Na semana passada, tive a honra de fazer uma palestra em um dos mais tradicionais eventos técnico-científicos, o 28º Simpósio de Manejo de Pastagens da Esalq/USP

O título da minha fala era “Mitigação da emissão de gases de efeito estufa em sistemas de produção animal em pastagens – Em busca da carne com emissão zero”. O texto a seguir tem a intenção de trazer os pontos principais apresentados.

Premissas – Inicialmente foram colocadas quatro premissas que ajudariam a entender o restante da apresentação:

(1) Pegada de Carbono como métrica preferencial: a melhor maneira de apresentar dados de emissão no caso de pecuária bovina é em unidade do gás de efeito estufa por unidade de produto (Exemplo: kg metano/kg de carcaça), pois ele combina a emissão de GEE (gás de efeito estufa) com a produção animal associada. Essa medida é conhecida como “pegada de carbono”;

(2) Quanto melhor a dieta, menor a pegada de carbono: quanto maior o valor nutritivo ingerido pelo animal, menor a produção de GEE por quilograma de matéria seca ingerida e menor a produção de fezes, reduzindo também os GEE associados a este resíduo. Como o maior valor alimentar resulta em maiores ganhos, a pegada de carbono também é reduzida porque a menor emissão é dividida por um valor ainda maior;

(3) O abate precoce ajuda a reduzir emissão de metano: quanto menor a idade de abate, menor a produção de metano para cada quilograma de carne produzida. Isso ocorre tanto porque o animal permanece menos tempo emitindo o metano, como porque ele emite menos para cada quilograma de comida que consome;

(4) Maior produção das forrageiras resulta em maior produção de raiz: há relação entre produção de parte aérea da forrageira e crescimento da raiz, portanto podemos assumir que, quanto mais produtiva a pastagem, maior a massa do sistema radicular sob o solo.

Manejo de pastagens e mitigação – O manejo de pastagens é o primeiro ponto onde podemos começar a mitigar a emissão de GEE, isso antes mesmo de plantar a pastagem. Escolher a cultivar adequada às condições locais (fertilidade e condições físicas do solo, clima, risco de pragas e doenças, ocorrência de alagamento, etc.) resulta em melhores produtividades e ajuda a perenizar as pastagens. Reformas e renovação de pastagens são grandes contribuidoras da mobilização de carbono do solo e evitar a emissão dessa fonte faz diferença.

Na lista de ações para evitar a degradação das pastagens destacam-se dois pontos: (1) Evitar o superpastejo, respeitando a altura mínima determinada para cada forrageira¹ e (2) reposição periódica de nutrientes pela adubação.

No caso da altura de pastejo, pastejos lenientes (mantendo o pasto mais alto, com lotações mais baixas), têm sido realizados para obtenção de melhores desempenhos individuais dos animais. Esse manejo favorece a mitigação de GEE, pois: (a) a melhor qualidade nutricional da forragem resulta em menor produção de metano por quilograma de matéria seca ingerida, (b) o maior desempenho reduz o ciclo de vida do animal e (c) a maior massa forrageira corresponde a um sistema radicular também maior (ou seja, maior sequestro de C). Em conjunto, essas alterações resultam em uma pegada de carbono (kg de GEE/kg de unidade de produto) menor.

Carbono no solo – O C solo possibilita o armazenamento de nutrientes, melhora a disponibilidade de água, aumenta a capacidade de troca de cátions, aumenta a biomassa microbiana e melhora a estrutura e porosidade do solo, deixando-o menos suscetível à erosão. Maiores teores de C de solo podem explicar diferenças de produção de massa de forragem de 800 ou 900 kg/ha, por melhor fornecer nutrientes às plantas e/ou ajudar na retenção da umidade do solo. O interesse em aumentá-lo, portanto, vai muito além do interesse em mitigar GEE.

Pastagens bem manejadas são excelentes ferramentas para aumentar o C no solo e essa é uma das grandes vantagens de sistemas integrados de lavoura-pecuária. Áreas com rotação de lavoura e pecuária tem 30% mais C no solo do que áreas solteiras. Há um número razoável de estudos sobre ecossistemas de pastagem nos biomas da Amazônia, Cerrado e da Mata Atlântica, indicando que os solos sob pastagens bem manejadas ou em sistemas de integração podem ter níveis de carbono semelhantes ou superiores à vegetação nativa,

O potencial de sequestro de C em solos de pastagem está estritamente relacionado ao seu manejo, os solos funcionando como um dreno (= bom manejo) ou emissor (= mal manejo) de CO2 atmosférico. Perturbações do solo podem resultar em perda de carbono, sendo muito mais fácil perder do que aumentá-lo. A prioridade deve ser dada para manter esses estoques. Por fim, deve-se lembrar que, há um limite para o estoque de C nos solos, todavia no Brasil há ainda enormes possibilidades de sequestrar C no solo.

Leguminosas – A grande vantagem da leguminosa é a eliminação completa das emissões associadas à fabricação e aplicação de fertilizantes nitrogenados e, possivelmente, emissões de óxido nitroso (N2O) mais baixas. A fixação biológica de nitrogênio (N) por leguminosas tropicais pode exceder 100 kg/ha/ano. O N introduzido no sistema pela leguminosa estimula produção de forragem, chegando a dobrar a produção de matéria seca total.  A produção de carne em pastagens de braquiárias consorciadas com a cultivar Estilosantes Campo Grande (ECG) tem sido de 9 a 34% superiores às com a gramínea solteira. Uma vantagem adicional importante da ECG em consorciação com gramíneas, tem sido uma melhor cobertura do solo que ajuda a evitar perdas de solo devido à erosão, o que é mais importante em solos arenosos, para o qual essa cultivar e recomendada.

Pastagem é cultura perene – O ponto mais importante neste contexto é lembrar que as pastagens são culturas perenes. Os primeiros pastos da cv. Marandu, plantados no início da década de 1980 na Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande, MS, que são adubados periodicamente, permanecem produtivos até hoje. É muito mais vantajoso, do ponto de vista econômico, manter a pastagem produtiva do que periodicamente ter que fazer a reforma da área.

Suplementação de Pastagens e Confinamento

Ganhos latentes com a mineralização – No Brasil, a suplementação de pastagens deve ser feita o ano todo, pelo menos, com o sal mineralizado. Apesar da suplementação mineral ser uma prática largamente adotada, as estatísticas mostram que a quantidade produzida de sal mineral é insuficiente para a demanda do rebanho. Mesmo para as fazendas que usam rotineiramente o suplemento mineral, há muitos problemas na operacionalização da oferta do produto nas pastagens. Há, portanto, um ganho latente em desempenho referente a deficiências em decorrência dessas falhas. Essa é uma oportunidade de mitigação da pegada de carbono bastante interessante do ponto de vista do baixo investimento e, mesmo considerando que, para a maioria dos casos, houvesse apenas discretos aumentos de ganho, ao considerar o tamanho do rebanho brasileiro, o impacto positivo no orçamento das emissões pode ser positivo.

Ganhos na seca fazem diferença – Os maiores diferenciais proporcionais em resposta à suplementação, contudo, estão na época da seca, quando a ausência do uso dos suplementos adequados leva à perda de peso. Mesmo apenas com a suplementação de sal com ureia (100 g/Unidade Animal com 30% de ureia), pode-se esperar, pelo menos, manutenção de peso. Já com o uso de misturas múltiplas (proteinados), ganhos de 200-400 g/cabeça/dia são usualmente obtidos. Elas são formuladas para consumo entre 1 a 2 g/kg de peso vivo. Junto com uso de pasto diferido, os proteinados permitem abater um animal cerca de 12 meses antes de outro que fique apenas no sal mineral. A figura 1 ilustra o efeito da suplementação na redução da idade de abate e na pegada de C.

O uso do proteinado energético reduziu o tempo até abate em quase um ano (330 dias) e quase reduziu a pegada de C pela metade (De 42,6 para 23,4 kg de CO2-eq./kg de ganho). De modo geral, quanto maior a suplementação, menor a pegada de C. Isso vale para o “confinamento em pasto”, na qual oferta-se ente 1,8-2,0% do PV do animal (na matéria seca, M.S.) e também para o confinamento tradicional. No caso dos confinamentos, vale lembrar que tem havido uma adoção crescente de dietas de alto concentrado, pois: (a) o operacional com pouco volumoso fica facilitado, (b) há aumento de eficiência alimentar e (c) ganhos elevados favorecem a terminação dos animais.

Sistemas de Integração

Os sistemas de integração têm-se mostrado eficientes na melhoria das propriedades químicas, físicas e biológicas, na quebra do ciclo de pragas e doenças, no controle de invasoras, no aproveitamento de subprodutos, disponibilização de pasto de alta qualidade na entrada da seca, no incremento da produção animal e de grãos e no fluxo de caixa.

A lavoura melhora a fertilidade do solo, enquanto a pastagem melhora as propriedades físicas do solo. Aumentos nos rendimentos de soja de 200 a 700 kg/ha foram relatados em áreas previamente cultivadas com milho intercalado com gramíneas forrageiras perenes. No caso da pecuária, ganhos de peso comparáveis às águas podem ser obtidos no pasto safrinha.

Sistemas silvipastoris – Com 250 a 350 árvores de eucalipto/ha, para corte aos oito até doze anos de idade, produz-se até 25 m3/ha/ano de madeira, o que corresponde a um sequestro anual de 18 t/ha de CO2eq.. Este valor equivaleria à neutralização da emissão de GEE de cerca de 12 bovinos adultos/ha/ano. Considerando que a taxa de lotação média das pastagens brasileiras é de 1,2 animal/ha, fica evidente a relevância desses sistemas na remoção de GEE da atmosfera e na melhoria das condições ambientais de sistemas pecuários. Eles seriam os únicos em que obteríamos a carne 100% sem emissões líquidas de GEE e com sobra.

Intensificação da Pecuária – Há uma clara relação entre intensificação da pecuária e redução da pegada de C. A figura 2 ilustra isso.

Figura 2 – Efeito da intensificação na pegada de carbono de uma fazenda hipotética de Rondônia com cenários intensificados na situação considerando o C solo em equilíbrio (colunas em preto) ou C do solo variando (colunas em branco). Usual: Degradada, Cenário 1: adubada +seleção dos animais; Cenário 2: corrigida e adubada + cruzamento industrial; Cenário 3: pastejo rotacionado + inseminação artificial e Cenário 4: irrigação + marcadores moleculares para a seleção e cruzamento dos animais (Mazzeto et al. 2015).

Quanto considerado o C do solo em equilíbrio (sem emissão ou sequestro), há notável redução: a pegada de C do Cenário 4 é menos da metade do Cenário 1. Quando incluímos a variação do C no solo, o cenário intensivo é 10 vezes menor PC que o “Usual”. Nos Cenários 3 e 4, o fato das colunas pretas estarem acima das brancas é porque, nestes Cenários está havendo sequestro de C pelo solo. Outro aspecto importante é que, mesmo no mais intensivo, a produção pecuária seria emissora líquida de CO2.

Corroborando esses resultados um trabalhando comparando fazendas envolvidas em programas de intensificação sustentável tiveram pegadas de C até 36% menores que fazendas que não participam de nenhum programa.

O outro lado da intensificação

O desafio que se tornou o combate ao aquecimento global tem feito com que o foco seja dirigido para ele. É importante não perder de vista que podemos estar deteriorando outros aspectos ambientais ao intensificar a atividade. Essa vigilância pode permitir ajustes de rumo na intensificação de forma a ter um resultado final interessante, inclusive do ponto de vista econômico.

Para mostrar como andam alguns índices ambientais e de intensificação é interessante saber que uma tonelada de carne produzida no Reino Unido usa cinco vezes mais energia, causa 1,5 vezes maior eutrofização, seis vezes mais acidificação e usa 2,5 vezes mais pesticidas do que uma tonelada nas condições médias brasileiras. A pegada de C da tonelada britânica, todavia seria menor. Ao intensificarmos, podemos ficar com uma pegada de C menor, mas certamente pioraremos os demais indicadores, reduzindo as diferenças citadas acima.

A mensagem, portanto, é que precisamos também nos preocupar com outros índices ambientais além da redução de GEE. Uma vez que não é trivial fazer o monitoramento deles, é interessante que procuremos explorar nossa eficiência produtiva em sistemas com menor necessidade de input de recursos, pois, mesmo que não tenhamos as mensurações dos índices sabemos que essa estratégia garante menor impacto ambiental.

Um exemplo disso é que o uso de suplemento no pasto é uma forma conveniente de aumento de produção, mas que pode mascarar manejos de pastagem abaixo do ideal. Nesse caso, trocamos um potencial inexplorado com menor input, por desempenho nem sempre tão maior, mas com maior gasto de energia (do próprio concentrado e a energia dispendida na sua produção e distribuição).

Colocado de outra maneira, a questão é: Estamos usando todo o potencial produtivo das nossas forrageiras? Conhecemos suficientemente as interações entre o fornecimento do suplemento e o aproveitamento da forrageira? Esses são alguns dos pontos em que há oportunidades de, através da experimentação, ter resultados melhores com menor necessidade de recursos externos.

Pecuária de precisão

A pecuária de precisão pode ajudar no aumento da eficiência na produção animal. A nutrição de precisão é uma das ferramentas em destaque para redução da pegada de C, pois dietas balanceadas evitam menor desempenho pelo não atendimento das exigências (subnutrição), bem como, opostamente, evitam perdas ao ambiente do excesso de nutrientes (supernutrição).

O barateamento de sensores e de câmeras dos mais diferentes tipos permite a criação de ferramentas que podem ajudar no monitoramento e automação de atividades, dando condições inéditas de interferência nos processos produtivos. Por exemplo, sensores de temperatura corporal, podem ser usados para melhorar a detecção de estro no campo, auxiliando a obtenção de melhores índices de fertilidade. Também estão sendo desenvolvidas ferramentas que, por detecção de imagem, poderão ajudar a identificar animais que já estejam terminados, evitando mantê-lo mais tempo do que o necessário.

Aplicativos para dispositivos móveis

Uma ferramenta que definitivamente passou a fazer parte de todos nas fazendas é o celular. Ainda que tenhamos problema de cobertura de sinal nas áreas rurais, há um plano de público de universalização que promete, em breve, democratizar o acesso à Internet. Já existem inúmeros aplicativos específicos para pecuária, voltadas para as mais variadas atividades: compra e venda de animais, gestão do rebanho, gerenciamento da reprodução ou nutrição e vários outros.

Recentemente, a Embrapa Gado de Corte lançou o “Pasto Certo” que permite ao usuário identificar/diferenciar cultivares e se informar sobre as principais recomendações e restrições das principais cultivares de forragem do Brasil. Ele ajuda o pecuarista a acertar na escolha da forrageira para sua condição local e seus objetivos, o que tem repercussão por toda a vida útil daquela pastagem. Outro aplicativo, o Suplementa Certo, lançado em julho de 2013 e atualizado em outubro de 2014, ruma para os 30 mil downloads. Ele é uma calculadora de custo benefício, permitindo ao produtor fazer uma escolha consciente sobre a suplementação de determinado lote na seca. Especialmente no caso de simulações envolvendo o uso de proteinados, como usualmente os resultados de benefício:custo costumam ser muito atraentes, o aplicativo acaba estimulando a adoção dessa prática, algo que, de fato, desejava-se quanto ele foi idealizado. Esses são dois exemplos de como tecnologias simples podem ajudar no aumento da eficiência e na redução da pegada de carbono.