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Café arábica segue com viés de valorização apesar da pressão externa

Redação
12/01/2026 às 09:06
Café arábica segue com viés de valorização apesar da pressão externa

Estoques globais apertados e custos elevados sustentam preços altos, mesmo com volatilidade forte no mercado internacional.

O café arábica entrou este começo de ano andando em terreno instável. De um lado, o mercado internacional mostra pressão nas cotações, tanto em Nova York quanto no físico interno. Do outro, os fundamentos seguem apertados, com estoques baixos, custo de produção elevado e oferta limitada para exportação. O desafio imediato para o produtor é entender se essa queda recente é ajuste pontual ou sinal de mudança mais profunda na tendência.

O que está acontecendo com os preços do café arábica

Na abertura desta segunda-feira, 12 de janeiro, o indicador CEPEA/ESALQ para o arábica em São Paulo foi cotado a R$ 2.225,39 por saca de 60 kg, registrando queda de 1,80%. Em Nova York, na ICE Futures US, os contratos com vencimento em março de 2026 fecharam a US$ 436,00 por saca no dia 9 de janeiro, com recuo de 3,32%.

Esse movimento não veio sozinho. O robusta também opera sob pressão, com queda no mercado interno e recuo nos contratos de Londres. Ou seja, não é um problema exclusivo do arábica brasileiro. É um ajuste mais amplo do mercado internacional, típico de momentos em que o financeiro pesa mais que o físico.

O ponto é que essa pressão acontece em um mercado que já vinha precificando escassez. Por isso, cada queda chama atenção e gera dúvida na mesa do produtor sobre o melhor momento de vender ou segurar.

Estoques globais baixos seguem no comando do mercado

Quando a gente sai do gráfico e olha o fundamento, a história muda de tom. Os estoques globais de café seguem historicamente baixos. Mesmo com a colheita em andamento no Vietnã, a disponibilidade não é confortável. Um sinal claro disso aparece nos dados de certificados de origem.

Até 2 de janeiro, os pedidos somaram apenas 222.828 sacas, bem abaixo das 462.520 sacas registradas no mesmo período do ano anterior. Na prática, isso indica menos café circulando no mercado internacional, o que limita qualquer movimento mais forte de queda sustentada.

É esse aperto de estoque que mantém os preços em patamares elevados, mesmo quando a bolsa corrige. O mercado até tenta testar níveis mais baixos, mas encontra dificuldade em sustentar esse movimento.

Produção 2025/26 melhora, mas não sobra café

A produção brasileira da safra 2025/26 é outro ponto central na leitura de valorização do arábica. A estimativa oficial aponta 62,8 milhões de sacas, sendo 38,7 milhões de arábica e 24,1 milhões de robusta. Existe, sim, uma recuperação parcial do arábica, principalmente em relação ao ciclo anterior.

Algumas consultorias trabalham com números mais otimistas, acima de 70 milhões de sacas. Mesmo assim, o consenso é que a oferta continua limitada quando comparada ao crescimento da demanda ao longo dos últimos anos e à necessidade de recomposição de estoques globais.

Na prática, isso significa que qualquer frustração climática, problema logístico ou atraso de colheita pode rapidamente devolver prêmio ao mercado. O café segue sensível a notícias negativas.

Custos de produção continuam puxando o piso do preço

Outro fator que sustenta o viés de valorização do arábica está dentro da porteira. Os custos de produção seguem elevados, pressionando a margem do produtor. Insumos, mão de obra e manejo mais intensivo não permitem que o café seja produzido a preços muito mais baixos sem estrangular a rentabilidade.

Esse cenário já levou a indústria a sinalizar reajustes de preços ao longo de 2026. Quando o custo sobe na base da cadeia, o mercado acaba sendo obrigado a reconhecer esse piso mais alto, mesmo que haja momentos de ajuste técnico nas bolsas.

Na prática, o produtor sente isso no bolso quando faz conta de custo por saca. Vender abaixo desse patamar não fecha a conta, especialmente para quem trabalha com arábica de qualidade superior.

Câmbio e exportação entram como variável-chave

O câmbio também pesa nessa equação. Com o dólar cotado a R$ 5,37, a exportação segue remunerando bem em reais, mesmo com a queda recente em Nova York. Isso ajuda a dar sustentação ao mercado físico brasileiro.

Por outro lado, a expectativa é de menor volume exportado na safra 2025/26 em relação a temporadas anteriores, justamente pela menor disponibilidade interna. Menos café disponível para embarque significa disputa maior pelo produto de qualidade.

Esse jogo entre bolsa, câmbio e físico exige atenção redobrada do produtor na hora de fechar negócio, principalmente para quem ainda tem volume relevante para comercializar.

Volatilidade deve continuar em 2026

Pesquisadores do CEPEA indicam que 2026 será marcado por elevada volatilidade. Os preços tendem a permanecer em níveis altos no curto prazo, mas com oscilações fortes, tanto para cima quanto para baixo.

A CEO da Illycaffè projeta preços entre US$ 2,80 e US$ 3,00 por libra peso ao longo de 2026, reforçando a leitura de que o mercado não trabalha com queda estrutural neste momento. Soma-se a isso um ambiente de incerteza econômica e política global, especialmente no primeiro trimestre do ano.

Esse cenário reduz a chance de uma acomodação tranquila dos preços. O café deve continuar reagindo a qualquer notícia de oferta, demanda ou macroeconomia.

Estratégias práticas para o produtor de arábica

Diante desse quadro, o produtor precisa sair do modo emocional e entrar no modo gestão. Algumas linhas práticas ajudam na tomada de decisão:

  • Evitar venda concentrada: em ambiente volátil, escalonar vendas reduz risco.
  • Usar travas parciais quando o preço cobre custo e deixa margem.
  • Olhar o basis no mercado físico, não apenas a bolsa.
  • Avaliar fluxo de caixa antes de segurar todo o volume.
  • Priorizar qualidade, que tende a manter prêmio mesmo em ajuste de mercado.

O que muda a conversa é entender que o mercado pode corrigir, mas o fundamento ainda conversa com preços firmes.

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