Oferta global segue ampla, mas o conflito mantém o mercado em alerta e trava decisões na porteira.
O trigo entra em 2026 com um pano de fundo que confunde muita gente no campo. De um lado, guerra em regiões estratégicas do mercado mundial, ruído geopolítico, incerteza logística. Do outro, preços pressionados, oferta ampla e pouca reação tanto no Brasil quanto em Chicago. O desafio imediato para o produtor é separar risco real de risco percebido e decidir se vale insistir na cultura, reduzir área ou apenas segurar o custo e esperar uma janela melhor.
Onde estão os preços e o que eles estão dizendo
No mercado físico brasileiro, os números mostram um trigo ainda pesado. Segundo o Cepea, em 12 de janeiro de 2026 o trigo no Paraná foi cotado a R$ 1.174,75 por tonelada, com leve queda diária. No Rio Grande do Sul, R$ 1.050,37 por tonelada, pequena alta, mas insuficiente para mudar o humor do mercado. O indicador geral Cepea ficou em R$ 1.183,56 por tonelada no início de janeiro, praticamente estável.
O ponto é que essas referências vêm depois de quedas expressivas ao longo de 2025, o que desestimula a atratividade da cultura em 2026. Na prática, o produtor sente isso no bolso quando faz a conta do custo de produção e percebe que a margem está apertada, especialmente em áreas arrendadas ou com pacote tecnológico mais pesado.
Na bolsa de Chicago, os contratos de trigo para 2026 também não ajudam a animar. Março/26 trabalha ao redor de US$ 5,1125 por bushel, maio/26 a US$ 5,2275 e julho/26 perto de US$ 5,3575 por bushel. O mercado internacional, que costuma reagir rápido a conflitos, segue devolvendo prêmio de risco.
A guerra afeta o trigo mundial ou só o noticiário?
Essa é a pergunta que mais aparece nas conversas de escritório e cooperativa. E a resposta, com base nos dados disponíveis até janeiro de 2026, é direta: não há impacto mensurável da guerra sobre a oferta global neste momento. O próprio Cepea destaca que a oferta mundial segue ampla e isso é o principal fator por trás dos preços baixos.
O efeito da guerra hoje é mais psicológico e estratégico do que físico. Ela aumenta a volatilidade potencial, encarece seguros, deixa tradings mais cautelosas e faz o mercado manter um prêmio de risco engatilhado. Mas enquanto os grandes produtores globais colhem bem e os estoques não apertam, esse prêmio não se materializa em preço.
Na prática, o mercado só precificaria a guerra de forma mais agressiva se houvesse quebra efetiva de produção, bloqueio logístico relevante ou restrição comercial direta. Nenhum desses fatores aparece de forma concreta nos dados de início de 2026.
Oferta mundial e a pressão que vem de fora
Quando se olha para o balanço global, fica mais fácil entender por que o trigo não reage. A Argentina, principal fornecedora do Brasil, caminha para uma produção recorde de 27,8 milhões de toneladas na safra 2025/26, segundo a Bolsa de Cereais de Buenos Aires. Esse trigo entra no mercado regional com competitividade e pressiona diretamente os preços domésticos.
No Brasil, a Conab projeta importações de 6,7 milhões de toneladas no ciclo agosto de 2025 a julho de 2026. A disponibilidade interna passa de 16 milhões de toneladas, crescimento de 5,3% frente ao período anterior. O consumo doméstico é estimado em 11,8 milhões de toneladas, com exportações de 2,24 milhões e estoques finais próximos de 2 milhões de toneladas em julho de 2026.
O que muda a conversa é que o Brasil segue estruturalmente dependente de trigo importado. Mesmo com guerra no radar, a entrada de produto argentino e de outros origens mantém o mercado abastecido. Em 2025, as importações já tinham sido recordes, acima de 6,8 milhões de toneladas, reforçando essa pressão.




