Apesar dos danos causados ao meio ambiente no vale do Rio Doce pelo rompimento das barragens do Fundão e de Santarém, no município de Mariana (MG), as áreas degradadas tanto pelo processo erosivo quanto pela deposição de lama podem ser recuperadas com o uso de técnicas de revegetação e outras tecnologias e conhecimentos disponíveis pela pesquisa. O prazo varia entre alguns poucos anos para a cobertura vegetal inicial até mais de uma década, de acordo com o processo e nível de degradação.
Ao longo da área degradada, as análises do solo das amostras coletadas não detectaram a presença de metais pesados em níveis tóxicos. A conclusão é de um estudo realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, a pedido do Governo de Minas, numa ação conjunta da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Emater-MG e Epamig.
Os danos ambientais aconteceram em 5 de novembro, causados por uma avalanche de lama formada por resíduos de mineração, que erodiu as margens e cobriu áreas mais próximas às barragens; destruiu áreas urbanas e causou poluição das águas desde o local do rompimento até a foz do Rio Doce, no Oceano Atlântico.
Segundo diagnóstico preliminar produzido pela Embrapa a partir de parceria com a Emater-MG, uma área de 1.430 hectares de solos foi recoberta pela lama de mineração, com espessura variável em função da proximidade da barragem. Os danos ocorreram ao longo do vale dos rios Gualaxo do Norte e do Carmo, até próximo à confluência com o rio Piranga, com o qual dá origem ao rio Doce no Estado de Minas Gerais.
Ainda conforme o diagnóstico, boa parte dessas áreas pode ser considerada como de Preservação Permanente (APPs Fluviais), por se tratarem de áreas ribeirinhas e, obrigatoriamente, deverá ser recuperada e preservada, independentemente do seu uso anterior ou atual. Ou seja, tais áreas devem seguir as novas orientações definidas pelo Código Florestal vigente, delimitando as áreas de Áreas de Proteção Permanente ou APPs riparias e as áreas passíveis de exploração agrícola.
Expertise
A Embrapa organizou um Grupo de Trabalho envolvendo pesquisadores de diversas Unidades para tratar do assunto. Os coordenadores do grupo, Celso Manzatto e Lucio Brunale, explicam que, mesmo com todas as dificuldades impostas pela situação, a Empresa dispõe de competências técnicas e expertise para garantir uma reconstituição da área, ainda que com prazo variável que pode chegar a mais de uma década no caso de árvores ou de agricultura. No caso de mata ciliar ou vegetação, com a adoção de tecnologias e o conhecimento disponíveis, é possível em alguns poucos anos estabelecer uma cobertura vegetal na região afetada. Assim, é possível ter o renascimento do verde na região, mesmo que sem características idênticas às originais.
A tecnologia hoje disponível permite contribuir na definição de espécies vegetais e modelos de revegetação para recuperação da matéria orgânica do solo, estabilização de áreas com risco de deslizamento, recomposição de matas ciliares e de outras áreas de preservação permanente, bem como para o reflorestamento com espécies madeireiras e não madeireiras.
“É possível que novos conhecimentos sejam necessários para avançarmos na recuperação do solo”, explica o pesquisador José Carlos Polidoro, da Embrapa Solos (Rio de Janeiro, RJ), que coordenou a coleta das amostras analisadas.
