O apoio da pesquisa científica brasileira na elaboração de políticas públicas como o Plano de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Plano ABC), coordenado pelo Ministério da Agricultura, tem colaborado para reduzir emissões de gases de efeito estufa no campo. Isso tem ocorrido graças à adoção de modelos produtivos resilientes aos efeitos adversos do clima. Os resultados foram apresentados por dois pesquisadores da Embrapa em um evento paralelo do governo brasileiro realizado na Embaixada do Brasil em Paris, durante a 21ª Conferência das Partes (COP 21) na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Realizado no início de dezembro, o encontro foi o maior da história em número de países presentes.
Foram ressaltados, em especial, os maiores trabalhos que compõem o portfólio de Pesquisa sobre Mudanças do Clima da Embrapa, pasta que já conta com seis projetos de pesquisa na carteira Macroprograma 1, a qual reúne trabalhos que abordam grandes desafios científicos nacionais, além de cerca de 70 outros projetos nas demais carteiras da Empresa.
“Ressaltamos a forma como essas linhas de pesquisa têm contribuído para consolidar tecnologias, entre elas as utilizadas para viabilizar a construção do Plano Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Plano ABC), a determinação de fatores de emissão ajustados ao País e as estratégias de adaptação da agricultura”, explica o chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da Embrapa Informática Agropecuária (SP), Giampaolo Pellegrino, que representou a Embrapa no evento ao lado do pesquisador Gustavo Mozzer, da Secretaria de Relações Internacionais (SRI) da Empresa. Durante o evento, os especialistas apresentaram a palestra “40 Anos de Contribuições Científicas e Apoio da Embrapa a Políticas Públicas: Portfólio de Pesquisa em Mudanças do Clima e Agricultura”.
“Essa palestra foi desenhada para apresentar a relevância do desenvolvimento científico para a agricultura tropical e a estratégia de enfrentamento dos desafios impostos pela mudança do clima para a ciência agrícola”, destaca Giampaolo, que também é coordenador do portfólio de Pesquisa sobre Mudança do Clima da Empresa.
Giampaolo enfatizou ainda a necessidade de investimento em planejamento de longo prazo como parte da agenda de adaptação, defendida como central para o enfrentamento dos riscos associados à mudança do clima na busca por tecnologias e soluções resilientes para o setor agrícola.
“A receptividade do público foi extremamente positiva”, diz Gustavo Mozzer, que apresentou resultados de cinco anos de implantação do Programa ABC, substituindo o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, André Nassar, que não pôde comparecer ao evento.
Os pesquisadores também participaram do processo de negociação dos temas relacionados ao setor agrícola e prestaram apoio técnico ao Ministério das Relações Exteriores durante a COP21. “O caráter estratégico dessa reunião é evidente, não somente na esfera ambiental ou no contexto das discussões técnicas afetas à mudança do clima, mas, fundamentalmente, no que se refere à governança, balanço de influência e a agenda econômica global”, destacou Mozzer.
Atuação tem sido constante
A participação de pesquisadores da Embrapa nas Conferências das Partes das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, coordenada pela Secretaria de Relações Internacionais (SRI), vem sendo sistemática desde a COP 15, em 2009, na cidade de Copenhague.
“Ao longo deste período, os pesquisadores da Embrapa têm procurado articular, de forma estratégica, a visão brasileira no ambiente de negociação internacional e, simultaneamente, procurado internalizar os desdobramentos das negociações às agendas nacionais”, ressalta Mozzer.
Segundo ele, a atuação coordenada da Embrapa tem sido estratégica para viabilizar a construção do entendimento multilateral acerca do papel do setor agrícola no contexto do enfrentamento da mudança do clima.
Essa atuação tem sido particularmente marcante na construção das Ações Nacionalmente Apropriadas de Mitigação (NAMAs) – entre elas o Plano ABC –, na articulação da Aliança Global de Pesquisa em Gases de Efeito Estufa para Agricultura (GRA), na consolidação da agenda de adaptação e segurança alimentar como componentes centrais da discussão de agricultura no âmbito da UNFCCC e na elaboração das Contribuições Nacionalmente Determinadas (INDCs) do Brasil de forma robusta.
“Assim, a articulação de nossa equipe de pesquisadores não se resume a intervenções pontuais anuais em reuniões da COP. Trata-se de um trabalho constante, de articulação e planejamento em âmbito nacional, apoiando o desenvolvimento de políticas públicas domésticas com o estado da arte dos acontecimentos no cenário internacional”, afirma Mozzer.
Avanços científicos apoiam agropecuária
O setor agropecuário é um importante componente da matriz de emissões de qualquer país com vocação agrária. “Mas é importante salientar que a natureza das emissões oriundas do setor pecuário é biogênica, ou seja, oriunda de processos metabólicos e fisiológicos. Isso significa que existe um grande campo para avanços científicos visando ao manejo dessas emissões com potencial extremamente promissor para o futuro”, esclarece Giampaolo.
De acordo com ele, as emissões provocadas pelo uso de combustíveis fósseis são abiogênicas, decorrentes da utilização de reservatórios de carbono estocados há milhões de anos. “Nesse caso, o processo de imobilização é extremamente custoso ou quase inviável do ponto de vista tecnológico”, afirma.


