Projeto transforma espaços ociosos em verdadeiras hortas urbanas e estimula cultivo orgânico em Roraima.

Ter um quintal à disposição e vontade para aprender a cultivar os próprios alimentos unem famílias carentes participantes de um projeto inovador em Roraima. São os ‘Quintais Sustentáveis’, uma iniciativa da Embrapa em parceria com o Lar Fabiano de Cristo (unidade Casa de Timóteo) e fomento do CNPq, que busca estimular a produção e consumo de hortaliças, frutas e plantas medicinais em quintais de Boa Vista.

Iniciado em 2018 e com duração prevista de dois anos, o projeto tem em seus pilares a produção sustentável de base agroecológica, a segurança alimentar e nutricional, geração de renda e inclusão social e produtiva de públicos em situação de vulnerabilidade.

‘As pessoas não imaginam o potencial produtivo de um simples quintal’, diz Rafael Porto, pesquisador da Embrapa e coordenador do projeto. O agrônomo explica que, por meio de técnicas simples e acessíveis, qualquer pessoa pode explorar espaços dentro de áreas urbanas e periurbanas, conseguindo obter uma variedade interessante de frutas e hortaliças.

A ideia é qualificar as famílias para a produção sustentável, contribuindo para a diversificação alimentar e inclusão de produtos mais saudáveis e nutritivos nas refeições diárias. Para isso, o projeto vem realizando cursos e oficinas práticas sobre o cultivo orgânico, produção de adubo, técnicas de compostagem, uso racional da água e formas de aproveitamento dos alimentos.

A iniciativa também busca estimular o comércio dos produtos excedentes gerados pelas famílias em feiras e comércios locais. Esse viés, inclusive, já foi colocado em prática durante III Simpósio de Agroecologia, evento que ocorreu em Boa Vista, no final de 2018. Participantes do projeto foram convidados a integrar as atividades do Simpósio, levando para comercialização alimentos cultivados em seus espaços domésticos.

O resultado foi mais que positivo. Além do incremento da renda, a participação no evento mostrou uma oportunidade de negócio para as famílias, que fizeram contato com chefes de restaurantes e potenciais consumidores. “Na verdade, as possibilidades são várias, incluindo a produção de mudas e também de composto orgânico para venda”, revela o pesquisador.

Atualmente, o projeto conta com 11 famílias participantes e estimativa de chegar a 15 até o final de 2019. Já o alcance indireto é maior, estimado em mais de 300 pessoas, uma vez que as famílias atendidas também funcionam como multiplicadores junto a sua comunidade.

Para o corpo e mente

Moradora do bairro Nova Cidade, localizado na periferia de Boa Vista-RR, Dona Gisaura foi uma das primeiras participantes a ter o seu quintal transformado. Antes de conhecer o projeto, tinha pouco contato com hortas. Hoje, já está produzindo alface, cebolinha, coentro, tomate, rabanete e cenoura, além do próprio composto orgânico. “Acho que tenho uma mão boa para isso, pois tudo que planto está brotando, crescendo e florando”, revela.

Além do aprendizado sobre adubação, plantio e controle de doenças, a dona de casa destaca a melhoria na alimentação da família como um dos principais ganhos. “Tudo que cultivo é livre de agrotóxico, feito de forma natural. A alimentação lá de casa está muito mais saudável agora”, afirma.

Para ela, a atividade na horta trouxe ainda outro benefício. “Funciona como uma terapia, um momento para desestressar dos problemas do cotidiano. Quando estou mexendo nas plantas, esqueço do mundo, fico até mais relaxada”, conta.

Entre os planos futuros, está a ampliação da horta. “Quero plantar berinjela, maxixe e quiabo”. A berinjela foi apresentada à Dona Gisaura em uma das oficinas realizadas. Nesses momentos, além das questões técnicas, também são repassadas informações sobre a preparação e utilização das verduras e legumes, com degustação de receitas, tudo para incentivar ainda mais o consumo de produtos naturais pelas famílias.