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Carne adulterada: fábrica usava corante em espetinhos [Vídeo]

Publicado: 17/01/2026
Carne adulterada: fábrica usava corante em espetinhos [Vídeo]

Fábrica clandestina em Goiânia produzia espetinhos com carne pintada e corantes sem registro sanitário. Delegado mostra apreensão e irregularidades.

Quando o espetinho vira problema de polícia

Tem coisa que a gente acha que só acontece em filme ruim ou naquelas reportagens sensacionalistas de domingo à tarde. Mas não. Semana passada, em Aparecida de Goiânia, a polícia fechou uma fábrica clandestina que produzia espetinhos com carne pintada. Isso mesmo. Pintada.

carne adulterada

O delegado Humberto Teófilo, da Central de Flagrantes, entrou no estabelecimento depois de denúncia e encontrou um cenário que faria qualquer produtor sério de proteína animal sentir vergonha alheia. Duas bacias de carne moída esperando virar linguiça mista, corante artificial sem procedência, sal de cura sem registro sanitário. Tudo ali, pronto pra ir pro mercado como se fosse produto de verdade. E o delegado fez questão de registrar o momento da operação (vídeo no final dessa matéria).

A operação aconteceu na última quinta-feira, dia 15 de janeiro, com apoio da Guarda Municipal. Apreenderam carnes, aditivos, espetinhos já embalados. O dono do negócio foi autuado por infração de medida sanitária preventiva, crime previsto no artigo 268 do Código Penal. Levou um Termo Circunstanciado de Ocorrência e agora vai responder pelo que fez.

Pra quem trabalha sério com pecuária, esse tipo de notícia dói. Dói porque mancha o setor inteiro. Dói porque o produtor que acorda cedo, que investe em sanidade, que segue protocolo, que manda amostra pra laboratório, acaba pagando o pato por gente que decide fazer gambiarra com proteína animal.

O problema não é só sanitário

Vamos ser diretos aqui. Usar corante em carne não é só uma questão de enganar o consumidor. É saúde pública. É crime. Quando você pinta um pedaço de carne pra esconder que ela não está fresca, você está colocando veneno na mesa de alguém. Simples assim.

O sal de cura, quando usado corretamente e com registro, tem função conservante em embutidos. Mas sem controle, sem dosagem técnica, sem fiscalização, vira roleta-russa. Corante artificial sem comprovação sanitária então, nem se fala. Ninguém sabe o que tem ali dentro, qual a origem, se presta ou não presta.

E tem outro lado da história que passa batido. O produtor rural que cria gado, que vende o boi gordo, que negocia arroba, não tem controle nenhum sobre o que acontece lá na ponta. O frigorífico compra, abate conforme as normas, vende pra distribuidores, e aí começa o problema. Quando aparece uma fábrica clandestina dessas, quem sofre é a cadeia inteira.

Porque o consumidor não diferencia. Pra ele, carne ruim é carne ruim. Não importa se veio de um sistema rastreado, com certificação, ou se saiu de um galpão sem alvará com bacia no chão e corante na prateleira.

Aperte o play no vídeo abaixo e confira! (para ver do início atualize a página)

Rastreabilidade que não chega na ponta

A gente fala tanto de rastreabilidade, de bem-estar animal, de certificação sanitária. O Brasil exporta carne pra China, pra Europa, pra mercados que exigem padrão internacional. Mas aqui dentro ainda tem gente vendendo espetinho pintado em feira livre.

É contraditório demais. O país que tem um dos maiores rebanhos comerciais do mundo, que domina tecnologia de confinamento, que faz inseminação artificial em escala, ainda convive com esse tipo de irregularidade básica, primária, inaceitável.

E não adianta só fiscalizar frigorífico grande. Tem que apertar em cima de quem processa, de quem embala, de quem vende. Porque é ali, nesse meio de campo entre o abate e o consumidor final, que mora o perigo. E mora também o prejuízo de imagem pro setor.

O produtor que faz tudo certo, que vacina o rebanho, que respeita período de carência de medicamento, que entrega animal dentro do padrão, fica refém desse tipo de picaretagem. Porque quando estoura escândalo, a mancha é coletiva.

Segurança alimentar começa no pasto e termina no prato

Tem uma coisa que o pessoal da cidade não entende direito. Segurança alimentar não é só plantar sem agrotóxico ou criar boi solto no pasto. É cadeia. É processo. É desde a sanidade do animal até a forma como aquela carne é armazenada, processada e vendida.

Quando você quebra um elo dessa corrente, todo mundo perde. O consumidor perde saúde. O produtor perde mercado. O setor perde credibilidade. E casos como esse de Goiânia mostram que ainda tem muito chão pela frente.

A fiscalização sanitária no Brasil é boa, mas não dá conta de tudo. Falta gente, falta estrutura, falta integração entre os órgãos. E enquanto isso, tem espertalhão montando fábrica clandestina, comprando carne de origem duvidosa, enfiando corante e vendendo como se fosse produto de primeira.

O delegado que comandou a operação mostrou as imagens. Bacia de carne no chão, embalagens sem rótulo adequado, aditivos sem nota fiscal. É o tipo de coisa que faz a gente questionar quantos lugares desses ainda estão funcionando por aí, sem que ninguém saiba.

O recado que fica

Pra quem produz, o recado é claro. Não basta fazer a sua parte. Tem que cobrar que a cadeia toda funcione. Tem que exigir que frigorífico tenha SIF, que distribuidor seja registrado, que ponto de venda respeite norma sanitária. Porque no final das contas, quando dá ruim, o barro respinga em todo mundo.

E pra quem compra, fica o alerta. Desconfie de preço muito baixo. Desconfie de produto sem procedência. Desconfie de carne com cor artificial demais, brilho estranho, aspecto que não bate com o natural. Porque tem gente que literalmente pinta a carne pra enganar seu olho.

Essa história de Aparecida de Goiânia é só mais um capítulo de um problema antigo. Mas serve de lembrete. O agro brasileiro é gigante, é moderno, é eficiente. Mas ainda carrega nas costas um monte de irregularidade que não deveria existir. E enquanto existir, vai continuar manchando quem faz o certo.

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carne

Escrito por

Vicente Delgado

Especialista em notícias e análises do mercado agropecuário.