Os resíduos das indústrias estão sendo cada vez mais utilizados como matérias-primas para outros produtos.
Esta prática que está inserida no conceito de biorrefinaria, em que tudo é aproveitado, gerando produtos de valor agregado e mitigando resíduos potencialmente poluidores. É neste contexto de economia circular que a Embrapa Agroenergia desenvolve a maior parte das suas pesquisas. Em janeiro deste ano, quando foi credenciada como unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial – EMBRAPII, a Embrapa Agroenergia ganhou mais uma ferramenta para promover projetos em colaboração com indústrias e empresas privadas.
Bruno Brasil, pesquisador da Embrapa Agroenergia e coordenador Unidade EMBRAPII nesta Unidade de pesquisa, explica que o recurso financeiro aportado pela Embrapii fica a disposição da Embrapa para contratação de projetos em parceria com o setor industrial. “A partir do momento em que o contrato for assinado entre a Embrapa e a empresa parceira, o recurso financeiro já é disponibilizado para começar a execução do projeto” esclarece Bruno.
Serão desenvolvidos ativos tecnológicos com foco em inovação para o setor industrial. Uma vez desenvolvidos, os ativos passíveis de proteção industrial serão depositados no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), em cotitularidade entre a Embrapa e a empresa. A exploração econômica desse ativo poderá ser realizada exclusivamente por parte da empresa parceira, sendo isso definido desde a assinatura do contrato do projeto. “Assim a empresa pode recuperar seu investimento e ainda aumentar sua competitividade”, destaca Bruno Brasil.
Os microrganismos
A Embrapa Agroenergia desenvolve trabalhos com microrganismos desde 2007, com destaque para processos fermentativos relacionados à produção de etanol e outros químicos renováveis, ao uso de efluentes ou resíduos para produção do biogás e à produção de pigmentos e óleos especiais de algas. Outro ponto forte é a linha de pesquisa sobre enzimas visando à desconstrução de biomassa celulósica para produção de etanol de 2° geração e novas aplicações para os setores industriais oleoquímico, têxtil e de nutrição animal.
Uma das missões da Embrapa Agroenergia é mostrar que os microrganismos não só tem aplicação na parte de agroindústria de alimentos, mas também em indústria química, de energia e de materiais. Os trabalhos desenvolvidos na Unidade compreendem: Microrganismos para produção de biocombustíveis e geração de energia; Microrganismos para produção de químicos renováveis e biomateriais; Microrganismos para remediação e agregação de valor a resíduos e subprodutos agroindustriais; Enzimas de origem microbiana para uso industrial; Enzimas produzidas por microrganismos geneticamente modificados; e Processos enzimáticos para transformação de biomassa e seus derivados.
Bruno relata que os microrganismos são peças chave para atender de forma eficaz as demandas na transição de uma economia baseada em fontes fósseis para a bioeconomia. “Microrganismos são vistos em uma biorrefinaria como um agente transformador de matéria-prima. A diversidade de microrganismos existentes no Brasil traz uma enorme versatilidade metabólica para gerar novos produtos” revela. O pesquisador ainda conta que outra característica dos microrganismos, que beneficia pesquisas focadas em melhoramento genético, é o ciclo de vida desses seres são curtos, podendo ser de minutos ou horas. Isso permite o alcance de resultados em prazos muito mais curtos, se comparados a pesquisas com animais ou plantas.
Manoel Souza, Chefe geral da Embrapa Agroenergia, em um artigo publicado no JornalAgroenergético nº 42, ressalta que as cadeias de produção e uso da cana-de-açúcar e da soja já trabalham no Brasil dentro da lógica de biorrefinaria. Da cana se produz o açúcar, o etanol anidro, o etanol hidratado e a bioeletricidade, entre vários outros produtos. Da soja, se obtém o farelo para alimentação animal – e consequentemente proteína –, óleo para a indústria alimentícia e para biodiesel, além do grão (quase metade da soja produzida no Brasil é exportada na forma de grão). Porém, ainda existe amplo espaço para inserção de novos produtos, com maior valor agregado. É importante também que, mais e mais, outras cadeias no nosso País recebam políticas de desenvolvimento que promovam a sua organização dentro desta lógica de biorrefinaria.
