzido no Brasil e aquele importado.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) também confirmou que divulgará na segunda-feira o levantamento de preços de combustíveis referente ao período de 18 a 24 de outubro. A publicação é uma pesquisa sobre valores praticados nos postos, não um anúncio de aumento.
O mercado acompanhará simultaneamente o resultado das eleições, o comportamento do petróleo internacional, as decisões do governo federal e eventuais comunicados da Petrobras.
Por enquanto, a pressão por reajustes é sustentada por indicadores econômicos e avaliações de especialistas. A decisão de alterar os preços, porém, continua dependendo das condições comerciais e das deliberações da estatal.
Para produtores, transportadores e consumidores, a questão central não é apenas se haverá um aumento imediato, mas como o país administrará a diferença entre os custos internacionais de energia e os preços domésticos.
Se os subsídios forem reduzidos e o petróleo continuar valorizado, por quanto tempo o custo do diesel poderá permanecer distante das referências internacionais sem pressionar toda a economia brasileira?
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.