Sem quebra climática no país vizinho, o jogo é de preço, fluxo comercial e decisão fria na venda.
O burburinho sobre possíveis restrições climáticas na Argentina não se confirma nos dados oficiais. O ponto central para quem lida com trigo neste início de 2026 é outro: a Argentina caminha para uma safra recorde, com impacto direto sobre preços, importações e o espaço do trigo brasileiro no mercado externo. Para o produtor, o desafio é entender onde ainda existe margem e quando faz sentido segurar ou girar estoque.
O que realmente está acontecendo com o trigo argentino?
Segundo dados compilados pelo Cepea a partir de informações da Bolsa de Cereais de Buenos Aires, a safra argentina 2025/26 é estimada em 27,8 milhões de toneladas, volume recorde. Não há, até o momento, alertas de perdas climáticas relevantes. As lavouras seguem férteis e o clima tem favorecido tanto a produção quanto o ritmo de exportação.
Na prática, isso muda completamente a leitura de mercado. Em vez de um cenário de restrição de oferta, o que se vê é trigo sobrando no nosso principal fornecedor, com agressividade comercial para colocar produto no mercado internacional.
Preços pressionados e produtor brasileiro na defensiva
Do lado dos preços, o sinal é claro. O Cepea aponta quedas expressivas nos preços do trigo ao longo de 2025, movimento que desestimulou o produtor brasileiro. No começo de 2026, não houve recuperação consistente, o que travou decisões de investimento e limitou reação de área.
Esse ambiente explica por que a área de plantio segue estagnada no primeiro semestre de 2026. Com custo de produção conhecido e preço incerto, o produtor joga na defesa. O problema é que essa postura mantém o Brasil dependente de importações justamente quando o vizinho está com trigo abundante e competitivo.
Importações, exportações e o balanço interno
Os números da Conab para o período de agosto de 2025 a julho de 2026 ajudam a colocar o cenário no chão da fazenda e do armazém:
- Importações: 6,7 milhões de toneladas, concentradas entre dezembro de 2025 e julho de 2026.
- Disponibilidade interna: acima de 16 milhões de toneladas, crescimento de 5,3% frente à temporada anterior.
- Consumo doméstico: 11,8 milhões de toneladas.
- Exportações brasileiras: 2,24 milhões de toneladas.
- Estoques finais: 2 milhões de toneladas em julho de 2026, o equivalente a 8,7 semanas de consumo, o maior nível desde 2020.
O ponto é que as exportações brasileiras ajudam a aliviar a pressão interna, mas não resolvem o problema estrutural. Com importações volumosas e estoques elevados, o mercado físico segue pesado, principalmente nas regiões mais próximas dos portos e dos moinhos.
Argentina exportando forte e mudando destinos
Outro fator que o produtor precisa acompanhar é a mudança no fluxo do trigo argentino. Em novembro de 2025, o país registrou exportações recordes de 1,2 milhão de toneladas. E um detalhe importante: o Brasil deixou de ser o principal destino.
Dados da Bolsa de Comércio de Rosário mostram Indonésia e Vietnã na liderança das compras. Isso indica duas coisas práticas:




