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Algodão atinge menor preço em mais de 01 década

Redação
02/10/2025 às 12:16
Algodão atinge menor preço em mais de 01 década

O valor médio de setembro para o algodão em pluma acende um alerta no campo

Setembro de 2025 se encerrou com uma notícia desafiadora para os cotonicultores brasileiros. Após meses de trabalho intenso e a expectativa de uma colheita recorde, o mercado reagiu de forma contrária ao esperado, com os preços despencando.

Segundo dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, o Indicador do algodão em pluma registrou seu menor patamar em mais de dez anos, um cenário que não era visto desde fevereiro de 2015. Essa queda expressiva reflete uma combinação de alta oferta interna, compradores cautelosos e pressões do mercado internacional. Entender esses fatores é fundamental para que o produtor possa navegar por este momento complexo e planejar os próximos passos com mais segurança.

Entendendo a queda no valor médio de setembro

O principal indicador dessa tendência de baixa é o valor médio de setembro. O levantamento do Cepea aponta que o mês marcou o quarto recuo consecutivo nas cotações. A média do Indicador CEPEA/ESALQ, com pagamento em 8 dias, caiu 6,6% em comparação com agosto de 2025 e ficou 8,26% abaixo da registrada no mesmo período do ano anterior. Em termos reais, ajustados pelo IGP-DI, o valor médio de setembro é o mais baixo em uma década, o que impacta diretamente a rentabilidade do produtor que está em plena fase de comercialização da safra.

A explicação para essa pressão vem de uma lógica clássica de mercado. Com a colheita da safra 2024/25 praticamente finalizada e o beneficiamento da pluma avançando rapidamente, a disponibilidade do produto no mercado spot nacional aumentou consideravelmente. De um lado, produtores e traders precisam “fazer caixa” e se mostram mais flexíveis nas negociações. Do outro, as indústrias e compradores, cientes da grande oferta, seguem ofertando preços mais baixos, testando o limite dos vendedores. Esse cabo de guerra resultou na desvalorização observada ao longo do último mês.

Safra recorde: o paradoxo da abundância

A safra 2024/25 foi marcada por um desempenho excepcional no campo. Estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) confirmam uma produção histórica, consolidando o Brasil como um dos maiores produtores e exportadores mundiais. Essa produtividade é fruto de investimentos em tecnologia, manejo adequado e condições climáticas favoráveis em muitas regiões produtoras. No entanto, o sucesso na lavoura gerou o que é conhecido como o paradoxo da abundância, onde uma oferta muito grande acaba por pressionar os preços para baixo.

Pesquisadores do Cepea destacam que esse cenário mantém elevada a disponibilidade de algodão no mercado spot nacional, levando alguns vendedores a ficar mais flexíveis nos valores pedidos. Já compradores ativos seguem ofertando preços ainda menores.

Essa realidade mostra que produzir muito não é o único desafio; a comercialização estratégica é igualmente crucial. A grande quantidade de pluma disponível ao mesmo tempo cria um ambiente favorável aos compradores, que conseguem negociar melhores condições. Para o produtor, o baixo valor médio de setembro significa que a receita obtida por saca pode não cobrir as altas expectativas geradas por uma safra tão produtiva, exigindo um controle de custos ainda mais rigoroso.

O peso do mercado global na cotação doméstica

O algodão é uma commodity global, e o que acontece em outros países impacta diretamente o preço pago ao produtor brasileiro. O relatório do Cepea menciona que as “recentes desvalorizações externas” contribuíram para o cenário de baixa. Isso significa que a queda nos preços internacionais, refletida em bolsas como a de Nova York (ICE Futures) e no índice Cotlook A, serve como referência para o mercado interno. Quando o preço lá fora cai, a pressão sobre as cotações no Brasil aumenta, pois o nosso algodão compete diretamente com o de outros grandes players, como Estados Unidos e Índia.

A demanda de grandes compradores internacionais, como China, Vietnã e Bangladesh, também é um fator determinante. Qualquer sinal de desaceleração na indústria têxtil desses países pode reduzir a procura pelo algodão brasileiro, contribuindo para a queda de preços. Portanto, o cotonicultor precisa estar atento não apenas ao clima e à lavoura, mas também às notícias econômicas que vêm do outro lado do mundo. Manter-se informado através de fontes confiáveis, como a Embrapa Algodão, é essencial para antecipar movimentos do mercado.

Estratégias para o produtor em tempos de baixa

Diante de um valor médio de setembro tão desfavorável, a pergunta que fica é: o que fazer? Vender agora para garantir liquidez ou esperar por uma possível recuperação dos preços? Não há uma resposta única, mas algumas estratégias podem ajudar o produtor a mitigar os prejuízos e otimizar seus resultados. É um momento que exige análise e planejamento cuidadoso, considerando a realidade de cada propriedade.

  • Gerenciamento de custos: Revisar detalhadamente a planilha de custos da safra é o primeiro passo. Saber exatamente qual é o seu custo de produção por arroba ajuda a definir um preço mínimo de venda e a tomar decisões mais assertivas.
  • Comercialização escalonada: Em vez de vender toda a produção de uma só vez, uma tática é vender em lotes. Isso permite aproveitar possíveis janelas de alta nos preços ao longo dos próximos meses, diluindo o risco de vender tudo no pior momento.
  • Armazenamento estratégico: Para quem possui estrutura ou acesso a armazéns de qualidade, guardar uma parte da produção pode ser uma opção viável para aguardar uma melhora do mercado. Contudo, é preciso calcular os custos de armazenagem e a possível perda de qualidade da pluma.
  • Ferramentas de gestão de risco: O mercado futuro e outras ferramentas de hedge podem ser utilizados para travar um preço de venda para parte da safra futura, garantindo uma receita mínima e protegendo contra novas quedas.

O cenário atual, com um valor médio de setembro em níveis historicamente baixos, é sem dúvida um grande desafio. Ele testa a resiliência e a capacidade de gestão do cotonicultor brasileiro. No entanto, também reforça a importância da eficiência produtiva e da busca contínua por informação de qualidade. A capacidade do Brasil de produzir uma pluma de alta qualidade e com sustentabilidade reconhecida internacionalmente continua sendo um grande diferencial competitivo. A superação deste ciclo de baixa dependerá da combinação entre planejamento estratégico, gestão de riscos e a atenção constante às dinâmicas de um mercado cada vez mais globalizado.

AGRONEWS é informação para quem produz

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