HeLa, a célula imortal que ainda pode transformar o futuro da humanidade
Retiradas de uma paciente com câncer em 1951, sem seu consentimento, células humanas continuam se multiplicando em laboratórios e ajudaram a transformar pesquisas sobre vacinas, câncer, vírus e genética.
Em 1951, uma mulher de 31 anos procurou atendimento médico em Baltimore, nos Estados Unidos, para tratar um câncer no colo do útero. Durante o tratamento, uma amostra de seu tumor foi encaminhada a um laboratório. O que os pesquisadores encontraram naquele tecido mudaria profundamente a história da medicina: células humanas capazes de continuar se multiplicando em condições laboratoriais por um período aparentemente ilimitado.
A paciente se chamava Henrietta Lacks. Morreu naquele mesmo ano, em 4 de outubro, sem saber que parte de seu organismo daria origem a uma das ferramentas mais importantes da pesquisa biomédica moderna.
Batizadas de HeLa, combinação das primeiras letras de seu nome e sobrenome, aquelas células atravessaram gerações de cientistas, universidades e instituições de pesquisa. Participaram de estudos fundamentais para o desenvolvimento de vacinas, a compreensão do câncer, o comportamento dos vírus e os mecanismos de funcionamento do organismo humano.
O mais extraordinário não é simplesmente que continuem existindo 75 anos depois. É que suas descendentes celulares ainda podem ser cultivadas, congeladas, distribuídas e estudadas em laboratórios de diferentes partes do planeta.
A descoberta inesperada de células que não paravam de se multiplicar
Na primeira metade do século XX, manter células humanas vivas fora do organismo era um dos grandes desafios da biologia experimental. A maioria das culturas perdia rapidamente sua capacidade de crescimento, comprometendo pesquisas que dependiam de observações prolongadas.
No Hospital Johns Hopkins, o pesquisador George Otto Gey trabalhava justamente para superar essa limitação.
Pesquisador George Otto Gey – Foto restaurada com uso de IA
Ao receber uma amostra retirada do tumor de Henrietta Lacks, sua equipe identificou uma característica incomum. Diferentemente de muitas outras células examinadas anteriormente, aquelas continuavam crescendo e se dividindo com notável eficiência.
O próprio Hospital Johns Hopkins registra que, nas condições observadas pelo laboratório, as células se duplicavam aproximadamente a cada 20 a 24 horas.
Era o início de uma linhagem que poderia ser reproduzida continuamente e compartilhada entre pesquisadores.
A descoberta eliminou uma barreira importante: em vez de depender exclusivamente de novas amostras humanas a cada experimento, os cientistas passaram a trabalhar com células cultivadas e multiplicadas em laboratório, favorecendo a repetição de testes e a comparação de resultados.
Essa capacidade transformou as HeLa em um modelo experimental de alcance mundial.
O que realmente significa uma célula ser imortal?
A palavra imortal pode sugerir que uma única célula sobreviva indefinidamente. Não é isso que acontece.
Na biologia, uma linhagem celular imortalizada é aquela que consegue manter sucessivas gerações de células em divisão, desde que encontre condições adequadas de cultivo.
As células individuais continuam sujeitas à morte e a danos. O que permanece é a capacidade de a população celular produzir descendentes e sustentar novas culturas.
Estruturas celulares HeLa – Crédito: Wellcome Collection
No caso das HeLa, essa característica está relacionada a profundas alterações nos mecanismos de controle do ciclo celular, associadas ao tumor do qual se originaram.
A linhagem também contém material genético do papilomavírus humano, o HPV, agente relacionado ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer, incluindo o do colo do útero.
Essas células não representam tecidos humanos normais. São células cancerígenas com alterações cromossômicas e características biológicas específicas.
Por isso, sua capacidade de crescimento não constitui evidência de que a ciência tenha descoberto uma maneira de tornar seres humanos imortais.
O verdadeiro valor das HeLa está em permitir que mecanismos biológicos complexos sejam investigados em condições controladas.
Da poliomielite ao câncer, como as células HeLa ajudaram a salvar vidas
Uma das contribuições históricas mais importantes das células HeLa ocorreu durante o desenvolvimento da vacina contra a poliomielite.
Na década de 1950, pesquisadores descobriram que a linhagem era adequada ao cultivo do poliovírus, permitindo produzir material biológico em quantidade suficiente para apoiar experimentos e estudos da doença.
A vacinação contra a pólio se tornaria uma das grandes conquistas da saúde pública mundial.
Mas as aplicações não ficaram restritas a esse campo.
As células também participaram de investigações sobre os efeitos da radiação, a ação de substâncias tóxicas, doenças infecciosas e processos fundamentais da genética.
Com o avanço da biologia molecular, contribuíram para pesquisas ligadas ao HPV e ao desenvolvimento de estratégias de prevenção do câncer do colo do útero.
Décadas depois, a linhagem continuou sendo utilizada em pesquisas sobre infecções virais, incluindo investigações relacionadas à Covid-19.
Em reconhecimento à importância desse legado, a Organização Mundial da Saúde homenageou Henrietta Lacks postumamente, em outubro de 2021.
É necessário, porém, distinguir contribuição científica de resultado clínico direto. As HeLa não constituem uma vacina, medicamento ou tratamento. Elas são uma ferramenta experimental utilizada em etapas de investigação que podem contribuir para o desenvolvimento dessas tecnologias.
A dimensão histórica desse trabalho aparece também nos registros dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. Em uma análise bibliográfica referente ao período de 1953 a 2018, o NIH identificou mais de 110 mil publicações científicas que mencionavam o uso da linhagem.
Um número que ajuda a explicar por que HeLa permanece tão presente na ciência contemporânea.
O futuro das pesquisas médicas e os limites da descoberta
Mesmo depois de tantas décadas de utilização, as HeLa continuam oferecendo possibilidades para investigar o comportamento de células cancerígenas, a interação entre vírus e células humanas e os efeitos de compostos químicos.
Sua capacidade de multiplicação e sua relativa facilidade de manutenção permitem realizar experimentos que seriam muito mais difíceis com material biológico de disponibilidade limitada.
Essas características também tornam a linhagem relevante para pesquisas sobre novos fármacos e tecnologias de análise celular.
O desenvolvimento de ferramentas de sequenciamento genético, microscopia avançada e edição de genes ampliou as possibilidades de investigar processos que antes eram pouco compreendidos.
Entretanto, existe uma limitação científica fundamental.
Resultados obtidos com HeLa não podem ser automaticamente generalizados para todas as células humanas ou interpretados como prova de eficácia de um tratamento em pacientes.
Além disso, seu crescimento vigoroso criou um problema conhecido na pesquisa laboratorial: a contaminação de outras culturas celulares.
Ao longo da história, pesquisadores identificaram experimentos realizados com linhagens que deveriam pertencer a outros tecidos, mas haviam sido substituídas ou contaminadas por células HeLa.
Portanto, o futuro da linhagem depende não apenas de novas tecnologias, mas também de rigorosos procedimentos de identificação, autenticação e controle de qualidade.
A mulher que transformou a ciência sem saber
Por trás de uma das descobertas mais importantes da biologia moderna existe uma história que também expôs profundas falhas éticas da pesquisa médica.
Henrietta Lacks era uma mulher negra, mãe de cinco filhos. Quando procurou tratamento para seu câncer em 1951, uma amostra de suas células foi retirada e utilizada em pesquisas sem que ela tivesse conhecimento ou concedido consentimento específico para essa finalidade.
Henrietta Lacks – Foto restaurada com uso de IA
A prática ocorreu em uma época na qual as normas de proteção dos participantes de pesquisas eram substancialmente diferentes das atuais.
Enquanto suas células se tornavam conhecidas em laboratórios de todo o mundo, Henrietta e sua família permaneceram por muitos anos sem o reconhecimento proporcional à importância de sua contribuição.
A situação transformou o caso em um marco nas discussões sobre consentimento informado, privacidade genética, justiça racial e direitos de pacientes.
Em 2013, os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos estabeleceram um acordo com integrantes da família Lacks para regulamentar o acesso a determinados dados genômicos completos da linhagem.
O acordo NIH-Lacks prevê mecanismos de controle de acesso a esses dados, buscando conciliar o interesse científico e a proteção da privacidade familiar.
A medida não significa que toda utilização das células dependa de autorização individual dos descendentes. Trata-se de uma política específica para determinadas informações genéticas.
A história também ganhou reconhecimento internacional quando a OMS concedeu uma homenagem póstuma a Henrietta, em 2021. No ano seguinte, membros de sua família foram nomeados embaixadores da boa vontade da organização na campanha pela eliminação do câncer do colo do útero.
Henrietta e seu marido David Lacks – Foto restaurada com uso de IA
O reconhecimento, embora tardio, ajudou a colocar o nome de Henrietta Lacks no centro de uma discussão que permanece atual: até onde a ciência pode avançar sem comprometer os direitos das pessoas que tornam suas descobertas possíveis?
Passados 75 anos da coleta das primeiras amostras, as células HeLa continuam contribuindo para investigações científicas. Seu legado não é a promessa de imortalidade humana, mas a demonstração de que um material biológico coletado em circunstâncias hoje eticamente controversas pode transformar o conhecimento médico durante gerações.
A próxima grande descoberta envolvendo essa linhagem ainda é desconhecida. O que já está estabelecido é que seus resultados precisam ser avaliados com rigor científico e respeito à história da mulher que lhe deu origem.
Quantas descobertas capazes de transformar a medicina ainda dependem de conciliar o avanço científico com a proteção dos direitos humanos?
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Sobre o autor
Vicente Delgado
DRT 2364/MT
Editor-Chefe e Fundador24+ anos de experiência
Jornalista e fundador do Agronews, atua desde 2002 em produção audiovisual e cobertura do agronegócio brasileiro, com foco em commodities, política agrícola, pecuária e eventos do setor.