Os ciclones extratropicais são extremamente importantes para a manutenção das chuvas nas bacias, porém também apresentam impactos negativos para o setor de energia, principalmente para as concessionárias de transmissão e distribuição de energia

Dois episódios de formação de ciclone bomba receberam grande destaque na mídia brasileira nos meses de junho e de setembro de 2020. Os episódios foram responsáveis por ocorrências de tempo severo no Sul do Brasil, acompanhados de ventania de até 60 km/h no interior do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina e ventos mais intensos, de até 90 km/h na região entre o litoral norte gaúcho e a costa sul catarinense. As empresas de distribuição e transmissão de energia parceiras da Climatempo costumam acompanhar de perto com nossa equipe de meteorologistas o desenvolvimento e deslocamento deste fenômeno meteorológico. Infelizmente não conseguimos deter a ação do sistema, mas um alerta unido ao planejamento efetivo pode não só evitar grandes prejuízos, como também salvar vidas.

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Como estamos nos aproximando do segundo semestre de 2021, vamos falar um pouco sobre a parte técnica de formação e atuação destes fenômenos no Brasil, seus impactos no setor de energia e como podemos nos planejar.

É importante ressaltar que por definição os ciclones são sistemas meteorológicos associados a áreas de baixa pressão em superfície (Petterssen, 1956) que modificam as condições de tempo e de Clima das regiões em que atuam, sendo responsáveis pela formação de grandes áreas de nebulosidade associadas a episódios de chuva e vento intenso. Existem três tipos de ciclones que a princípio podem ser classificados de acordo com a faixa de latitude em que ocorrem: tropical (5° e 20°), subtropical (15° e 35°) e extratropical (sul de 25°).

Diferença Entre os Tipos de Ciclones

No entanto, estes ciclones apresentam diferentes mecanismo de gênese (ciclogênese) e de dissipação (ciclólise). A principal diferença está no processo de formação, que resulta em sistemas com diferentes estruturas verticais. Os ciclones subtropicais e tropicais apresentam núcleos de baixa pressão sobrepostos em diferentes níveis da atmosfera, como se estivessem “empilhados” um sobre o outro, desde a superfície até níveis mais altos da atmosfera. O centro de baixa pressão dos ciclones extratropicais, por outro lado, não são alinhados na vertical. As áreas de baixa pressão em altitude ficam deslocadas ou inclinadas para oeste em relação ao centro de baixa em superfície (Figura 1). Para formação deste tipo de sistema, é necessário gradientes horizontais de temperatura em superfície (baroclinia) e a proximidade com um cavado na alta ou média troposfera.

Figura 1: Estrutura vertical dos diferentes tipos de ciclones
Figura 1: Estrutura vertical dos diferentes tipos de ciclones

Gradientes de temperatura são observados ao longo do oceano Atlântico Sul, de forma que resultam na formação de três regiões ciclogenéticas (área favorável a formação de ciclones, indicada por RC na Figura 2), localizadas no sul da Argentina, na costa do Uruguai e na costa Sul/Sudeste do Brasil, respectivamente (Reboita et al., 2009).

Figura 2: Densidade de ciclogêneses (10-4 km-2) no período de 1990 a 1999, que se iniciaram com vorticidade menor ou igual a -1,5×10-5s-1. Adaptado de Reboita et al. (2010)
Figura 2: Densidade de ciclogêneses (10-4 km-2) no período de 1990 a 1999, que se iniciaram com vorticidade menor ou igual a -1,5×10-5s-1. Adaptado de Reboita et al. (2010)

Ciclones no Setor de Energia

Para a matriz energética brasileira, que ainda é extremamente dependente da geração hídrica, os ciclones extratropicais são extremamente importantes para a manutenção das chuvas nas bacias e reservatórios do Sul do Brasil devido a formação e passagem de sistemas frontais, principalmente nos meses de inverno. Já para o Sudeste e Centro-Oeste brasileiro, este sistema também impacta diretamente a posição da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), um dos principais sistemas meteorológicos atuantes da estação chuvosa (Robertson e Mechoso, 2000; Cavalcanti, 2006).

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Porém, os ciclones também apresentam impactos negativos para o setor de energia, principalmente para as concessionárias de transmissão e distribuição de energia. Para as empresas de distribuição de energia, os ciclones mais intensos tendem a causar sérios impactos na rede elétrica principalmente devido a ação do vento e queda de árvores. Este combo (vento + árvores) é extremamente perigoso para a população, pode causar grandes danos urbanos e também impacta diretamente nos indicadores de continuidade das concessionárias. Visto este cenário, a Climatempo desenvolveu em 2019 um índice de criticidade que prevê através de inteligência artificial a % de CHI (Cliente hora interrompido) por microrregiões da área de distribuição com até 72 horas de antecedência. Esta tecnologia retira a subjetividade humana do operador no despacho das equipes e pode auxiliar na redução do DEC principalmente. Este projeto já virou um produto operacional e está disponível em nosso sistema de monitoramento e alerta (SMAC).