Produtores que vão plantar a próxima safra de verão ou a segunda safra com milho em todo o País devem ficar atentos a um grave problema que ainda não tem medidas curativas: os enfezamentos pálido e vermelho do milho, doenças que podem provocar perdas de mais de 70% na produtividade das lavouras
Mas uma série de recomendações da Embrapa e parceiros, que precisam ser seguidas em escala local e regional, podem minimizar os prejuízos na cultura.
O tema foi abordado pelo supervisor de Transferência de Tecnologia (TT) da Embrapa Cerrados (DF), Sérgio Abud, em Prosa Técnica promovida pela Emater-DF em parceria com a Embrapa no Parque Ivaldo Cenci, no PAD-DF, Distrito Federal, no dia 24 de setembro. Cerca de 60 técnicos e produtores do DF e Entorno acompanharam a apresentação.
“Estamos numa região com muitos cultivos de milho o ano todo e, considerando o potencial de dano dos enfezamentos, podemos ter problemas muito sérios se não começarmos a dar uma atenção especial à questão da cigarrinha-do-milho”, alertou Abud.
Siga-nos: Facebook | Instagram | Youtube
Ele acrescentou que a ocupação das áreas com lavouras de diferentes culturas ao longo do ano fornece alimento para diversas pragas e favorece sua multiplicação. Portanto, é necessário manter o equilíbrio agroecossistêmico em nível regional manejando de forma integrada o complexo de pragas do sistema de produção, e não apenas uma praga isoladamente.
Entre as medidas inadequadas de manejo da lavoura que oferecem alto risco de infestação por pragas estão o plantio dos mesmos cultivos nas mesmas áreas; o uso das mesmas variedades em grandes áreas, ano após ano, gerando forte pressão de seleção de indivíduos mais resistentes; o cultivo de transgênicos (Bt) sem áreas de refúgio ou manejo da resistência a pragas; o uso inadequado de inseticidas, com misturas de produtos e aplicações calendarizadas, que levam à perda da eficácia dos princípios ativos; e a exploração intensiva de culturas hospedeiras suscetíveis, formando a chamada “ponte verde” no campo.
Doenças são vasculares e sistêmicas
Os enfezamentos do milho são causados por bactérias (espiroplasma e fitoplasma) pertencentes à classe dos Mollicutes, que são transmitidas pela cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis). O espiroplasma (Spiroplasma kunkelli) causa o enfezamento pálido, enquanto o fitoplasma (Maize bushy stunt phytoplasma) causa o enfezamento vermelho.

“A cigarrinha causa um dano direto, porque ela suga a seiva do milho, e um dano indireto como vetor dos molicutes. Mas o grande problema são os enfezamentos, então temos que ter atenção especial sobre os molicutes. A cigarrinha é consequência por transmiti-los, mas não é o problema”, pontuou Abud.
As doenças são vasculares e sistêmicas: os molicutes se concentram no floema da planta, estrutura responsável pela circulação da seiva elaborada (composta por nutrientes), obstruindo-o e causando desordens fisiológicas, nutricionais e bioquímicas nas plantas de milho. “Não temos produtos para controlar os molicutes. Quando eles se instalam nas plantas, não há o que fazer”, disse o supervisor de TT da Embrapa Cerrados.
Os sintomas das doenças são mais severos na fase de produção, polinização e formação dos grãos, quando o metabolismo da planta se intensifica. O momento exato da ocorrência vai depender da época em que a planta foi infectada, da cultivar de milho utilizada e das condições ambientais (em períodos mais quentes, o metabolismo da planta é mais intenso).
No enfezamento pálido, aparecem estrias cloróticas esbranquiçadas, que se estendem da base para o ápice das folhas de forma paralela às nervuras, além de encurtamento de internódios e da redução da altura da planta devido à obstrução da circulação de seiva elaborada. Também pode ocorrer o avermelhamento, que evolui para a seca das folhas. Já no enfezamento vermelho, o avermelhamento das folhas é mais intenso, com seca a partir das margens das folhas, ocorrência de brotos axilares, aumento do perfilhamento e proliferação de espigas; algumas cultivares podem não apresentar avermelhamento, mas as folhas ficam com clorose (produção insuficiente de clorofila) e começam a secar.
Em ambos os enfezamentos, ocorre a má formação de raízes, levando ao acamamento e ao tombamento das plantas, muitas vezes até por doenças oportunistas de raiz causadas por outros patógenos. De acordo com a severidade, as espigas podem sofrer uma leve redução da produção até praticamente não terem grãos formados. Abud explicou que não é possível diferenciar os dois enfezamentos visualmente no campo – somente com teste molecular –, e as plantas podem apresentar ambas as doenças.
Cigarrinha tem alto potencial de proliferação e dispersão
Entre as 44 espécies de cigarrinhas que ocorrem na cultura do milho no Brasil, apenas a cigarrinha-do-milho é capaz de transmitir os molicutes que causam os enfezamentos do milho, além de um vírus que causa a doença conhecida como virose da risca. Ela é originária do México e atualmente se distribui em todas as regiões tropicais e subtropicais das Américas. O ciclo de vida varia de dois a três meses, sendo que a forma adulta tem longevidade até 77 dias. A fêmea coloca os ovos dentro da folha do milho, preferencialmente na nervura central, e é capaz de depositar de 400 a 600 ovos durante toda a vida.
A cigarrinha-do-milho pode estar presente em outras culturas, como sorgo, milheto, gramíneas forrageiras como a braquiária e o capim colonião, e plantas daninhas. No entanto, somente completa o ciclo de vida na cultura do milho.




