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Trigo e exportações brasileiras diante da safra cheia na Argentina

Redação
13/01/2026 às 10:38
Trigo e exportações brasileiras diante da safra cheia na Argentina

Sem quebra climática no país vizinho, o jogo é de preço, fluxo comercial e decisão fria na venda.

O burburinho sobre possíveis restrições climáticas na Argentina não se confirma nos dados oficiais. O ponto central para quem lida com trigo neste início de 2026 é outro: a Argentina caminha para uma safra recorde, com impacto direto sobre preços, importações e o espaço do trigo brasileiro no mercado externo. Para o produtor, o desafio é entender onde ainda existe margem e quando faz sentido segurar ou girar estoque.

O que realmente está acontecendo com o trigo argentino?

Segundo dados compilados pelo Cepea a partir de informações da Bolsa de Cereais de Buenos Aires, a safra argentina 2025/26 é estimada em 27,8 milhões de toneladas, volume recorde. Não há, até o momento, alertas de perdas climáticas relevantes. As lavouras seguem férteis e o clima tem favorecido tanto a produção quanto o ritmo de exportação.

Na prática, isso muda completamente a leitura de mercado. Em vez de um cenário de restrição de oferta, o que se vê é trigo sobrando no nosso principal fornecedor, com agressividade comercial para colocar produto no mercado internacional.

Preços pressionados e produtor brasileiro na defensiva

Do lado dos preços, o sinal é claro. O Cepea aponta quedas expressivas nos preços do trigo ao longo de 2025, movimento que desestimulou o produtor brasileiro. No começo de 2026, não houve recuperação consistente, o que travou decisões de investimento e limitou reação de área.

Esse ambiente explica por que a área de plantio segue estagnada no primeiro semestre de 2026. Com custo de produção conhecido e preço incerto, o produtor joga na defesa. O problema é que essa postura mantém o Brasil dependente de importações justamente quando o vizinho está com trigo abundante e competitivo.

Importações, exportações e o balanço interno

Os números da Conab para o período de agosto de 2025 a julho de 2026 ajudam a colocar o cenário no chão da fazenda e do armazém:

  • Importações: 6,7 milhões de toneladas, concentradas entre dezembro de 2025 e julho de 2026.
  • Disponibilidade interna: acima de 16 milhões de toneladas, crescimento de 5,3% frente à temporada anterior.
  • Consumo doméstico: 11,8 milhões de toneladas.
  • Exportações brasileiras: 2,24 milhões de toneladas.
  • Estoques finais: 2 milhões de toneladas em julho de 2026, o equivalente a 8,7 semanas de consumo, o maior nível desde 2020.

O ponto é que as exportações brasileiras ajudam a aliviar a pressão interna, mas não resolvem o problema estrutural. Com importações volumosas e estoques elevados, o mercado físico segue pesado, principalmente nas regiões mais próximas dos portos e dos moinhos.

Argentina exportando forte e mudando destinos

Outro fator que o produtor precisa acompanhar é a mudança no fluxo do trigo argentino. Em novembro de 2025, o país registrou exportações recordes de 1,2 milhão de toneladas. E um detalhe importante: o Brasil deixou de ser o principal destino.

Dados da Bolsa de Comércio de Rosário mostram Indonésia e Vietnã na liderança das compras. Isso indica duas coisas práticas:

  • A Argentina está competitiva o suficiente para disputar mercados mais distantes.
  • Quando o Brasil entra comprando, disputa preço com players globais, não apenas regionais.

Na prática, isso reduz o poder de barganha do comprador brasileiro e mantém o trigo importado como referência de preço no mercado interno.

Câmbio e exportação: ajuda limitada, mas necessária

Mesmo sem números específicos de câmbio neste momento, o mecanismo é conhecido. Um real mais fraco tende a estimular exportações brasileiras e dar algum fôlego ao preço interno. O problema é que, com oferta argentina elevada, essa ajuda é parcial.

O produtor sente isso no bolso quando vê oportunidades pontuais de exportação surgirem, mas com volumes e prêmios limitados. Não é um mercado que absorve tudo nem sustenta altas prolongadas.

Onde entra a decisão do produtor?

Sem restrição climática na Argentina e com estoques confortáveis no Brasil, a estratégia precisa ser pragmática:

  • Gestão de fluxo de caixa: quem tem custo apertado não pode esperar reação forte de preço que pode não vir.
  • Venda escalonada: aproveitar janelas de exportação ou melhora pontual de basis ajuda a diluir risco.
  • Atenção ao frete: em mercado pressionado, frete mal negociado come margem rapidamente.
  • Planejamento de área: trigo entra mais como ferramenta de rotação e cobertura do que como aposta de rentabilidade isolada.

O que muda a conversa é entender que o problema não é clima na Argentina, é excesso de oferta. Enquanto isso não mudar, o mercado segue pesado.

Alerta final para quem produz trigo

Importações argentinas continuam pressionando os preços domésticos. As exportações brasileiras ajudam, mas não eliminam a dependência externa. Os dados do Cepea e da Conab mostram um mercado abastecido e com estoques elevados.

Na prática, decisão boa é decisão fria. Margem vem mais da gestão do que da expectativa de alta.

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